Beatriz não conseguia dormir. Mesmo após a conversa tensa que tivera com Eduardo, o silêncio na casa parecia mais ensurdecedor do que nunca. O que começara como um casamento arranjado, sem qualquer tipo de sentimento envolvido, agora se transformava em algo totalmente imprevisível. As palavras dele estavam ecoando em sua mente, repetidas como um mantra: "Você nunca mais será livre."
Ela se levantou da cama, o estômago apertado, e caminhou até a janela. O vento suave da noite parecia não acalmar o turbilhão dentro de si. Tudo o que ela desejava era que as coisas voltassem ao normal, que fosse possível voltar àquela zona de conforto, onde Eduardo era apenas uma sombra distante. Mas ele havia mudado, e isso estava claro.
O que ela não sabia era que, para ele, as coisas já haviam mudado há muito tempo. A indiferença que ele demonstrava não passava de uma fachada. Eduardo sempre soubera que ela seria sua esposa, mas nunca imaginou que ela ousaria desafiar essa ordem. Não porque ele fosse egoísta, ou por achar que ela não teria direito a suas próprias escolhas, mas porque, de certa forma, ele acreditava que ela jamais seria capaz de o abandonar.
Na cabeça dele, Beatriz era uma peça que ele controlava, uma peça que estava ali para cumprir um papel. Mas ela havia cruzado uma linha que ele nunca pensou que ela cruzaria. E isso, de algum modo, o havia abalado profundamente.
Beatriz voltou para a cama, deitando-se de lado. Tentou se convencer de que o melhor seria não pensar mais sobre isso. No entanto, seu corpo estava tenso, seus pensamentos acelerados. O simples fato de Eduardo não tê-la procurado para discutir mais sobre o divórcio a deixava ainda mais angustiada. Ele simplesmente havia saído como se nada tivesse acontecido.
Na manhã seguinte, Beatriz foi para o escritório, tentando manter a normalidade de sua rotina. Como sempre, ela se entregou ao trabalho, tentando fugir do turbilhão emocional que a consumia. Ela havia se tornado boa em esconder seus sentimentos. Mas aquele dia era diferente. Cada vez que alguém a olhava, ela sentia os olhos de Eduardo em sua nuca, como se ele estivesse observando cada movimento seu.
Ela estava se preparando para uma reunião quando seu celular vibrou. Era uma mensagem dele.
"Não pense que você me deixou para trás."
A frase, simples e direta, causou uma reviravolta dentro dela. O que ele queria dizer com aquilo? Como ele sabia o que ela estava pensando? Como ele sabia o que se passava dentro de sua cabeça? Era como se ele estivesse sempre à espreita, mesmo quando estava distante.
Ela respirou fundo e tentou se concentrar na reunião, mas suas mãos estavam trêmulas. Aquela mensagem não a deixava em paz. Beatriz não sabia se ele estava brincando com ela ou se, de fato, algo mais sombrio estava começando a se formar.
À noite, quando voltou para casa, a tensão parecia pairar no ar. Ela não esperava que Eduardo estivesse lá, mas, ao entrar na sala de estar, o encontrou sentado no sofá, como se estivesse aguardando sua chegada. Ele parecia mais calmo, mas havia uma intensidade em seus olhos que ela não conseguia ignorar.
"Eu não pensei que você fosse tão covarde," ele disse, sua voz baixa, mas com um tom carregado de algo que Beatriz não conseguia identificar.
"Covarde?" ela repetiu, incrédula. "Você me chama de covarde?"
Ele a encarou por um longo momento, seu olhar penetrante. "Sim, porque ao invés de me enfrentar, você optou por fugir. Por desistir de nós."
Beatriz sentiu uma onda de raiva subir por sua garganta. "Não sou covarde, Eduardo. Eu estou apenas tentando me livrar dessa prisão. E você está me tratando como se eu fosse sua propriedade. Eu não sou sua, e não vou me deixar dominar."
Ele se levantou lentamente do sofá, e Beatriz sentiu uma pressão crescente no ar. "Você ainda não entendeu, Beatriz," disse ele, sua voz agora mais profunda. "Eu não estou permitindo que você vá embora. Não sem consequências."
Ela deu um passo para trás, seu coração batendo rápido. "O que você quer dizer com isso?" Ela sentia a pele formigar, uma sensação desconfortável tomando conta de seu corpo.
"Eu quero dizer que você subestimou o que eu sou capaz de fazer." Ele deu mais um passo em direção a ela. A cada movimento, Beatriz sentia que a distância entre eles se tornava menor, mais sufocante.
"Você não pode me prender, Eduardo. Não vai conseguir."
Mas, então, ele sorriu. Não foi um sorriso de alegria, mas algo mais obscuro, algo que ela nunca havia visto nele antes. "Você pensa que está no controle, Beatriz. Mas está longe de estar."
Ele se aproximou ainda mais, e, por um instante, ela sentiu a pressão de sua presença, como se o ar ao seu redor se tornasse mais denso, mais pesado. "Eu vou fazer você ver o quanto você está errada," ele disse, sua voz carregada de uma determinação que Beatriz não sabia como lidar.
Ela tentou dar um passo para trás, mas seu corpo parecia paralisado. Algo nele estava transformando aquela situação em um jogo onde ela não sabia as regras, onde ele tinha todas as cartas. Algo na forma como ele a observava fazia com que ela sentisse um nó na garganta, uma sensação de que estava perdendo o controle, de que ele estava dominando tudo.
"Você vai se arrepender de desafiar o que somos, Beatriz," ele sussurrou, quase como uma promessa.
Ela não sabia o que ele queria dizer com aquilo. Não sabia se ele a estava ameaçando ou se realmente acreditava que ele poderia mantê-la ali, ao seu lado, sem que ela tivesse qualquer escolha. A única coisa que sabia era que algo estava prestes a acontecer, algo que ela não poderia prever. Algo que a deixaria ainda mais presa naquele jogo que ele começava a controlar.
Ele a observou por mais alguns segundos, até que, finalmente, se afastou. Mas antes de sair da sala, ele se virou uma última vez, seus olhos agora carregados de algo que Beatriz reconheceu como obsessão.
"Você vai se render, Beatriz," ele disse, com uma calma assustadora. "E quando isso acontecer, vai ser tarde demais para tentar voltar."
Beatriz ficou ali, paralisada, enquanto ele se afastava. As palavras dele ecoaram em sua mente, e, pela primeira vez desde o casamento, ela sentiu o medo apertar sua garganta.
Aquela noite foi longa. Beatriz não conseguia mais se concentrar em nada. As palavras de Eduardo, o olhar possessivo, tudo parecia flutuar em sua mente, sem descanso. Ela estava ciente de que ele estava começando a mudar, de que algo dentro dele estava se quebrando, se transformando. E o mais aterrador era que ela não sabia se estava preparada para lidar com isso.
Ela se levantou da cama mais uma vez, sentindo uma angústia crescente em seu peito. Seus passos a levaram até a janela, onde ela olhou para as luzes da cidade à distância. Havia algo mais acontecendo, algo que ela não podia controlar.
E então, mais uma vez, a mensagem apareceu em seu celular. Dessa vez, era simples, mas carregava um peso que ela não podia ignorar.
"Você vai ser minha, Beatriz. E nada vai impedir isso."
E naquele momento, ela soubera que não havia mais volta.