Acordei como se tivesse levado um caminhão emocional na noite anterior. O corpo doía, a cabeça latejava, e a alma… bom, essa parecia ter ficado no portão da Clara, debaixo da chuva. Abri os olhos e a luz invadiu o quarto sem pedir licença. Devia ser umas nove da manhã, mas parecia meio-dia de ressaca existencial. Vó Cida bateu na porta, a voz dela já soando como trombeta do apocalipse: — Acorda, defunto! Já tá na hora de ressuscitar! — Deixa eu morrer em paz, vó… — murmurei, com a cara enfiada no travesseiro. — Morrer nada. — Ela entrou no quarto, sem cerimônia, e abriu a janela. — Vai levantar agora. A casa tá parecendo um túmulo, e eu não quero morar com fantasma. A claridade me cegou por um segundo. — Vó, eu tô só… cansado. — Cansado, uma ova. Tu tá é amando, e amor dá sono e

