Eu não falei nada durante o trajeto.
Não porque não tivesse o que dizer, mas porque qualquer palavra parecia pequena demais para a confusão que se espalhava dentro de mim. O carro avançava pelas ruas como se o mundo lá fora não existisse de verdade, como se tudo fosse apenas um cenário temporário até chegarmos de volta àquele lugar que já não parecia casa — parecia território.
Ele dirigia em silêncio, os maxilares travados, a atenção fixa na estrada. Não havia música. Não havia distração. Só o som do motor e da minha respiração irregular.
Quando estacionou na garagem, desligou o carro e ficou ali, imóvel.
— Sai — disse, por fim.
Saí.
Subimos juntos, mas sem tocar um no outro. O elevador parecia pequeno demais para conter tudo o que estava suspenso entre nós. Eu sentia o calor do corpo dele, a tensão contida, como um fio esticado ao máximo, prestes a arrebentar.
Assim que entramos no apartamento, ele fechou a porta atrás de nós.
Não com força.
Com intenção.
— Você se divertiu — ele disse.
Não era uma pergunta.
— Não é crime conversar com alguém.
— Não.
Ele largou as chaves sobre a mesa.
— Mas não foi só conversa.
— Foi sim.
Ele se virou lentamente.
— Você estava sorrindo.
— Isso ainda não é crime.
Ele se aproximou.
— Para mim é.
Meu coração acelerou.
— Você não pode decidir como eu ajo em público.
— Posso decidir o que isso provoca em mim.
— E isso justifica o quê? Me seguir? Me constranger?
Ele parou a poucos centímetros de mim.
— Justifica eu parar de fingir que consigo te dividir com o mundo.
O ar ficou pesado.
— Eu não sou algo que se divide — falei.
— É exatamente isso — ele respondeu, a voz mais baixa. — Você é algo que se escolhe.
— E eu não escolhi você!
As palavras saíram mais duras do que eu pretendia.
Por um segundo, achei que ele ia explodir.
Mas não.
Ele respirou fundo.
Deu um passo para trás.
— Ainda não.
— Para com isso.
— Não.
Ele me observava como se estivesse tentando enxergar além do que eu dizia.
— Você não teria ficado tão irritada se não soubesse que aquilo mexeu comigo.
— Eu fiquei irritada porque você me trata como propriedade!
— Não — ele disse. — Eu te trato como alguém que me afeta.
— Afetar não te dá direito.
— Dá responsabilidade.
— Isso é uma desculpa bonita para controle.
Ele sorriu de leve.
— E você está aprendendo a reconhecer quando eu estou mentindo para mim mesmo.
Aquilo me fez engolir em seco.
— Você gosta disso — falei. — Gosta de me deixar confusa.
— Não.
Ele se aproximou de novo, mais devagar.
— Eu gosto de quando você para de fingir que não sente nada.
— Eu sinto raiva.
— Também.
— Medo.
— Também.
— E isso deveria ser suficiente para você se afastar.
Ele levantou a mão, parando a poucos centímetros do meu rosto.
— Mas não é tudo.
Meu coração batia tão forte que parecia ecoar no peito.
— Você não sabe o que eu sinto.
— Sei o suficiente.
— Não sabe!
— Sei que você não foi embora quando podia.
— Porque você me impede!
— Não — ele corrigiu. — Porque você hesita.
O silêncio que caiu foi pesado.
— Você quer ir? — ele perguntou, de repente.
A pergunta me pegou desprevenida.
— O quê?
— Quer ir agora? — repetiu. — Eu te levo. Onde você quiser.
— Para quê esse teatro?
— Não é teatro.
Ele se afastou completamente, apontando para a porta.
— Vai.
Meu corpo não se mexeu.
— Vai — insistiu, a voz firme. — Se você acha que eu estou te mantendo aqui à força.
Eu olhei para a porta.
Depois para ele.
Meu estômago se revirou.
— Você sabe que não é tão simples.
— Sei — ele respondeu. — Mas quero ver você tentar.
— Por quê?
Ele demorou a responder.
— Porque se você sair agora… — disse, finalmente — … vai perceber que não é o mundo que te puxa de volta.
— É você.
— Não — ele corrigiu, os olhos fixos nos meus. — É o que eu desperto.
Aquilo me atravessou como uma lâmina fina.
— Isso é manipulação.
— Talvez.
— Você não pode brincar com isso.
— Eu não estou brincando.
Dei um passo em direção à porta.
Meu coração disparou.
Outro passo.
A mão na maçaneta.
Por um segundo, tudo ficou em silêncio absoluto.
— Se você sair — ele disse, atrás de mim —, eu não vou te impedir.
Fechei os olhos.
— Mas quando voltar…
— Eu não vou voltar.
— Vai.
A certeza na voz dele me irritou profundamente.
— Você é arrogante demais.
— Sou observador.
Respirei fundo.
Girei a maçaneta.
Abri a porta.
O corredor estava vazio.
Frio.
Impessoal.
Dei um passo para fora.
Depois outro.
E então…
Pare.
Meu corpo parou antes da minha mente.
Aquela sensação estranha voltou. O vazio. A ausência dele como uma pressão incômoda, quase física.
— Droga… — murmurei.
Ouvi o som suave dele se aproximando.
— Viu? — ele disse, sem tocar em mim. — Não sou eu que te prende.
Virei de uma vez.
— Você não ganha isso.
— Eu sei.
Ele me olhou com algo diferente agora.
Não vitória.
Não arrogância.
Algo quase vulnerável.
— Isso não é uma disputa — disse. — É um reconhecimento.
— De quê?
— De que você também sente.
Fechei a porta atrás de mim.
O clique ecoou.
Definitivo demais.
— Eu odeio isso — falei.
— Eu também.
— Então por que não para?
Ele se aproximou lentamente.
— Porque toda vez que você chega perto de ir embora… — murmurou — … eu percebo que já não sei existir sem você aqui.
Meu coração apertou.
— Isso não é saudável.
— Eu sei.
— Então muda.
Ele parou a poucos centímetros de mim.
— Me mostra como.
O pedido, baixo e cru, me desmontou mais do que qualquer ameaça.
Por um instante, eu vi.
Vi o homem que tinha passado meses distante não por desprezo, mas por medo de perder o controle. Vi a obsessão nascer não do nada, mas da consciência tardia de que ele tinha deixado algo crescer sem vigilância.
— Você está se apoiando em mim — sussurrei.
— Sim.
— E se eu cair?
— Eu caio junto.
A honestidade me deixou sem ar.
— Isso vai acabar m*l — repeti.
— Provavelmente.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Mas não agora.
Fiquei ali, parada, sentindo o peso do olhar dele, da proximidade, do que estava sendo construído entre nós — algo errado, intenso, impossível de ignorar.
Eu sabia.
Sabia que aquilo não era amor ainda.
Mas também sabia que já não era só um contrato.
Era dependência em formação.
E meu coração…
Batendo rápido demais para fingir que não sentia.