Capítulo 18 — Aquilo Que Foi Revelado

969 Palavras
Beatriz não conseguiu voltar para o apartamento depois que a comissão foi embora. Não porque Eduardo tivesse feito algo errado — pelo contrário. O problema era justamente isso. Ele havia escolhido. Com uma firmeza que assustava. Ela precisava de ar. Caminhou sem rumo pelas ruas próximas, ignorando as mensagens que começavam a pipocar no celular. Não precisava ler para saber de quem eram. Eduardo não insistiria. Mas estaria ali. Sempre ali. Entrou numa cafeteria quase vazia, sentou-se perto da janela e ficou observando as pessoas passarem. Vidas comuns. Simples. Gente que não precisava decidir entre destino e vontade própria antes do café esfriar. — Você parece alguém que acabou de descobrir algo que não pediu para saber. Beatriz ergueu o olhar, surpresa. A mulher à sua frente devia ter pouco mais de cinquenta anos, roupas discretas, olhar atento demais para ser casual. — Desculpa? — Beatriz respondeu, na defensiva. — Fica tranquila — disse a mulher, sentando-se sem pedir permissão. — Eu não estou aqui por acaso. Nem você. Beatriz sentiu o estômago gelar. — Eu não conheço você. — Não ainda — ela sorriu de leve. — Meu nome é Helena. Eu… acompanho histórias como a sua há muito tempo. — Se você é da família dele, pode ir embora agora — Beatriz disse, firme. Helena negou com a cabeça. — Não sou Elenhardt. Mas já fui como você. A frase caiu pesada. Beatriz hesitou. — Como assim? Helena apoiou as mãos sobre a mesa. — Casamento arranjado. Homem distante. Um “despertar” tardio que muda tudo — disse. — A diferença é que eu fugi. O coração de Beatriz disparou. — E o que aconteceu? — Eu vivi — Helena respondeu. — Mas nunca inteira. O silêncio se estendeu entre elas. — Você teve escolha — Beatriz disse. — Tive — Helena concordou. — Mas ignorar algo não faz isso deixar de existir. Beatriz sentiu um arrepio. — Então você acha que eu deveria ficar? Helena a encarou com seriedade. — Não — respondeu. — Acho que você deveria entender o que foi revelado, antes de decidir qualquer coisa. — Revelado o quê? Helena respirou fundo. — Que você não foi escolhida para ser submissa. Foi escolhida para ser eixo. Beatriz franziu o cenho. — Isso parece exatamente o tipo de discurso que a família dele usaria. — A família dele usa isso para controlar — Helena rebateu. — O destino não funciona assim. Ela se inclinou um pouco mais. — Quando ele despertou, não foi porque você ia embora. Foi porque você não se quebrou. Beatriz sentiu os olhos arderem. — Ele te ignorou para não depender — Helena continuou. — Agora depende. E isso o apavora mais do que perder herança ou nome. Beatriz pensou na forma como Eduardo a encarara ao enfrentar a comissão. Não havia cálculo ali. Havia decisão. — E se eu ficar? — Beatriz perguntou, quase num sussurro. Helena sorriu, triste. — Então você vai ter que ensinar a ele a amar sem dominar. Beatriz engoliu em seco. — E se eu for embora? — Então ele vai sobreviver — Helena respondeu. — Mas nunca mais será inteiro. A conversa terminou ali. Quando Beatriz saiu da cafeteria, o céu começava a escurecer. O celular vibrava na mão. Dessa vez, ela atendeu. — Onde você está? — a voz de Eduardo veio baixa, controlada, mas carregada de algo quase doloroso. — Andando. — Você está bem? Ela respirou fundo. — Não sei. Houve uma pausa do outro lado. — Posso ir até você? — Não — Beatriz respondeu. — Ainda não. — Tudo bem — ele disse. — Eu espero. A resposta foi simples demais. — Por que você faz isso? — ela perguntou, exausta. — Porque eu prometi não te cercar — ele respondeu. — Mesmo que isso me destrua. Ela fechou os olhos. — Você não pode colocar sua vida inteira nas minhas mãos. — Eu não coloquei — ele disse. — Ela sempre esteve aí. Eu só fingia que não. Beatriz sentiu o peso daquilo se instalar. — E se eu nunca conseguir te amar do jeito que você espera? Eduardo não respondeu de imediato. Quando falou, a voz era firme. — Então eu vou te amar o suficiente por nós dois — disse. — Sem te prender. Sem te apagar. — Isso não é justo. — Amor raramente é. Beatriz parou de andar. — Você está obcecado. — Estou consciente — ele corrigiu. — Pela primeira vez. Ela respirou fundo. — Eu preciso de tempo. — Eu sei. — E espaço. — Eu dou. — E verdade — ela completou. Eduardo não hesitou. — Então aqui vai uma — disse. — Eu te quero mais do que qualquer coisa que já quis. Mas, se você disser que ir embora é o que te mantém inteira… eu não vou te quebrar para ficar comigo. O silêncio caiu pesado. Beatriz sentiu as lágrimas finalmente caírem. — Você devia ter sido assim antes. — Eu sei — ele respondeu. — E isso é o que eu vou carregar, independentemente da sua escolha. Ela desligou. Voltou para casa horas depois, sozinha. Mas, ao entrar no apartamento, encontrou algo que a fez parar. Sobre a mesa, havia uma pasta. Dentro, documentos assinados. Renúncia parcial. Eduardo abrira mão de cláusulas de controle, de veto, de posse indireta. No topo, um bilhete escrito à mão: “Se você ficar, que seja inteira. Se você for, que seja livre. Eu ainda estarei aqui.” Beatriz sentou-se no sofá, o papel tremendo nas mãos. A revelação divina não tinha sido um sonho. Nem uma profecia. Tinha sido algo muito mais assustador. Ela não estava presa a Eduardo. Ela estava sendo escolhida — sem correntes. E agora, pela primeira vez, a decisão realmente era dela.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR