Beatriz não conseguiu voltar para o apartamento depois que a comissão foi embora.
Não porque Eduardo tivesse feito algo errado — pelo contrário. O problema era justamente isso. Ele havia escolhido. Com uma firmeza que assustava.
Ela precisava de ar.
Caminhou sem rumo pelas ruas próximas, ignorando as mensagens que começavam a pipocar no celular. Não precisava ler para saber de quem eram.
Eduardo não insistiria.
Mas estaria ali.
Sempre ali.
Entrou numa cafeteria quase vazia, sentou-se perto da janela e ficou observando as pessoas passarem. Vidas comuns. Simples. Gente que não precisava decidir entre destino e vontade própria antes do café esfriar.
— Você parece alguém que acabou de descobrir algo que não pediu para saber.
Beatriz ergueu o olhar, surpresa.
A mulher à sua frente devia ter pouco mais de cinquenta anos, roupas discretas, olhar atento demais para ser casual.
— Desculpa? — Beatriz respondeu, na defensiva.
— Fica tranquila — disse a mulher, sentando-se sem pedir permissão. — Eu não estou aqui por acaso. Nem você.
Beatriz sentiu o estômago gelar.
— Eu não conheço você.
— Não ainda — ela sorriu de leve. — Meu nome é Helena. Eu… acompanho histórias como a sua há muito tempo.
— Se você é da família dele, pode ir embora agora — Beatriz disse, firme.
Helena negou com a cabeça.
— Não sou Elenhardt. Mas já fui como você.
A frase caiu pesada.
Beatriz hesitou.
— Como assim?
Helena apoiou as mãos sobre a mesa.
— Casamento arranjado. Homem distante. Um “despertar” tardio que muda tudo — disse. — A diferença é que eu fugi.
O coração de Beatriz disparou.
— E o que aconteceu?
— Eu vivi — Helena respondeu. — Mas nunca inteira.
O silêncio se estendeu entre elas.
— Você teve escolha — Beatriz disse.
— Tive — Helena concordou. — Mas ignorar algo não faz isso deixar de existir.
Beatriz sentiu um arrepio.
— Então você acha que eu deveria ficar?
Helena a encarou com seriedade.
— Não — respondeu. — Acho que você deveria entender o que foi revelado, antes de decidir qualquer coisa.
— Revelado o quê?
Helena respirou fundo.
— Que você não foi escolhida para ser submissa. Foi escolhida para ser eixo.
Beatriz franziu o cenho.
— Isso parece exatamente o tipo de discurso que a família dele usaria.
— A família dele usa isso para controlar — Helena rebateu. — O destino não funciona assim.
Ela se inclinou um pouco mais.
— Quando ele despertou, não foi porque você ia embora. Foi porque você não se quebrou.
Beatriz sentiu os olhos arderem.
— Ele te ignorou para não depender — Helena continuou. — Agora depende. E isso o apavora mais do que perder herança ou nome.
Beatriz pensou na forma como Eduardo a encarara ao enfrentar a comissão. Não havia cálculo ali. Havia decisão.
— E se eu ficar? — Beatriz perguntou, quase num sussurro.
Helena sorriu, triste.
— Então você vai ter que ensinar a ele a amar sem dominar.
Beatriz engoliu em seco.
— E se eu for embora?
— Então ele vai sobreviver — Helena respondeu. — Mas nunca mais será inteiro.
A conversa terminou ali.
Quando Beatriz saiu da cafeteria, o céu começava a escurecer. O celular vibrava na mão.
Dessa vez, ela atendeu.
— Onde você está? — a voz de Eduardo veio baixa, controlada, mas carregada de algo quase doloroso.
— Andando.
— Você está bem?
Ela respirou fundo.
— Não sei.
Houve uma pausa do outro lado.
— Posso ir até você?
— Não — Beatriz respondeu. — Ainda não.
— Tudo bem — ele disse. — Eu espero.
A resposta foi simples demais.
— Por que você faz isso? — ela perguntou, exausta.
— Porque eu prometi não te cercar — ele respondeu. — Mesmo que isso me destrua.
Ela fechou os olhos.
— Você não pode colocar sua vida inteira nas minhas mãos.
— Eu não coloquei — ele disse. — Ela sempre esteve aí. Eu só fingia que não.
Beatriz sentiu o peso daquilo se instalar.
— E se eu nunca conseguir te amar do jeito que você espera?
Eduardo não respondeu de imediato.
Quando falou, a voz era firme.
— Então eu vou te amar o suficiente por nós dois — disse. — Sem te prender. Sem te apagar.
— Isso não é justo.
— Amor raramente é.
Beatriz parou de andar.
— Você está obcecado.
— Estou consciente — ele corrigiu. — Pela primeira vez.
Ela respirou fundo.
— Eu preciso de tempo.
— Eu sei.
— E espaço.
— Eu dou.
— E verdade — ela completou.
Eduardo não hesitou.
— Então aqui vai uma — disse. — Eu te quero mais do que qualquer coisa que já quis. Mas, se você disser que ir embora é o que te mantém inteira… eu não vou te quebrar para ficar comigo.
O silêncio caiu pesado.
Beatriz sentiu as lágrimas finalmente caírem.
— Você devia ter sido assim antes.
— Eu sei — ele respondeu. — E isso é o que eu vou carregar, independentemente da sua escolha.
Ela desligou.
Voltou para casa horas depois, sozinha.
Mas, ao entrar no apartamento, encontrou algo que a fez parar.
Sobre a mesa, havia uma pasta.
Dentro, documentos assinados.
Renúncia parcial.
Eduardo abrira mão de cláusulas de controle, de veto, de posse indireta.
No topo, um bilhete escrito à mão:
“Se você ficar, que seja inteira.
Se você for, que seja livre.
Eu ainda estarei aqui.”
Beatriz sentou-se no sofá, o papel tremendo nas mãos.
A revelação divina não tinha sido um sonho.
Nem uma profecia.
Tinha sido algo muito mais assustador.
Ela não estava presa a Eduardo.
Ela estava sendo escolhida — sem correntes.
E agora, pela primeira vez, a decisão realmente era dela.