Eu não dormi.
Passei a noite inteira encarando o teto, sentindo ainda o gosto dele na boca, o peso das mãos na minha cintura, a ameaça velada em cada palavra que ele disse antes de sair do quarto. Meu corpo estava cansado, mas minha mente não desligava. Cada vez que eu fechava os olhos, revivia o beijo. A forma como ele me segurou como se eu fosse algo que poderia escapar a qualquer segundo.
O pior de tudo?
Eu queria mais.
E isso me enchia de raiva.
Levantei antes do sol nascer, tomei um banho longo demais, como se a água quente pudesse apagar o que aconteceu. Não apagou. Meu reflexo no espelho denunciava tudo: os olhos cansados, a boca levemente inchada, a expressão de quem tinha cruzado uma linha invisível.
Eu estava decidida.
O divórcio não era mais uma ideia distante. Era uma necessidade.
Desci para a cozinha já vestida, preparada para sair cedo. Não queria encontrá-lo. Não hoje. Não depois de tudo.
Mas, claro, ele estava lá.
Encostado na bancada, camisa social escura perfeitamente ajustada ao corpo, mangas abotoadas, aparência impecável demais para alguém que, teoricamente, também tinha passado a noite em claro. Ele segurava uma xícara de café, mas não bebia. Estava me esperando.
— Bom dia — disse, a voz controlada demais.
Ignorei. Fui direto à cafeteira.
— Precisamos conversar.
— Não — respondi, seca. — Não precisamos.
Ele se virou completamente para mim.
— Você vai fingir que nada aconteceu?
Ri, sem humor.
— Engraçado você falar em fingimento agora.
O silêncio caiu pesado. Eu sentia o olhar dele nas minhas costas, queimando, analisando cada movimento meu como se estivesse tentando decifrar algo.
— Você falou em divórcio — ele disse por fim. — Aquilo não foi no calor do momento, foi?
Virei devagar.
— Não. Foi lucidez.
Os olhos dele escureceram.
— Você assinou um contrato.
— E contratos podem ser rompidos.
Ele largou a xícara na bancada com força contida.
— Não sem consequências.
— Eu sei — respondi, firme. — E mesmo assim, vou pedir.
Por um segundo, vi algo diferente no rosto dele. Não era raiva. Nem frustração. Era… inquietação. Como se algo dentro dele estivesse saindo do controle.
— Você não entende o que está mexendo — disse, baixo.
— Então me explica — desafiei.
Ele abriu a boca para responder, mas o celular vibrou em cima da bancada. Ele olhou para a tela, franziu a testa e atendeu.
— Fala.
Eu me afastei, pegando minha bolsa, decidida a sair antes que aquela conversa se tornasse perigosa demais para minha sanidade. Mas parei no meio do caminho quando ouvi o tom da voz dele mudar completamente.
— O quê?
Meu estômago revirou.
— Não — ele continuou. — Não, isso não faz sentido.
Silêncio. Depois, ele respirou fundo.
— Estou indo.
Ele desligou e me encarou como se eu não estivesse ali segundos antes.
— Preciso sair.
— Ótimo — respondi. — Eu também.
— Não — ele disse, rápido. — Você fica.
Ri, incrédula.
— Você não manda em mim.
— Hoje, manda — respondeu, sem elevar a voz. — É coisa séria.
— O que aconteceu?
Ele hesitou. Pela primeira vez desde que o conheci, pareceu… dividido.
— Meu avô.
Meu coração apertou. O homem que praticamente construiu o império da família, a figura quase mítica por trás de tudo.
— Ele passou m*l?
— Não — ele disse, pegando o paletó. — Ele acordou.
Franzi a testa.
— Acordou?
— De um coma de semanas — completou. — E pediu para me ver. Agora.
Algo na forma como ele disse aquilo me deu um arrepio estranho.
O hospital cheirava a antisséptico e tensão.
Eu não sabia por que tinha ido junto. Talvez curiosidade. Talvez aquela sensação estranha de que algo importante estava prestes a acontecer. Ele caminhava pelos corredores com passos firmes, mas os ombros estavam tensos, como se estivesse se preparando para um impacto.
O quarto era silencioso demais.
O avô dele estava deitado, frágil, mas com os olhos incrivelmente vivos. Quando nos viu entrar, um sorriso lento se formou nos lábios enrugados.
— Finalmente — disse, a voz rouca. — Você trouxe sua esposa.
Meu corpo enrijeceu.
— Avô… — ele começou.
— Cala a boca — o velho cortou, sem esforço algum. — Senta. Os dois.
Obedecemos.
O homem me olhou de cima a baixo, como se estivesse me enxergando de verdade pela primeira vez.
— Você sabe por que eu insisti nesse casamento? — perguntou, olhando para mim agora.
— Não — respondi, cautelosa.
— Porque Deus me mostrou — disse, simples. — Em sonho. Três noites seguidas.
Senti um calafrio percorrer minha espinha.
— Ela — apontou para mim — estava ao seu lado quando tudo desmoronava. E era a única coisa que sobrava quando o resto queimava.
Olhei para ele, depois para meu marido. O rosto dele estava completamente imóvel.
— Isso é loucura — murmurei.
O velho riu, um som seco.
— Você também acha que é coincidência que eu acorde exatamente hoje? — perguntou ao neto. — No dia em que você decidiu perder o que te mantém inteiro?
O ar ficou pesado demais para respirar.
— Ela vai pedir o divórcio — continuou o avô, como se estivesse narrando algo inevitável. — E é aí que você vai entender.
Meu coração batia tão forte que doía.
— Entender o quê? — perguntei.
Os olhos do velho brilharam.
— Que não foi você quem escolheu essa mulher — disse. — Foi o destino. E você só vai perceber o valor quando achar que perdeu.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Quando saímos do quarto, ele me segurou pelo braço no corredor. Não forte. Mas decidido.
— Você ouviu aquilo — disse.
— Ouvi um velho delirando — respondi, tentando me soltar.
Ele não soltou.
— Não — disse, a voz baixa e carregada. — Você ouviu exatamente o que precisava ouvir.
O olhar dele estava diferente. Não era só desejo agora. Era foco. Intensidade. Algo quase perigoso.
— Eu vou pedir o divórcio — repeti, mesmo com o coração acelerado.
Ele se aproximou, encostando a testa na minha.
— Então pede — sussurrou. — Mas não confunda isso com liberdade.
Meu corpo reagiu de novo. Maldito corpo.
— Porque no momento em que você tentar ir… — a mão dele apertou minha cintura — … eu vou atrás.
Engoli em seco.
— Isso soa como ameaça.
Ele sorriu, lento.
— Não. Soa como promessa.
E ali, naquele corredor de hospital, eu entendi:
o divórcio não ia me libertar dele.
Ia acender algo muito pior.