Capítulo 24 — O Mundo Vai Encolher

897 Palavras
O advogado nunca apareceu. Eu esperei por quarenta minutos. Depois por cinquenta. Depois por uma hora inteira, sentada naquela cafeteria elegante demais para a raiva que crescia dentro de mim. O café esfriou. Meu celular vibrou três vezes com mensagens irrelevantes. Nenhuma explicação. Nenhum pedido de desculpas. Nada. Quando finalmente liguei para o escritório, a secretária parecia confusa. — Mas… senhora, sua reunião foi cancelada ontem à noite. Meu coração deu um solavanco. — Cancelada por quem? Houve um pequeno silêncio do outro lado da linha. — Pelo… seu marido. Ele alegou um conflito de interesses. Minhas mãos começaram a tremer. — Isso não é possível — falei, a voz baixa demais. — Eu sou a cliente. — Ele é o principal financiador do escritório — respondeu ela, constrangida. — Achei que a senhora soubesse. Desliguei sem responder. Por alguns segundos, fiquei sentada, olhando para o nada, tentando respirar. Depois levantei. O mundo parecia menor quando voltei para casa. Não fisicamente — a casa continuava grande, luxuosa, impecável —, mas a sensação era de que as paredes tinham se aproximado um pouco mais. Ele estava na sala. Claro que estava. De pé, olhando pela janela como se estivesse esperando exatamente aquele momento. — Você cancelou minha reunião — eu disse, sem rodeios. Ele se virou devagar. — Sim. — Você não tinha o direito. — Tinha. — Não tinha! Minha voz ecoou mais alto do que eu queria. Ele caminhou até mim com calma irritante. — Você escolheu o advogado errado. — Eu escolho o advogado que eu quiser. — Não escolhe — corrigiu. — Não quando isso ameaça tudo o que foi construído. — Tudo o quê? — ri, amarga. — Um casamento morto? Algo mudou no olhar dele. — Não ouse chamar de morto. — Você ignorou minha existência por meses! — Porque eu estava no controle. A resposta foi honesta demais. — E agora não está? Ele parou a poucos passos de mim. — Agora eu estou consciente. O arrepio veio antes que eu pudesse impedir. — Isso é controle abusivo. — Não. Ele respirou fundo. — Isso é contenção de dano. — Você está me impedindo de sair. — Estou atrasando. — Para quê? Ele inclinou levemente a cabeça, me observando como se estivesse medindo cada reação. — Para você desistir. Meu coração martelava. — Eu nunca vou desistir. — Vai. — Não. — Vai — repetiu, com calma assustadora. — Porque eu vou garantir que não exista um lugar onde você se sinta mais segura do que aqui. Aquilo me gelou por dentro. — Isso soa como ameaça. — Soa como realidade. Dei um passo para trás. — Você não pode controlar o mundo. — Não preciso — respondeu. — Só o seu entorno. A forma como ele disse aquilo foi pior do que qualquer grito. — Você está me sufocando — sussurrei. — Ainda não. — Ainda?! Ele se aproximou mais um pouco. — Você vai saber quando for. Meu corpo inteiro estava em alerta. — Você acha que isso vai me fazer te amar? — Não. — Então por que insiste? A resposta demorou. Quando veio, foi mais baixa. — Porque quando você me olha assim… com raiva, medo, desejo misturados… eu sei que já sou parte de você. Minha respiração falhou. — Isso é doentio. — É humano. Ele estendeu a mão. — Vem. — Não. — Só conversar. — Você sempre diz isso. — E você sempre vem. O silêncio se estendeu. Eu odeio admitir. Mas ele estava certo. A raiva não me fazia ir embora. Fazia ficar. — Você não pode me isolar — falei. — Não estou isolando. — Está sim. — Estou filtrando. — Pessoas não são ruído. — São — ele disse, firme. — Quando tentam te afastar de mim. — Você não é o centro da minha vida! Ele sorriu lentamente. — Ainda. Aquele “ainda” ficou suspenso no ar. — Você está mudando — falei. — Não. Ele se aproximou até que eu sentisse o calor do corpo dele. — Estou revelando. Meu coração batia tão forte que parecia querer fugir do peito. — Você não era assim. — Sempre fui. A mão dele subiu, tocando meu braço com cuidado calculado. — Só não com você. — E agora? — Agora eu sei. — Sabe o quê? Ele inclinou a cabeça, os lábios próximos do meu ouvido. — Que se eu te deixar espaço… alguém ocupa. Afastei-me bruscamente. — Você não confia em mim. — Confio — respondeu. — No que você sente. — E no que eu sinto, eu quero ir embora. Ele me encarou por longos segundos. Depois, assentiu lentamente. — Então vai. Fiquei surpresa. — Vai — repetiu. — Sai. Vê o mundo. Tenta respirar longe de mim. Ele abriu espaço para que eu passasse. — Mas entende uma coisa — continuou, a voz baixa. — Cada passo seu vai me pertencer também. — Você é louco. — Talvez. O olhar dele estava firme. Determinado. Irrevogável. — Mas eu não perco o que é meu. Passei por ele com o coração disparado. Subi as escadas sem olhar para trás. Tranquei a porta do quarto. Encostei nela, tremendo. Eu sabia. Sabia que ele não ia me impedir fisicamente. Não precisava. O mundo já tinha começado a encolher ao redor de mim. E, no centro de tudo… Estava ele.
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