Capítulo 20 — Entre o Não e o Inferno

1050 Palavras
O silêncio entre nós não era vazio. Era pesado. Vivo. Cheio de coisas que nenhum dos dois tinha coragem de dizer em voz alta. A casa parecia grande demais naquela noite. O corredor longo, iluminado apenas pela luz amarelada dos abajures, fazia cada passo ecoar como se denunciasse o que eu estava tentando ignorar desde a manhã: meu casamento não era só um contrato frio. Não mais. Eu sentia isso no estômago. No peito. No jeito como meu corpo reagia à simples presença dele. E aquilo me irritava profundamente. Eu fechei a porta do quarto com mais força do que o necessário, jogando a bolsa sobre a poltrona. Meu vestido ainda estava em mim, apertado demais para uma noite que deveria ser tranquila. Passei a mão pelo cabelo, puxando os fios para trás, tentando respirar. — Você vai fugir de mim até quando? A voz veio de trás. Baixa. Controlada. Perigosa. Meu coração disparou — traidor — antes mesmo de eu me virar. Ele estava parado perto da porta, como se sempre tivesse estado ali. Terno escuro já sem o paletó, camisa branca aberta no primeiro botão, mangas dobradas até os antebraços. A postura relaxada não enganava ninguém. Ele estava atento. Cada músculo em alerta. — Eu não estou fugindo — respondi, fria demais para alguém com o pulso acelerado daquele jeito. — Só não tenho nada para conversar com você. Ele sorriu de canto. Aquele sorriso específico. O que não tinha humor nenhum. Só desafio. — Engraçado — disse, caminhando devagar pelo quarto. — Porque desde o momento em que você assinou aquele contrato, tudo em você virou assunto meu. Eu me virei completamente para ele, cruzando os braços. — Não confunda um casamento arranjado com posse. Ele parou a poucos passos de mim. Perto demais. — Não confunda distância com indiferença — respondeu, a voz um tom mais grave. — Eu sempre estive observando você. Aquilo me atingiu como um tapa invisível. — Mentira. — Não é. O silêncio voltou a se esticar entre nós, agora tenso, elétrico. Eu sentia o cheiro dele. Amadeirado. Familiar demais para alguém que, teoricamente, não me queria. — Se você sempre esteve olhando — falei — por que nunca tocou? O olhar dele desceu lentamente. Do meu rosto até minha boca. Depois para o pescoço. Para a linha do colo exposto. Quando voltou aos meus olhos, estava diferente. Mais escuro. — Porque tocar em você sem saber o que isso significaria… — Ele deu mais um passo, me encurralando entre o corpo dele e a cama. — … seria atravessar uma linha que eu não sabia se conseguiria desfazer depois. Meu corpo reagiu antes da minha razão. Minhas costas tocaram o colchão, e eu não dei mais nenhum passo para trás. Não conseguia. Cada centímetro de proximidade fazia minha pele queimar. — Você não tem o direito de me confundir agora — murmurei. — Não depois de meses fingindo que eu não existia. A mandíbula dele se contraiu. — Você acha mesmo que foi fingimento? A mão dele subiu. Parou a poucos centímetros do meu rosto. Não tocou. Aquilo era pior do que qualquer toque. — Você acha que eu dormiria no mesmo teto que você — continuou — sem sentir vontade de quebrar cada regra que eu mesmo escrevi? Meu fôlego falhou. — Então por que não quebrou? Ele riu, baixo. Sem humor. — Porque eu sabia que, no momento em que tocasse em você… — a voz dele caiu para um sussurro — … eu não saberia parar. Meu Deus. Eu deveria empurrá-lo. Deveria lembrar do contrato, das cláusulas frias, do motivo pelo qual aquele casamento existia. Deveria lembrar que eu planejava pedir o divórcio assim que tivesse coragem suficiente. Mas meu corpo não estava interessado em planos futuros. Minha mão subiu sozinha. Tocou o peito dele por cima da camisa. O coração dele batia forte. — Você não é o único que sente isso — confessei, a voz traindo tudo que eu vinha segurando. — E isso me assusta. O olhar dele queimou. — Então estamos no mesmo inferno. A mão dele finalmente tocou meu rosto. O polegar deslizou pela minha mandíbula com uma lentidão calculada, como se estivesse me dando tempo de dizer não. Eu não disse. O beijo não veio imediato. Ele encostou a testa na minha, respirando comigo, como se aquele segundo fosse uma decisão irreversível. — Se eu beijar você agora — murmurou —, não vai ser só desejo. Vai ser posse. Vai ser obsessão. Meu coração estava tão acelerado que doía. — Então não beija — desafiei, mesmo sabendo que era mentira. Ele me beijou. Não foi delicado. Não foi contido. Foi intenso, quente, faminto. Como alguém que passou tempo demais se controlando e finalmente perdeu. Minha mão se agarrou à camisa dele. A dele desceu pela minha cintura, puxando meu corpo contra o dele sem pedir permissão. O beijo aprofundou. Línguas, respirações descompassadas, o mundo reduzido àquele quarto. Quando ele se afastou, a testa ainda colada à minha, a voz dele estava rouca. — Isso muda tudo. — Não — respondi, mesmo ofegante. — Isso só prova o que já estava errado. Ele me encarou, confuso. — Eu vou pedir o divórcio — falei, firme agora. — E quando isso acontecer… você vai entender que não pode me querer só quando é conveniente. O silêncio que caiu foi diferente. Não era tensão. Era impacto. Os olhos dele se arregalaram levemente — a primeira fissura real naquele homem sempre no controle. — Você acha que eu vou deixar você ir? — perguntou. — Você não tem escolha. Ele sorriu. Mas agora não havia desafio. Havia algo perigoso. Determinado. — Você não entende ainda — disse, a mão ainda firme na minha cintura. — A partir do momento em que você decidiu ir embora… foi o momento em que eu soube que não viveria sem você. Um arrepio percorreu meu corpo inteiro. — Isso não é amor — sussurrei. — Não — ele concordou, aproximando o rosto novamente do meu. — Ainda não. Ele soltou meu corpo com esforço visível, dando um passo para trás. — Mas vai ser. E quando ele saiu do quarto, me deixando sozinha, eu soube: o pedido de divórcio não seria o fim. Seria o começo da obsessão dele.
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