Beatriz aprendeu, da pior forma possível, que o silêncio também machuca.
Não era o tipo de dor que gritava ou sangrava, mas aquela que se infiltrava devagar, se acomodava no peito e passava a fazer parte da rotina. O tipo de dor que vinha toda vez que Eduardo passava por ela como se fosse apenas mais um móvel caro daquela casa absurda de grande.
Ela estava sentada à mesa do café da manhã quando ele entrou na sala, impecável como sempre. Terno escuro, camisa perfeitamente passada, relógio caro no pulso. O mesmo homem com quem ela havia se casado há três meses… e que ainda parecia um completo estranho.
Eduardo não disse bom dia.
Não perguntou se ela havia dormido bem.
Não olhou para ela.
Apenas pegou uma xícara, serviu café e começou a mexer no celular.
Beatriz observou cada gesto com uma calma treinada à força. Antes, aquilo a feria. Agora, a ferida já estava aberta — o que restava era uma dormência amarga.
— Hoje tem o jantar com os acionistas — ele disse, finalmente, sem erguer os olhos. — Vista algo adequado.
Ela piscou uma vez.
Adequado.
Não bonito.
Não confortável.
Não algo que a fizesse se sentir desejada.
Apenas adequado.
— Eu não fui avisada — respondeu, mantendo a voz firme.
Eduardo finalmente levantou o olhar. Seus olhos escuros pousaram nela por um segundo a mais do que o habitual, como se estivesse avaliando se aquela informação realmente importava.
— Agora está — disse, simples. — Saímos às oito.
E voltou ao celular.
Beatriz sentiu algo estalar dentro de si.
Não foi raiva explosiva. Foi pior. Foi a clareza fria de quem começa a entender exatamente o lugar que ocupa.
Ela não era esposa.
Era um acessório social.
— Eduardo — chamou, antes que ele saísse.
Ele parou, mão na maçaneta, claramente impaciente.
— O que foi?
Ela se levantou, caminhando até ele. Não por submissão, mas por decisão. Olhou diretamente em seus olhos.
— Você sequer percebe que é casado?
Por um instante, o silêncio ficou pesado.
Eduardo a encarou como se aquela pergunta fosse um inconveniente inesperado, algo fora do script.
— Claro que percebo — respondeu. — Foi uma decisão estratégica. Nada mais.
Estratégica.
A palavra caiu como um tapa.
— Então deixa eu ser clara também — disse ela, sentindo o coração bater mais rápido. — Eu não sou um contrato ambulante. Não sou um nome para aparecer ao seu lado em jantares importantes.
— Está dramatizando — ele rebateu, seco.
Beatriz riu. Um riso curto, sem humor.
— Engraçado… porque eu me sinto invisível.
Eduardo respirou fundo, claramente tentando manter o controle.
— Beatriz, eu trabalho doze, quatorze horas por dia. Não tenho tempo para esse tipo de conversa.
— Para mim, você quer dizer.
Algo mudou no ar.
Não foi visível, mas foi real.
Os olhos dele escureceram levemente, e pela primeira vez desde o casamento, Eduardo pareceu… incomodado.
— Você sabia exatamente no que estava entrando — disse ele. — Esse casamento nunca foi sobre romance.
— Mas deveria ser sobre respeito — ela respondeu, sem baixar o olhar.
Silêncio novamente.
Eduardo a analisou como se estivesse diante de um problema novo, algo que não constava em seus planos.
— Se isso é tudo — ele disse, finalmente —, preciso ir.
Ele saiu.
E a porta se fechou com um clique suave que ecoou alto demais.
Beatriz ficou parada por alguns segundos. Depois, sentou-se novamente à mesa, sentindo uma pressão estranha no peito.
Era isso.
Era ali que ela precisava decidir quanto de si mesma ainda estava disposta a perder.
À noite, ela escolheu um vestido preto simples. Nada provocante. Nada chamativo. Se ele queria algo “adequado”, era isso que teria.
No carro, o silêncio era quase ensurdecedor.
Eduardo dirigia com foco absoluto, mãos firmes no volante, postura rígida. Beatriz observava o perfil dele de soslaio, tentando entender como um homem podia ser tão distante… e ainda assim exercer uma presença tão esmagadora.
Ela odiava admitir, mas ele mexia com algo dentro dela.
E isso a irritava ainda mais.
No jantar, tudo correu como esperado. Sorrisos ensaiados. Toques calculados. A mão de Eduardo pousando em suas costas apenas quando havia olhos observando.
Uma encenação perfeita.
— Sua esposa é encantadora — disse um dos acionistas.
Eduardo sorriu.
— Ela é.
Beatriz sentiu um arrepio estranho. Aquela palavra, dita daquela forma… parecia uma mentira bonita demais para ser confortável.
Quando voltaram para casa, já passava da meia-noite.
Assim que a porta se fechou, Beatriz tirou os saltos e os largou no chão.
— Cansada de fingir — murmurou.
Eduardo afrouxou a gravata, observando-a com atenção silenciosa.
— Ninguém estava fingindo.
Ela virou-se bruscamente.
— Não minta para mim. Você só lembra que eu existo quando precisa.
Algo naquele tom… algo na maneira como ela o enfrentava sem medo… acendeu uma tensão diferente no olhar dele.
— Você quer atenção agora? — ele perguntou, a voz baixa.
O coração dela disparou.
— Eu quero verdade — respondeu.
Eduardo se aproximou um passo.
Depois outro.
O espaço entre eles diminuiu perigosamente.
— Cuidado com o que pede, Beatriz — murmurou. — Algumas verdades não podem ser desditas.
Ela sentiu o corpo reagir contra a própria vontade. O calor. A tensão. A eletricidade silenciosa.
— Então diga — desafiou.
Ele parou diante dela. Próximo demais.
— A verdade — disse, em um tom que fez a pele dela arrepiar — é que eu nunca perdi o controle… até você começar a me desafiar.
O ar ficou denso.
Beatriz engoliu em seco.
Ela não sabia ainda, mas naquele instante algo havia sido despertado.
E não haveria volta.