Capítulo 7 — A Esposa Invisível

947 Palavras
Beatriz aprendeu, da pior forma possível, que o silêncio também machuca. Não era o tipo de dor que gritava ou sangrava, mas aquela que se infiltrava devagar, se acomodava no peito e passava a fazer parte da rotina. O tipo de dor que vinha toda vez que Eduardo passava por ela como se fosse apenas mais um móvel caro daquela casa absurda de grande. Ela estava sentada à mesa do café da manhã quando ele entrou na sala, impecável como sempre. Terno escuro, camisa perfeitamente passada, relógio caro no pulso. O mesmo homem com quem ela havia se casado há três meses… e que ainda parecia um completo estranho. Eduardo não disse bom dia. Não perguntou se ela havia dormido bem. Não olhou para ela. Apenas pegou uma xícara, serviu café e começou a mexer no celular. Beatriz observou cada gesto com uma calma treinada à força. Antes, aquilo a feria. Agora, a ferida já estava aberta — o que restava era uma dormência amarga. — Hoje tem o jantar com os acionistas — ele disse, finalmente, sem erguer os olhos. — Vista algo adequado. Ela piscou uma vez. Adequado. Não bonito. Não confortável. Não algo que a fizesse se sentir desejada. Apenas adequado. — Eu não fui avisada — respondeu, mantendo a voz firme. Eduardo finalmente levantou o olhar. Seus olhos escuros pousaram nela por um segundo a mais do que o habitual, como se estivesse avaliando se aquela informação realmente importava. — Agora está — disse, simples. — Saímos às oito. E voltou ao celular. Beatriz sentiu algo estalar dentro de si. Não foi raiva explosiva. Foi pior. Foi a clareza fria de quem começa a entender exatamente o lugar que ocupa. Ela não era esposa. Era um acessório social. — Eduardo — chamou, antes que ele saísse. Ele parou, mão na maçaneta, claramente impaciente. — O que foi? Ela se levantou, caminhando até ele. Não por submissão, mas por decisão. Olhou diretamente em seus olhos. — Você sequer percebe que é casado? Por um instante, o silêncio ficou pesado. Eduardo a encarou como se aquela pergunta fosse um inconveniente inesperado, algo fora do script. — Claro que percebo — respondeu. — Foi uma decisão estratégica. Nada mais. Estratégica. A palavra caiu como um tapa. — Então deixa eu ser clara também — disse ela, sentindo o coração bater mais rápido. — Eu não sou um contrato ambulante. Não sou um nome para aparecer ao seu lado em jantares importantes. — Está dramatizando — ele rebateu, seco. Beatriz riu. Um riso curto, sem humor. — Engraçado… porque eu me sinto invisível. Eduardo respirou fundo, claramente tentando manter o controle. — Beatriz, eu trabalho doze, quatorze horas por dia. Não tenho tempo para esse tipo de conversa. — Para mim, você quer dizer. Algo mudou no ar. Não foi visível, mas foi real. Os olhos dele escureceram levemente, e pela primeira vez desde o casamento, Eduardo pareceu… incomodado. — Você sabia exatamente no que estava entrando — disse ele. — Esse casamento nunca foi sobre romance. — Mas deveria ser sobre respeito — ela respondeu, sem baixar o olhar. Silêncio novamente. Eduardo a analisou como se estivesse diante de um problema novo, algo que não constava em seus planos. — Se isso é tudo — ele disse, finalmente —, preciso ir. Ele saiu. E a porta se fechou com um clique suave que ecoou alto demais. Beatriz ficou parada por alguns segundos. Depois, sentou-se novamente à mesa, sentindo uma pressão estranha no peito. Era isso. Era ali que ela precisava decidir quanto de si mesma ainda estava disposta a perder. À noite, ela escolheu um vestido preto simples. Nada provocante. Nada chamativo. Se ele queria algo “adequado”, era isso que teria. No carro, o silêncio era quase ensurdecedor. Eduardo dirigia com foco absoluto, mãos firmes no volante, postura rígida. Beatriz observava o perfil dele de soslaio, tentando entender como um homem podia ser tão distante… e ainda assim exercer uma presença tão esmagadora. Ela odiava admitir, mas ele mexia com algo dentro dela. E isso a irritava ainda mais. No jantar, tudo correu como esperado. Sorrisos ensaiados. Toques calculados. A mão de Eduardo pousando em suas costas apenas quando havia olhos observando. Uma encenação perfeita. — Sua esposa é encantadora — disse um dos acionistas. Eduardo sorriu. — Ela é. Beatriz sentiu um arrepio estranho. Aquela palavra, dita daquela forma… parecia uma mentira bonita demais para ser confortável. Quando voltaram para casa, já passava da meia-noite. Assim que a porta se fechou, Beatriz tirou os saltos e os largou no chão. — Cansada de fingir — murmurou. Eduardo afrouxou a gravata, observando-a com atenção silenciosa. — Ninguém estava fingindo. Ela virou-se bruscamente. — Não minta para mim. Você só lembra que eu existo quando precisa. Algo naquele tom… algo na maneira como ela o enfrentava sem medo… acendeu uma tensão diferente no olhar dele. — Você quer atenção agora? — ele perguntou, a voz baixa. O coração dela disparou. — Eu quero verdade — respondeu. Eduardo se aproximou um passo. Depois outro. O espaço entre eles diminuiu perigosamente. — Cuidado com o que pede, Beatriz — murmurou. — Algumas verdades não podem ser desditas. Ela sentiu o corpo reagir contra a própria vontade. O calor. A tensão. A eletricidade silenciosa. — Então diga — desafiou. Ele parou diante dela. Próximo demais. — A verdade — disse, em um tom que fez a pele dela arrepiar — é que eu nunca perdi o controle… até você começar a me desafiar. O ar ficou denso. Beatriz engoliu em seco. Ela não sabia ainda, mas naquele instante algo havia sido despertado. E não haveria volta.
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