Capítulo 11 — O Nome que Não Sai da Boca

1098 Palavras
Beatriz achou que, ao sair daquela casa, finalmente conseguiria respirar. Estava errada. O quarto de hotel era silencioso demais. Limpo demais. Impessoal demais. Não tinha o cheiro de Eduardo, não tinha os passos firmes ecoando no corredor, não tinha a presença esmagadora que ela jurava odiar… mas que agora parecia persegui-la como uma sombra. Ela se sentou na beira da cama, abraçando os próprios braços. Desde a manhã, algo estava diferente dentro dela. A visão não saía da sua cabeça. Ela fechava os olhos e via de novo: Eduardo ajoelhado, quebrado, segurando sua mão como se a vida dele dependesse disso. Aquilo não fazia sentido. Não combinava com o homem frio, distante, calculista com quem se casara. — Para — murmurou para si mesma. Mas o corpo não obedecia. O coração acelerava sem motivo. Um calor estranho subia pelo peito, pela garganta, pela pele. Era como se algo tivesse sido despertado… e agora exigisse atenção. Ela se levantou, andando de um lado para o outro. Não. Ela não voltaria. Não ligaria. Não cederia. O telefone vibrou. Uma vez. Depois outra. Ela olhou para a tela. Eduardo. O nome parecia pulsar. Ela não atendeu. O telefone parou… e logo depois, vibrou de novo. Atenda. O pensamento não parecia totalmente dela. Beatriz engoliu em seco e desligou o aparelho. No mesmo instante, uma pontada atravessou seu peito, como se tivesse feito algo errado. Não moralmente. Não racionalmente. Fisicamente. Ela levou a mão ao colo, respirando fundo. — Isso é loucura… Mas o corpo continuava reagindo. Eduardo não lembrava da última vez que se sentira assim. Não dormira. Não comera. Não pensara em negócios. Tudo o que existia era um nome. Beatriz. Ele andava de um lado para o outro no escritório como um animal enjaulado. O papel antigo ainda estava sobre a mesa, aberto, como se zombasse dele. Quando ela tentar partir… Ela partiu. E algo dentro dele havia simplesmente… quebrado. Não era raiva. Era urgência. Uma necessidade primitiva, quase violenta, de tê-la de volta sob seu olhar. Sob seu controle. Sob sua presença. Mas, acima de tudo, de sentir que ela ainda estava ali. Ele ligou novamente. Nada. — p***a… — murmurou, passando a mão pelos cabelos. Então sentiu. Um puxão seco no peito. Como se alguém tivesse passado um fio invisível por dentro dele e puxado com força. Eduardo levou a mão ao coração. Beatriz. A certeza veio inteira, absurda, inquestionável. Ela não estava bem. Ele saiu do escritório sem pensar duas vezes. Beatriz estava no banheiro quando sentiu a vertigem. Foi pior do que de manhã. As pernas falharam, e ela precisou se apoiar na pia para não cair. A imagem veio forte demais, clara demais. Eduardo entrando no quarto. O olhar escuro. A voz baixa dizendo seu nome como se fosse uma oração. Ela respirava com dificuldade. — Para… para… Batidas na porta. Fortes. Determinadas. Ela congelou. — Beatriz — a voz dele atravessou a madeira. — Abre. O coração dela disparou. — Vai embora, Eduardo — respondeu, a voz trêmula. — Eu sei que você está aí. Ela não se mexeu. — Você não pode fazer isso — disse ela. — Isso é invasão. — Isso é destino — ele respondeu, baixo demais. A palavra fez algo se revirar dentro dela. Destino. As batidas cessaram. Por um segundo, ela achou que ele tivesse ido embora. Então a maçaneta girou. A porta se abriu. Eduardo entrou. O olhar dele a percorreu inteiro, como se precisasse confirmar que ela estava real. Viva. Ali. — Como você me achou? — ela perguntou, recuando um passo. — Eu senti — ele respondeu, sem hesitar. Beatriz riu, nervosa. — Isso não é possível. — É — ele disse, se aproximando lentamente. — E você sentiu também. Não sentiu? Ela tentou negar. Mas o corpo traiu. O ar ficou pesado. Denso. Carregado. — Você não devia estar aqui — ela disse, mas a voz saiu fraca. — Eu não devia ter deixado você ir. Eduardo parou a poucos centímetros dela. — O que aconteceu com você hoje de manhã? — perguntou, sério. — Não é da sua conta. — É tudo da minha conta — ele respondeu. — Desde o momento em que você entrou na minha vida. Beatriz sentiu o calor subir de novo. — Não diz isso — murmurou. — Por quê? — Porque meu corpo acredita — ela confessou, num fio de voz. O silêncio caiu entre eles como uma sentença. Eduardo levou a mão ao rosto dela. Dessa vez, Beatriz não o afastou. — Eu tentei ignorar — ele disse. — Tentei manter distância. Tentei te tratar como parte de um acordo. O polegar dele roçou o maxilar dela, lento, consciente. — Mas agora eu sei. — Sabe o quê? — ela sussurrou. — Que te perder seria o fim de tudo. O toque dele desceu pelo pescoço dela, provocando arrepios. — Eduardo… — ela murmurou, mais um aviso do que um pedido. — Olha pra mim. Ela olhou. O que viu não foi o homem frio de antes. Era algo mais intenso. Mais cru. Mais perigoso. — Você não vai pedir o divórcio — ele disse, a voz baixa, firme. — Você não manda em mim — ela respondeu, mas o corpo estava perto demais para sustentar aquilo. — Não — ele concordou. — Mas isso manda. Ele pousou a mão no centro do peito dela. O coração de Beatriz batia rápido demais. — Desde que você tentou ir embora, isso aqui grita. Ela fechou os olhos. — Para… — Não vou mais fingir — ele continuou. — Não vou mais te ignorar. Não vou mais te soltar. A respiração dela estava descompassada. — Isso não é amor — ela disse. — Não — ele respondeu. — É pior. Eduardo se inclinou. Os lábios dele pararam a milímetros dos dela. — É obsessão. Beatriz deveria ter se afastado. Mas não afastou. Quando os lábios se tocaram, foi lento. Carregado. Como se algo antigo estivesse sendo ativado. Ela gemeu baixo, surpresa com a própria reação. Eduardo aprofundou o beijo, a mão firme na cintura dela, como se tivesse medo de que ela desaparecesse. Por um segundo… ela cedeu. Depois, se afastou bruscamente. — Não — disse, ofegante. — Isso não muda nada. Ele a encarou. — Muda tudo. Ela balançou a cabeça. — Eu ainda quero o divórcio. Eduardo sorriu. Mas não havia alegria ali. — Então vamos ver quem aguenta primeiro. Ele se virou e saiu do quarto. Deixando Beatriz sozinha… com o corpo em chamas e a certeza terrível de que aquilo estava apenas começando.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR