Capítulo 25 — Quando Alguém Ousa Olhar

978 Palavras
Eu saí. De verdade. Não avisei. Não pedi permissão. Não deixei bilhete algum. Peguei a bolsa, o celular, as chaves e atravessei a porta como se aquilo fosse um ato de coragem — mesmo sentindo, no fundo do peito, que ele já sabia. Sempre sabia. O ar da rua parecia diferente. Mais leve. Mais real. Era ridículo como algo tão simples quanto andar sozinha pela calçada parecia um ato de rebeldia. Eu respirava fundo, tentando ignorar a sensação persistente de que estava sendo observada, mesmo sem ver ninguém. Entrei no primeiro café que encontrei. Pequeno, barulhento, vivo. Pessoas conversando alto, risadas soltas, música baixa demais para ser incômoda. Normalidade. Eu precisava lembrar como era isso. — Posso sentar aqui? A voz masculina me tirou do transe. Levantei os olhos. Ele era bonito. Não do tipo ameaçadoramente bonito como meu marido. Bonito de forma fácil. Sorriso aberto, olhar curioso, postura relaxada. Alguém que parecia… acessível. — Claro — respondi, depois de um segundo. Ele puxou a cadeira. — Primeira vez aqui? — É tão óbvio assim? Ele riu. — Um pouco. Você olha em volta como se estivesse reaprendendo a respirar. A frase me acertou em cheio. — Talvez eu esteja. Conversamos. Coisas banais. Café r**m que a gente finge gostar. Trabalho. Filmes. Nada profundo. Nada perigoso. E ainda assim… Eu me senti viva. Quando percebi, já estávamos rindo juntos. Meu corpo relaxado. Minha guarda baixa. Foi nesse momento que o silêncio caiu. Não o do café. O outro. Aquele que eu conhecia bem demais. Levantei o olhar. Ele estava parado do lado de fora, do outro lado do vidro. Imóvel. O mundo pareceu congelar. Meu coração despencou no estômago. Ele não parecia com raiva. Parecia… focado. Os olhos fixos em mim. Depois, no homem sentado à minha frente. Depois, de volta em mim. Devagar, empurrou a porta e entrou. O café inteiro pareceu encolher. Ele caminhou até a nossa mesa sem pressa alguma. Parou ao meu lado, apoiando a mão na cadeira vazia como se fosse o dono daquele espaço — e, por extensão, de mim. — Amor — disse, a voz calma demais. — Estava te procurando. Meu corpo inteiro entrou em alerta. — Eu… — comecei. — Não precisa explicar — ele continuou, os olhos nunca deixando o outro homem. — Vejo que está ocupada. O homem à minha frente pigarreou. — Desculpa, eu não sabia que— — Não estava falando com você — meu marido disse, sem sequer olhar para ele. O tom foi educado. Frio. Assustador. — Nós estávamos só conversando — falei, firme. Finalmente, ele me olhou. E algo escuro passou pelos olhos dele. — Eu sei. A mão dele pousou no encosto da minha cadeira. — Mas já chega. — Você não decide isso. Ele se inclinou um pouco, aproximando o rosto do meu ouvido. — Decide sim — murmurou. — Porque eu estou decidindo agora. O outro homem se levantou, visivelmente desconfortável. — Acho melhor eu ir — disse. — Foi um prazer. Ele saiu rápido demais. Covarde? Talvez. Mas eu não o culpei. Assim que ficamos sozinhos, o ar entre nós ficou denso. — Você me seguiu — eu disse. — Eu te acompanhei. — Isso é doentio. — Você rindo com outro homem também é — respondeu. Levantei-me abruptamente. — Você não tem o direito de sentir ciúmes! Ele segurou meu pulso. Não forte. Mas inegável. — Tenho. — Não tem! — Tenho porque você é minha esposa. — Por contrato! Ele se levantou também. — Por escolha — corrigiu. — Você ainda está aqui. — Porque você não me deixa sair! Os olhos dele se apertaram. — Não confunda limites com prisão. — Isso é exatamente o que você está fazendo! Ele me puxou para mais perto, ignorando os olhares curiosos ao redor. — Você gosta de provocar — disse, baixo. — Gosta de testar até onde eu vou. — Eu gosto de respirar! — Então por que escolheu justamente alguém que te olhava como se pudesse te levar? Meu coração batia forte demais. — Ele não significava nada. — Ainda bem. — Ainda bem?! — Porque se significasse — a voz dele baixou perigosamente — eu teria sido menos educado. Engoli em seco. — Você está fora de controle. — Não. Ele me encarou como se estivesse cravando algo em mim. — Estou exatamente onde sempre estive. Só parei de fingir. Ele me soltou e apontou para a porta. — Vamos. — Não. — Você vem comigo. — Eu disse não! Ele se inclinou novamente, a boca próxima do meu ouvido. — E eu disse que você ainda não sabe ir embora. Meu corpo inteiro reagiu à proximidade. Raiva. Medo. Desejo. Tudo misturado. Odiável. — Isso vai acabar m*l — murmurei. — Vai — ele concordou. — Mas não hoje. Saímos do café em silêncio. No carro, ele não ligou o motor de imediato. Ficou ali, as mãos no volante, respirando fundo. — Você não pode fazer isso — eu disse. — Me marcar território. Ele virou o rosto lentamente. — Eu não marquei. — Fez pior. — Lembrei ao mundo que você não está disponível. — Eu sou uma pessoa, não um aviso! — Para mim — ele respondeu — você é tudo o que importa. O silêncio caiu novamente. Mas agora… Era diferente. Mais pesado. Mais íntimo. — Você cruzou uma linha hoje — falei. — Você também. — Eu só conversei! — E gostou. Não neguei. Ele sorriu de canto. — Viu? Ligou o carro. — Da próxima vez que alguém olhar para você desse jeito… — começou. — O que? Ele arrancou com o carro. — Eu vou estar ainda menos paciente. Meu coração disparou. E eu soube. Aquilo não era mais apenas obsessão silenciosa. Era ciúme declarado. Visível. Perigoso. E a parte mais assustadora? Eu ainda estava no banco do passageiro.
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