Eu devia ter ido embora daquele hospital sozinha.
Devia ter pegado um táxi, um carro de aplicativo, qualquer coisa que me afastasse dele.
Mas quando percebi, estava sentada no banco do passageiro, olhando a cidade passar pela janela como se estivesse em transe.
Nenhum de nós disse uma palavra durante o trajeto.
E aquilo era pior do que uma discussão.
O silêncio dele não era vazio. Era calculado. Pesado. Cheio de coisas não ditas que pareciam pressionar o ar dentro do carro.
Eu sentia o olhar dele em mim, mesmo sem virar o rosto.
Como se estivesse me estudando.
Como se estivesse… recalculando.
Quando chegamos em casa, fui a primeira a descer. Caminhei rápido até a porta, mas antes que eu colocasse a chave na fechadura, a mão dele fechou em torno do meu pulso.
Não forte.
Mas firme o suficiente para me impedir.
— Entra — ele disse.
— Eu já estava entrando.
— Não assim.
Virei para ele.
— Então como?
Os olhos dele estavam mais escuros do que o normal. Não era raiva. Não era exatamente desejo.
Era algo novo.
Algo que eu não tinha visto antes.
— A gente vai conversar.
Soltei uma risada curta.
— Engraçado como você só quer conversar quando sente que está perdendo alguma coisa.
Ele não negou.
Abriu a porta e praticamente me guiou para dentro, fechando atrás de nós com um clique seco.
O som ecoou pela casa inteira.
Soou definitivo.
— Fala — eu disse, cruzando os braços. — O que mudou desde ontem?
Ele ficou parado por alguns segundos, como se estivesse escolhendo cada palavra.
— Eu passei meses achando que esse casamento era só um acordo estratégico — começou. — Algo necessário. Frio. Controlável.
— E não é?
— Não mais.
Meu estômago se revirou.
— Por causa do que seu avô disse?
— Não — ele respondeu. — Por causa do que você disse.
Franzi a testa.
— Eu falei que vou pedir divórcio.
— Exatamente.
Ele deu um passo na minha direção.
— Até ontem, você era minha esposa por contrato. Uma presença constante, previsível. Eu sabia onde você estava. Sabia que você não ia embora.
Deu mais um passo.
— Hoje, você virou uma possibilidade de perda.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Isso não é sobre amor — falei.
— Eu sei.
— Então sobre o quê é?
Ele parou na minha frente.
Perto demais.
— Sobre eu perceber que a ideia de você não existir mais na minha vida me deixa fora de controle.
Engoli em seco.
— Isso é ego.
— Talvez.
A mão dele subiu lentamente, parando a poucos centímetros do meu rosto, como da última vez.
— Mas também é desejo.
O ar entre nós ficou pesado.
— Não encosta em mim — eu disse.
Ele não encostou.
O que tornava tudo pior.
— Você sente — ele continuou, a voz baixa. — Eu sei que sente.
— Sentir não significa ficar.
— Não — ele concordou. — Mas significa que você não vai sair ilesa.
Aquilo soou como aviso.
Ou promessa.
Dei um passo para trás.
— Eu vou falar com um advogado.
Os olhos dele brilharam.
— Já esperava.
— E quando o divórcio sair…
— Não vai sair rápido.
— Mesmo assim, eu vou embora.
Ele inclinou levemente a cabeça, me observando como se eu fosse um quebra-cabeça interessante demais.
— Você acha mesmo que consegue simplesmente desaparecer da minha vida?
— Sim.
Ele sorriu.
Não foi um sorriso bonito.
Foi perigoso.
— Então você ainda não entendeu nada.
Meu coração começou a martelar no peito.
— Entender o quê?
Ele finalmente tocou.
A mão fechou na minha cintura.
Um toque firme.
Quente.
Possessivo demais para alguém que dizia não se importar.
— Que você não é mais só uma esposa por contrato.
— E o que eu sou agora? — desafiei.
Ele se inclinou, a boca próxima do meu ouvido.
— Minha tentação.
Um arrepio atravessou meu corpo inteiro.
Empurrei o peito dele.
— Para com isso.
Ele não recuou.
— Você pediu divórcio.
— Vou pedir.
— Ótimo.
A mão dele apertou levemente minha cintura.
— Mas não confunda isso com o fim.
Meu corpo reagiu de forma traiçoeira.
Eu odiava isso.
— Você está dizendo que vai me impedir?
— Estou dizendo que vou te convencer.
— À força?
Ele puxou meu corpo um centímetro mais perto.
— Não.
A voz dele baixou.
— Você vai ficar porque vai querer.
Minha respiração estava descompassada.
— Você está muito confiante.
— Não.
Ele roçou o polegar lentamente na minha lateral.
— Estou determinado.
Por um segundo, pensei em beijá-lo.
Por um segundo e******o, insano, completamente errado.
Mas me afastei.
— Você não pode mudar meses de indiferença em dois dias de interesse.
— Eu não estou tentando mudar o passado.
Ele me soltou devagar.
— Estou construindo o futuro.
— Sem a minha permissão.
— Você ainda não disse que não quer.
Abri a boca para responder.
E fechei.
Porque a verdade era feia demais.
Eu queria.
Mas querer não significava que era certo.
— Eu vou para o quarto — falei.
— Nosso quarto.
Olhei para ele.
— Ainda não.
Ele deu de ombros.
— Ainda.
Passei por ele sem olhar para trás.
Mas eu sentia.
Sentia os olhos dele em mim.
Sentia que algo tinha mudado.
Não era mais indiferença.
Não era mais só desejo.
Era atenção constante.
Vigilante.
Obcecada.
Fechei a porta do quarto com o coração disparado.
Encostei nela, respirando fundo.
E pela primeira vez desde que assinei aquele contrato, entendi uma coisa com clareza assustadora:
Pedir o divórcio não ia me libertar.
Ia me transformar no objetivo dele.