Capítulo 10 — O Dia em que Tudo Mudou

905 Palavras
Beatriz não dormiu naquela noite. Não porque Eduardo estivesse ao seu lado — ele não estava. Ele havia passado a noite fora, e isso, ironicamente, foi o que mais a inquietou. O silêncio da casa parecia carregado de algo invisível, como se as paredes soubessem que uma decisão havia sido tomada… e que nada mais seria como antes. Ela se levantou ainda antes do sol nascer. Abriu o guarda-roupa devagar, como se o menor barulho pudesse denunciar sua intenção. Escolheu poucas roupas, colocou tudo em uma mala pequena. Nada chamativo. Nada que parecesse definitivo demais — talvez por medo de admitir que era exatamente isso. Definitivo. O pedido de divórcio já havia sido iniciado. Agora faltava o mais difícil: ir embora. Enquanto fechava a mala, suas mãos tremiam. Não de arrependimento, mas de antecipação. Eduardo não era um homem previsível quando contrariado. E, ainda assim, ela precisava fazer isso por si mesma. Quando desceu as escadas, o céu começava a clarear. A casa parecia maior, mais vazia, como se tivesse sido feita para engolir quem ousasse desafiar sua ordem silenciosa. Ela abriu a porta. — Vai a algum lugar? A voz veio das sombras da sala. Beatriz sentiu o coração quase parar. Eduardo estava ali, encostado na parede, o paletó jogado sobre o braço do sofá, a camisa levemente amarrotada — um contraste gritante com a imagem impecável de sempre. — Vou embora — ela disse, depois de alguns segundos. Ele não respondeu de imediato. Apenas a observou, os olhos atentos demais, analisando cada detalhe: a mala, o rosto decidido, a tensão contida no corpo dela. — Não vai — disse, por fim. Não foi um pedido. Foi uma afirmação. — Eu já decidi — respondeu Beatriz. — Não estou pedindo permissão. Eduardo deu um passo à frente. — Você acha mesmo que sair assim vai resolver alguma coisa? — Vai me devolver algo que eu perdi — ela rebateu. — A mim mesma. Algo se contraiu no maxilar dele. — Você está cometendo um erro. — Talvez — ela disse. — Mas é meu erro. Ela tentou passar por ele. Eduardo segurou a mala. Não com força excessiva. Não com violência. Mas com intenção. — Solta — Beatriz exigiu, sentindo o corpo inteiro entrar em alerta. — Não — ele respondeu, mantendo o olhar fixo no dela. — Não enquanto você não me escutar. — Eu escutei você por meses — ela disse, a voz falhando pela primeira vez. — Escutei o silêncio. A indiferença. O desprezo educado. Eduardo soltou a mala. Mas não se afastou. — Você não entende — disse ele, em um tom diferente. Mais baixo. Mais perigoso. — Nada disso era desprezo. — Então era o quê? Ele hesitou. E foi aí que Beatriz percebeu: Eduardo não estava acostumado a explicar nada. Nunca precisou. — Controle — ele disse, finalmente. — Era controle. A palavra caiu pesada entre eles. — Você me ignorou para me controlar? — ela perguntou, incrédula. — Para não perder o controle — corrigiu ele. Beatriz riu, nervosa. — Irônico. Porque agora você está perdendo. Ela deu mais um passo, determinada a sair. Foi quando tudo aconteceu. Uma tontura súbita. O chão pareceu se mover sob seus pés. A visão escureceu por um segundo, e Beatriz levou a mão ao peito, sentindo o coração bater rápido demais. — Beatriz? A voz de Eduardo soou diferente. Alerta. Preocupada. Ela cambaleou, e antes que pudesse cair, ele a segurou. O toque dele foi firme. Protetor. Instintivo. E então… Ela viu. Não com os olhos. Mas com algo mais profundo. Uma imagem atravessou sua mente como um raio: ela mesma, mais velha, sentada àquela mesma mesa de jantar… sozinha. Sempre sozinha. Uma vida inteira de ausência, de escolhas não feitas, de amor nunca vivido. E, logo depois, outra imagem — Eduardo, ajoelhado, desesperado, segurando a mão dela, implorando para que não o deixasse. Beatriz puxou o ar com força. — O que foi? — Eduardo perguntou, segurando seu rosto. Ela o empurrou, assustada. — Não me toca. — Você quase desmaiou. — Eu vi algo — ela disse, a voz trêmula. — Algo errado. Eduardo congelou. — O quê você viu? — Isso não importa — ela respondeu, tentando recuperar o controle. — O que importa é que isso só confirmou o que eu já sabia. — Que você vai embora? — ele perguntou, tenso. — Que ficar aqui vai me destruir. Ela pegou a mala. Dessa vez, ele não a impediu. Mas algo havia mudado. Assim que Beatriz saiu, Eduardo ficou parado no meio da sala por longos minutos. Algo dentro dele estava… fora do lugar. Uma sensação antiga, que ele não sentia desde criança, quando ouvia as histórias da família — aquelas que sempre tratou como superstição. A linhagem. Os sonhos. As visões. Ele respirou fundo. E, pela primeira vez, sentiu medo. Não de perdê-la. Mas do que aconteceria se isso realmente acontecesse. Horas depois, sozinho no escritório, Eduardo abriu a gaveta que não abria há anos. Tirou de lá um envelope envelhecido, com o selo da família. Dentro, um único papel. “Quando ela tentar partir, será tarde demais para fingir que não é destino.” Eduardo fechou os olhos. A revelação não veio como luz divina. Veio como certeza c***l. Beatriz não era apenas sua esposa. Ela era o eixo de algo muito maior. E ele faria qualquer coisa para trazê-la de volta. Qualquer coisa.
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