Ele se senta devagar. Põe a perna boa para fora da cama. Depois, me estende a mão. Nossos dedos se tocam. E nesse toque, sem esforço, sem intenção… meu corpo entende tudo que minha razão ainda tenta negar. O mundo desacelera. E tudo o que existe é a pele dele na minha. — Dormiu bem? — ele pergunta, a voz ainda rouca da noite. — Como um bebê que sequestrou uma perna alheia — murmuro, tentando rir, mas sai mais como um suspiro nervoso. Ele sorri. Aquele meio sorriso que é faca de dois gumes: Doce o suficiente para desmontar. Afiado o bastante para deixar marca. — E você? — pergunto, baixinho. — De um jeito estranho... sim. — Ele termina de encaixar a prótese com calma. Depois se levanta. Nu. Meu olhar desvia. Mas não rápido o bastante. E o pior? Meu corpo não esquece o que viu.

