Beatriz achou que, ao sair daquela casa, finalmente conseguiria respirar.
Estava errada.
O quarto de hotel era silencioso demais. Limpo demais. Impessoal demais. Não tinha o cheiro de Eduardo, não tinha os passos firmes ecoando no corredor, não tinha a presença esmagadora que ela jurava odiar… mas que agora parecia persegui-la como uma sombra.
Ela se sentou na beira da cama, abraçando os próprios braços.
Desde a manhã, algo estava diferente dentro dela.
A visão não saía da sua cabeça.
Ela fechava os olhos e via de novo: Eduardo ajoelhado, quebrado, segurando sua mão como se a vida dele dependesse disso. Aquilo não fazia sentido. Não combinava com o homem frio, distante, calculista com quem se casara.
— Para — murmurou para si mesma.
Mas o corpo não obedecia.
O coração acelerava sem motivo. Um calor estranho subia pelo peito, pela garganta, pela pele. Era como se algo tivesse sido despertado… e agora exigisse atenção.
Ela se levantou, andando de um lado para o outro.
Não.
Ela não voltaria.
Não ligaria.
Não cederia.
O telefone vibrou.
Uma vez.
Depois outra.
Ela olhou para a tela.
Eduardo.
O nome parecia pulsar.
Ela não atendeu.
O telefone parou… e logo depois, vibrou de novo.
Atenda.
O pensamento não parecia totalmente dela.
Beatriz engoliu em seco e desligou o aparelho.
No mesmo instante, uma pontada atravessou seu peito, como se tivesse feito algo errado. Não moralmente. Não racionalmente.
Fisicamente.
Ela levou a mão ao colo, respirando fundo.
— Isso é loucura…
Mas o corpo continuava reagindo.
Eduardo não lembrava da última vez que se sentira assim.
Não dormira.
Não comera.
Não pensara em negócios.
Tudo o que existia era um nome.
Beatriz.
Ele andava de um lado para o outro no escritório como um animal enjaulado. O papel antigo ainda estava sobre a mesa, aberto, como se zombasse dele.
Quando ela tentar partir…
Ela partiu.
E algo dentro dele havia simplesmente… quebrado.
Não era raiva.
Era urgência.
Uma necessidade primitiva, quase violenta, de tê-la de volta sob seu olhar. Sob seu controle. Sob sua presença.
Mas, acima de tudo, de sentir que ela ainda estava ali.
Ele ligou novamente.
Nada.
— p***a… — murmurou, passando a mão pelos cabelos.
Então sentiu.
Um puxão seco no peito.
Como se alguém tivesse passado um fio invisível por dentro dele e puxado com força.
Eduardo levou a mão ao coração.
Beatriz.
A certeza veio inteira, absurda, inquestionável.
Ela não estava bem.
Ele saiu do escritório sem pensar duas vezes.
Beatriz estava no banheiro quando sentiu a vertigem.
Foi pior do que de manhã.
As pernas falharam, e ela precisou se apoiar na pia para não cair. A imagem veio forte demais, clara demais.
Eduardo entrando no quarto.
O olhar escuro.
A voz baixa dizendo seu nome como se fosse uma oração.
Ela respirava com dificuldade.
— Para… para…
Batidas na porta.
Fortes.
Determinadas.
Ela congelou.
— Beatriz — a voz dele atravessou a madeira. — Abre.
O coração dela disparou.
— Vai embora, Eduardo — respondeu, a voz trêmula.
— Eu sei que você está aí.
Ela não se mexeu.
— Você não pode fazer isso — disse ela. — Isso é invasão.
— Isso é destino — ele respondeu, baixo demais.
A palavra fez algo se revirar dentro dela.
Destino.
As batidas cessaram.
Por um segundo, ela achou que ele tivesse ido embora.
Então a maçaneta girou.
A porta se abriu.
Eduardo entrou.
O olhar dele a percorreu inteiro, como se precisasse confirmar que ela estava real. Viva. Ali.
— Como você me achou? — ela perguntou, recuando um passo.
— Eu senti — ele respondeu, sem hesitar.
Beatriz riu, nervosa.
— Isso não é possível.
— É — ele disse, se aproximando lentamente. — E você sentiu também. Não sentiu?
Ela tentou negar.
Mas o corpo traiu.
O ar ficou pesado. Denso. Carregado.
— Você não devia estar aqui — ela disse, mas a voz saiu fraca.
— Eu não devia ter deixado você ir.
Eduardo parou a poucos centímetros dela.
— O que aconteceu com você hoje de manhã? — perguntou, sério.
— Não é da sua conta.
— É tudo da minha conta — ele respondeu. — Desde o momento em que você entrou na minha vida.
Beatriz sentiu o calor subir de novo.
— Não diz isso — murmurou.
— Por quê?
— Porque meu corpo acredita — ela confessou, num fio de voz.
O silêncio caiu entre eles como uma sentença.
Eduardo levou a mão ao rosto dela.
Dessa vez, Beatriz não o afastou.
— Eu tentei ignorar — ele disse. — Tentei manter distância. Tentei te tratar como parte de um acordo.
O polegar dele roçou o maxilar dela, lento, consciente.
— Mas agora eu sei.
— Sabe o quê? — ela sussurrou.
— Que te perder seria o fim de tudo.
O toque dele desceu pelo pescoço dela, provocando arrepios.
— Eduardo… — ela murmurou, mais um aviso do que um pedido.
— Olha pra mim.
Ela olhou.
O que viu não foi o homem frio de antes.
Era algo mais intenso. Mais cru. Mais perigoso.
— Você não vai pedir o divórcio — ele disse, a voz baixa, firme.
— Você não manda em mim — ela respondeu, mas o corpo estava perto demais para sustentar aquilo.
— Não — ele concordou. — Mas isso manda.
Ele pousou a mão no centro do peito dela.
O coração de Beatriz batia rápido demais.
— Desde que você tentou ir embora, isso aqui grita.
Ela fechou os olhos.
— Para…
— Não vou mais fingir — ele continuou. — Não vou mais te ignorar. Não vou mais te soltar.
A respiração dela estava descompassada.
— Isso não é amor — ela disse.
— Não — ele respondeu. — É pior.
Eduardo se inclinou.
Os lábios dele pararam a milímetros dos dela.
— É obsessão.
Beatriz deveria ter se afastado.
Mas não afastou.
Quando os lábios se tocaram, foi lento. Carregado. Como se algo antigo estivesse sendo ativado.
Ela gemeu baixo, surpresa com a própria reação.
Eduardo aprofundou o beijo, a mão firme na cintura dela, como se tivesse medo de que ela desaparecesse.
Por um segundo… ela cedeu.
Depois, se afastou bruscamente.
— Não — disse, ofegante. — Isso não muda nada.
Ele a encarou.
— Muda tudo.
Ela balançou a cabeça.
— Eu ainda quero o divórcio.
Eduardo sorriu.
Mas não havia alegria ali.
— Então vamos ver quem aguenta primeiro.
Ele se virou e saiu do quarto.
Deixando Beatriz sozinha… com o corpo em chamas e a certeza terrível de que aquilo estava apenas começando.