Eu percebi no terceiro dia.
Não foi algo óbvio.
Não teve confronto. Não teve discussão. Não teve cena.
Foi pior.
Ele passou a estar… sempre.
Quando eu descia para tomar café, ele já estava na cozinha.
Quando eu saía para trabalhar, o motorista já estava me esperando — mesmo nos dias em que eu costumava ir sozinha.
Quando eu chegava em casa, ele sabia exatamente a que horas eu tinha saído, onde tinha ido, se tinha almoçado fora ou não.
Não porque eu contava.
Porque ele perguntava aos outros.
E ninguém ousava dizer não.
No começo, tentei fingir que era coincidência.
Depois, ficou impossível.
Naquela manhã, eu estava no closet procurando um blazer quando notei.
Meu celular não estava onde eu tinha deixado.
Tinha certeza absoluta de que o coloquei em cima da cômoda.
Ele estava na cama.
Com a tela apagada.
Meu estômago gelou.
Peguei o aparelho e desbloqueei.
Nada parecia diferente.
Nenhum aplicativo aberto.
Nenhuma mensagem estranha.
Mas a sensação de violação estava lá.
Desci as escadas com o coração acelerado.
Ele estava na sala, lendo algo no tablet, perfeitamente calmo.
— Você mexeu no meu celular? — perguntei, sem rodeios.
Ele levantou o olhar.
Não fingiu surpresa.
Não fingiu indignação.
— Sim.
A naturalidade da resposta me deixou sem reação por um segundo.
— Por quê?
Ele apoiou o tablet na mesa de centro.
— Curiosidade.
— Curiosidade não te dá direito.
Ele se levantou.
— Você é minha esposa.
— Por enquanto.
Os olhos dele escureceram levemente.
— Você continua repetindo isso como se fosse um escudo.
— E você continua agindo como se eu fosse propriedade sua.
Ele se aproximou devagar.
— Não.
Parou a poucos passos de mim.
— Eu estou agindo como alguém que não pretende ser descartado.
Meu coração batia forte.
— Você não pode me vigiar.
— Posso.
— Não pode.
— Posso — repetiu, com calma. — E vou.
Engoli em seco.
— Isso é doentio.
— Não — ele respondeu. — Isso é reação.
— Reação a quê?
Ele inclinou a cabeça.
— À ameaça de te perder.
O silêncio que caiu entre nós era pesado demais.
— Você vai cruzar muitos limites assim — falei.
— Já cruzei.
— E não percebe?
— Percebo.
— E não se importa?
Ele se aproximou mais um passo.
— Eu me importo mais com você do que com os limites.
Aquilo deveria me assustar mais do que assustou.
Talvez assustasse.
Mas também mexia comigo de um jeito errado.
— Eu marquei com um advogado — menti.
Não tinha marcado.
Ainda.
Mas precisava ver a reação.
Foi sutil.
Muito sutil.
Mas eu vi.
A mandíbula dele se contraiu.
Os olhos ficaram mais frios.
— Quando?
— Hoje.
— Onde?
— Isso não te interessa.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois sorriu.
— Interessante.
— O quê?
— Você ainda acha que consegue fazer qualquer coisa sem que eu saiba.
Um arrepio percorreu minha espinha.
— Você está me ameaçando?
— Não.
Ele ergueu a mão e tocou meu queixo, obrigando-me a olhar para ele.
— Estou sendo honesto.
A proximidade era sufocante.
— Você vai se cansar disso — falei.
— Não.
— Vai perceber que não pode me manter presa.
— Eu não preciso te prender.
O polegar dele roçou levemente minha mandíbula.
— Você já está aqui.
Meu coração martelava.
— Por enquanto.
Ele sorriu de novo.
— Gosto desse desafio.
Afastei a mão dele.
— Você não é um jogo.
— Não.
Ele me observou como se estivesse gravando cada detalhe meu.
— Você é uma obsessão em construção.
Aquilo me atingiu em cheio.
Sem perceber, dei um passo para trás.
Ele notou.
E pareceu gostar.
— Você tem medo — ele disse.
— De você? Um pouco.
— Bom.
— Bom?
— Significa que você entendeu que eu não estou brincando.
Respirei fundo.
— Você não pode me obrigar a te amar.
— Eu não quero te obrigar.
— Então o que você quer?
Ele se aproximou novamente, encurralando-me contra a parede.
Colocou as mãos dos dois lados da minha cabeça.
Não me tocou.
Mas me cercou.
— Quero que você pense em mim quando estiver longe.
— Já penso.
Ele sorriu de canto.
— Quero que você sinta minha falta mesmo tentando me odiar.
Fechei os olhos por um segundo.
Droga.
— Quero que você perceba que nenhum outro homem vai te fazer sentir o que eu faço.
Abri os olhos.
— Isso é arrogância.
— Não.
A voz dele baixou.
— Isso é convicção.
O ar entre nós estava pesado.
Meu corpo reagia apesar da minha cabeça gritar para correr.
— Sai da minha frente — pedi.
Ele se afastou.
Sem discussão.
Sem drama.
Como se tivesse certeza de que já tinha vencido uma batalha invisível.
Passei por ele sem olhar para trás.
Mas eu sabia.
Sabia que, a partir daquele dia, eu não estava mais apenas em um casamento arranjado.
Eu estava dentro da primeira gaiola.
E o mais assustador?
Parte de mim ainda não sabia se queria quebrar as grades…
Ou testar até onde elas iam.