O silêncio entre nós não era vazio.
Era pesado. Vivo. Cheio de coisas que nenhum dos dois tinha coragem de dizer em voz alta.
A casa parecia grande demais naquela noite. O corredor longo, iluminado apenas pela luz amarelada dos abajures, fazia cada passo ecoar como se denunciasse o que eu estava tentando ignorar desde a manhã: meu casamento não era só um contrato frio. Não mais.
Eu sentia isso no estômago. No peito. No jeito como meu corpo reagia à simples presença dele.
E aquilo me irritava profundamente.
Eu fechei a porta do quarto com mais força do que o necessário, jogando a bolsa sobre a poltrona. Meu vestido ainda estava em mim, apertado demais para uma noite que deveria ser tranquila. Passei a mão pelo cabelo, puxando os fios para trás, tentando respirar.
— Você vai fugir de mim até quando?
A voz veio de trás. Baixa. Controlada. Perigosa.
Meu coração disparou — traidor — antes mesmo de eu me virar.
Ele estava parado perto da porta, como se sempre tivesse estado ali. Terno escuro já sem o paletó, camisa branca aberta no primeiro botão, mangas dobradas até os antebraços. A postura relaxada não enganava ninguém. Ele estava atento. Cada músculo em alerta.
— Eu não estou fugindo — respondi, fria demais para alguém com o pulso acelerado daquele jeito. — Só não tenho nada para conversar com você.
Ele sorriu de canto.
Aquele sorriso específico. O que não tinha humor nenhum. Só desafio.
— Engraçado — disse, caminhando devagar pelo quarto. — Porque desde o momento em que você assinou aquele contrato, tudo em você virou assunto meu.
Eu me virei completamente para ele, cruzando os braços.
— Não confunda um casamento arranjado com posse.
Ele parou a poucos passos de mim.
Perto demais.
— Não confunda distância com indiferença — respondeu, a voz um tom mais grave. — Eu sempre estive observando você.
Aquilo me atingiu como um tapa invisível.
— Mentira.
— Não é.
O silêncio voltou a se esticar entre nós, agora tenso, elétrico. Eu sentia o cheiro dele. Amadeirado. Familiar demais para alguém que, teoricamente, não me queria.
— Se você sempre esteve olhando — falei — por que nunca tocou?
O olhar dele desceu lentamente. Do meu rosto até minha boca. Depois para o pescoço. Para a linha do colo exposto.
Quando voltou aos meus olhos, estava diferente.
Mais escuro.
— Porque tocar em você sem saber o que isso significaria… — Ele deu mais um passo, me encurralando entre o corpo dele e a cama. — … seria atravessar uma linha que eu não sabia se conseguiria desfazer depois.
Meu corpo reagiu antes da minha razão. Minhas costas tocaram o colchão, e eu não dei mais nenhum passo para trás. Não conseguia. Cada centímetro de proximidade fazia minha pele queimar.
— Você não tem o direito de me confundir agora — murmurei. — Não depois de meses fingindo que eu não existia.
A mandíbula dele se contraiu.
— Você acha mesmo que foi fingimento?
A mão dele subiu. Parou a poucos centímetros do meu rosto. Não tocou.
Aquilo era pior do que qualquer toque.
— Você acha que eu dormiria no mesmo teto que você — continuou — sem sentir vontade de quebrar cada regra que eu mesmo escrevi?
Meu fôlego falhou.
— Então por que não quebrou?
Ele riu, baixo. Sem humor.
— Porque eu sabia que, no momento em que tocasse em você… — a voz dele caiu para um sussurro — … eu não saberia parar.
Meu Deus.
Eu deveria empurrá-lo. Deveria lembrar do contrato, das cláusulas frias, do motivo pelo qual aquele casamento existia. Deveria lembrar que eu planejava pedir o divórcio assim que tivesse coragem suficiente.
Mas meu corpo não estava interessado em planos futuros.
Minha mão subiu sozinha. Tocou o peito dele por cima da camisa.
O coração dele batia forte.
— Você não é o único que sente isso — confessei, a voz traindo tudo que eu vinha segurando. — E isso me assusta.
O olhar dele queimou.
— Então estamos no mesmo inferno.
A mão dele finalmente tocou meu rosto. O polegar deslizou pela minha mandíbula com uma lentidão calculada, como se estivesse me dando tempo de dizer não.
Eu não disse.
O beijo não veio imediato. Ele encostou a testa na minha, respirando comigo, como se aquele segundo fosse uma decisão irreversível.
— Se eu beijar você agora — murmurou —, não vai ser só desejo. Vai ser posse. Vai ser obsessão.
Meu coração estava tão acelerado que doía.
— Então não beija — desafiei, mesmo sabendo que era mentira.
Ele me beijou.
Não foi delicado. Não foi contido. Foi intenso, quente, faminto. Como alguém que passou tempo demais se controlando e finalmente perdeu.
Minha mão se agarrou à camisa dele. A dele desceu pela minha cintura, puxando meu corpo contra o dele sem pedir permissão.
O beijo aprofundou. Línguas, respirações descompassadas, o mundo reduzido àquele quarto.
Quando ele se afastou, a testa ainda colada à minha, a voz dele estava rouca.
— Isso muda tudo.
— Não — respondi, mesmo ofegante. — Isso só prova o que já estava errado.
Ele me encarou, confuso.
— Eu vou pedir o divórcio — falei, firme agora. — E quando isso acontecer… você vai entender que não pode me querer só quando é conveniente.
O silêncio que caiu foi diferente. Não era tensão. Era impacto.
Os olhos dele se arregalaram levemente — a primeira fissura real naquele homem sempre no controle.
— Você acha que eu vou deixar você ir? — perguntou.
— Você não tem escolha.
Ele sorriu. Mas agora não havia desafio. Havia algo perigoso. Determinado.
— Você não entende ainda — disse, a mão ainda firme na minha cintura. — A partir do momento em que você decidiu ir embora… foi o momento em que eu soube que não viveria sem você.
Um arrepio percorreu meu corpo inteiro.
— Isso não é amor — sussurrei.
— Não — ele concordou, aproximando o rosto novamente do meu. — Ainda não.
Ele soltou meu corpo com esforço visível, dando um passo para trás.
— Mas vai ser.
E quando ele saiu do quarto, me deixando sozinha, eu soube:
o pedido de divórcio não seria o fim.
Seria o começo da obsessão dele.