Capítulo 26 — O Que Você Desperta

1177 Palavras
Eu não falei nada durante o trajeto. Não porque não tivesse o que dizer, mas porque qualquer palavra parecia pequena demais para a confusão que se espalhava dentro de mim. O carro avançava pelas ruas como se o mundo lá fora não existisse de verdade, como se tudo fosse apenas um cenário temporário até chegarmos de volta àquele lugar que já não parecia casa — parecia território. Ele dirigia em silêncio, os maxilares travados, a atenção fixa na estrada. Não havia música. Não havia distração. Só o som do motor e da minha respiração irregular. Quando estacionou na garagem, desligou o carro e ficou ali, imóvel. — Sai — disse, por fim. Saí. Subimos juntos, mas sem tocar um no outro. O elevador parecia pequeno demais para conter tudo o que estava suspenso entre nós. Eu sentia o calor do corpo dele, a tensão contida, como um fio esticado ao máximo, prestes a arrebentar. Assim que entramos no apartamento, ele fechou a porta atrás de nós. Não com força. Com intenção. — Você se divertiu — ele disse. Não era uma pergunta. — Não é crime conversar com alguém. — Não. Ele largou as chaves sobre a mesa. — Mas não foi só conversa. — Foi sim. Ele se virou lentamente. — Você estava sorrindo. — Isso ainda não é crime. Ele se aproximou. — Para mim é. Meu coração acelerou. — Você não pode decidir como eu ajo em público. — Posso decidir o que isso provoca em mim. — E isso justifica o quê? Me seguir? Me constranger? Ele parou a poucos centímetros de mim. — Justifica eu parar de fingir que consigo te dividir com o mundo. O ar ficou pesado. — Eu não sou algo que se divide — falei. — É exatamente isso — ele respondeu, a voz mais baixa. — Você é algo que se escolhe. — E eu não escolhi você! As palavras saíram mais duras do que eu pretendia. Por um segundo, achei que ele ia explodir. Mas não. Ele respirou fundo. Deu um passo para trás. — Ainda não. — Para com isso. — Não. Ele me observava como se estivesse tentando enxergar além do que eu dizia. — Você não teria ficado tão irritada se não soubesse que aquilo mexeu comigo. — Eu fiquei irritada porque você me trata como propriedade! — Não — ele disse. — Eu te trato como alguém que me afeta. — Afetar não te dá direito. — Dá responsabilidade. — Isso é uma desculpa bonita para controle. Ele sorriu de leve. — E você está aprendendo a reconhecer quando eu estou mentindo para mim mesmo. Aquilo me fez engolir em seco. — Você gosta disso — falei. — Gosta de me deixar confusa. — Não. Ele se aproximou de novo, mais devagar. — Eu gosto de quando você para de fingir que não sente nada. — Eu sinto raiva. — Também. — Medo. — Também. — E isso deveria ser suficiente para você se afastar. Ele levantou a mão, parando a poucos centímetros do meu rosto. — Mas não é tudo. Meu coração batia tão forte que parecia ecoar no peito. — Você não sabe o que eu sinto. — Sei o suficiente. — Não sabe! — Sei que você não foi embora quando podia. — Porque você me impede! — Não — ele corrigiu. — Porque você hesita. O silêncio que caiu foi pesado. — Você quer ir? — ele perguntou, de repente. A pergunta me pegou desprevenida. — O quê? — Quer ir agora? — repetiu. — Eu te levo. Onde você quiser. — Para quê esse teatro? — Não é teatro. Ele se afastou completamente, apontando para a porta. — Vai. Meu corpo não se mexeu. — Vai — insistiu, a voz firme. — Se você acha que eu estou te mantendo aqui à força. Eu olhei para a porta. Depois para ele. Meu estômago se revirou. — Você sabe que não é tão simples. — Sei — ele respondeu. — Mas quero ver você tentar. — Por quê? Ele demorou a responder. — Porque se você sair agora… — disse, finalmente — … vai perceber que não é o mundo que te puxa de volta. — É você. — Não — ele corrigiu, os olhos fixos nos meus. — É o que eu desperto. Aquilo me atravessou como uma lâmina fina. — Isso é manipulação. — Talvez. — Você não pode brincar com isso. — Eu não estou brincando. Dei um passo em direção à porta. Meu coração disparou. Outro passo. A mão na maçaneta. Por um segundo, tudo ficou em silêncio absoluto. — Se você sair — ele disse, atrás de mim —, eu não vou te impedir. Fechei os olhos. — Mas quando voltar… — Eu não vou voltar. — Vai. A certeza na voz dele me irritou profundamente. — Você é arrogante demais. — Sou observador. Respirei fundo. Girei a maçaneta. Abri a porta. O corredor estava vazio. Frio. Impessoal. Dei um passo para fora. Depois outro. E então… Pare. Meu corpo parou antes da minha mente. Aquela sensação estranha voltou. O vazio. A ausência dele como uma pressão incômoda, quase física. — Droga… — murmurei. Ouvi o som suave dele se aproximando. — Viu? — ele disse, sem tocar em mim. — Não sou eu que te prende. Virei de uma vez. — Você não ganha isso. — Eu sei. Ele me olhou com algo diferente agora. Não vitória. Não arrogância. Algo quase vulnerável. — Isso não é uma disputa — disse. — É um reconhecimento. — De quê? — De que você também sente. Fechei a porta atrás de mim. O clique ecoou. Definitivo demais. — Eu odeio isso — falei. — Eu também. — Então por que não para? Ele se aproximou lentamente. — Porque toda vez que você chega perto de ir embora… — murmurou — … eu percebo que já não sei existir sem você aqui. Meu coração apertou. — Isso não é saudável. — Eu sei. — Então muda. Ele parou a poucos centímetros de mim. — Me mostra como. O pedido, baixo e cru, me desmontou mais do que qualquer ameaça. Por um instante, eu vi. Vi o homem que tinha passado meses distante não por desprezo, mas por medo de perder o controle. Vi a obsessão nascer não do nada, mas da consciência tardia de que ele tinha deixado algo crescer sem vigilância. — Você está se apoiando em mim — sussurrei. — Sim. — E se eu cair? — Eu caio junto. A honestidade me deixou sem ar. — Isso vai acabar m*l — repeti. — Provavelmente. Ele inclinou levemente a cabeça. — Mas não agora. Fiquei ali, parada, sentindo o peso do olhar dele, da proximidade, do que estava sendo construído entre nós — algo errado, intenso, impossível de ignorar. Eu sabia. Sabia que aquilo não era amor ainda. Mas também sabia que já não era só um contrato. Era dependência em formação. E meu coração… Batendo rápido demais para fingir que não sentia.
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