O PEDIDO

1091 Palavras
Caio Vinícius percebeu que algo estava errado antes mesmo de vê-la. Não foi intuição mística. Foi hábito. Ele aprendera a reconhecer quando o ambiente mudava sem motivo aparente. Um silêncio diferente. Um deslocamento sutil no ar. O tipo de sensação que antecede problemas. Quando levantou os olhos e encontrou Nicole parada a poucos metros, soube que aquele problema não se resolveria com ordem curta nem com postura firme. Ela não estava ali por acaso. Nicole mantinha o corpo ereto, as mãos juntas à frente, como se precisasse ancorar algo que insistia em escapar. Não sorria. Não parecia nervosa no sentido comum. Havia nela uma determinação contida, perigosa, quase adulta demais para quem sempre fora mantida à margem. Caio sentiu o estômago contrair. — O que você tá fazendo aqui? — perguntou, direto, sem suavizar o tom. Nicole respirou fundo antes de responder. Não se aproximou mais. Não recuou. — Hoje é meu aniversário. Ele piscou uma vez, surpreso pela informação chegar daquele jeito. Um detalhe banal em circunstância errada. — Parabéns — respondeu, automático. — Agora vai pra casa. Era uma ordem disfarçada de conselho. O tipo de frase que sempre funcionara. Dessa vez, não funcionou. Nicole permaneceu onde estava. — Eu vim falar com você. Caio sentiu o alerta subir de vez. Olhou em volta rapidamente, certificando-se de que não havia ninguém perto demais. Aquela conversa não podia acontecer ali. Não daquele jeito. — Não é hora nem lugar — disse, mais baixo. — Vai embora. — Se eu for agora — respondeu ela —, não volto mais. A frase caiu pesada. Não como ameaça. Como constatação. Caio fechou o maxilar. — Você não sabe o que tá dizendo. — Sei sim. Ela ergueu o rosto, sustentando o olhar dele com uma firmeza que ele não estava acostumado a ver nela. Aquilo o desestabilizou mais do que gostaria de admitir. — Fala logo — disse ele, impaciente. — O que você quer? Nicole sentiu o coração acelerar, mas não desviou. O limite já tinha sido atravessado antes mesmo daquela frase. Agora, só restava dizer. — Eu quero um presente. Caio soltou um riso curto, sem humor. — Tá brincando comigo? — Não. O silêncio se instalou entre eles como uma lâmina esticada. Caio deu um passo para trás, como se precisasse de espaço físico para respirar. — Nicole — disse, usando o nome dela com uma seriedade rara —, não começa. — Eu não tô começando nada — ela respondeu. — Eu tô terminando. Ele passou a mão pelo rosto, irritado. — Você não faz ideia do que tá pedindo. — Faço. — Não faz — rebateu. — Você tá misturando coisa demais. Nicole respirou fundo mais uma vez. Sabia que aquele era o momento. Não podia mais contornar. — Eu quero você — disse, enfim. — Hoje. O mundo não parou. Mas, para Caio, algo deslocou do lugar. Ele a encarou como se tivesse ouvido errado. O choque veio rápido, seguido de raiva pura, instintiva. Não direcionada a ela — a si mesmo, à situação, ao risco. — Não repete isso — rosnou. — Eu quero você — ela repetiu, com a voz firme demais para alguém que acabara de se expor por completo. — Como presente. Só hoje. Caio sentiu o sangue ferver. — Você enlouqueceu? — explodiu, controlando a própria voz com esforço. — Sai daqui agora. — Se você mandar, eu vou — disse Nicole, sem levantar o tom. — Mas eu vou sabendo que nunca tentei. — Isso não é tentativa — ele rebateu. — Isso é erro. — Eu sei. A admissão desarmou algo dentro dele. — Então por que tá aqui? — perguntou, quase num rosnado contido. Nicole hesitou por um segundo. Não porque não soubesse a resposta. Porque dizer em voz alta doía. — Porque eu te amo. A palavra caiu entre eles como um impacto seco. Caio virou o rosto de imediato, como se o som tivesse atravessado fundo demais. Passou a mão pelos cabelos, respirou fundo, caminhou alguns passos para longe e voltou. — Não fala isso — disse, baixo, perigoso. — Você não sabe o peso dessa palavra. — Eu sei exatamente — respondeu ela. — Eu vivo com ela há anos. Ele riu, incrédulo. — Isso é coisa da sua cabeça. Você cresceu perto demais de mim, só isso. — Não — Nicole negou. — Eu cresci perto demais do silêncio. Caio sentiu o controle escorregar. — Você é irmã do Rafael — disse, tentando se agarrar à lógica. — Isso nunca vai acontecer. — Nunca vai acontecer de novo — ela corrigiu. — Porque eu nunca vou pedir outra coisa. Ele a encarou de novo. Agora com algo diferente no olhar. Não desejo. Não ternura. Conflito. — Você não entende — disse ele. — Se você cruza essa linha, não tem volta. — Eu sei. — Vai se machucar. — Eu já me machuco. A sinceridade dela o desarmava golpe por golpe. — Vai embora — disse ele por fim, a voz mais baixa, mais dura. — Antes que eu faça uma coisa que não tem conserto. Nicole sentiu o peso da escolha cair inteiro sobre os ombros. Aquela era a última chance de recuar. O último instante seguro. Ela respirou fundo. — Se você me mandar agora — disse —, eu vou. E nunca mais olho pra você do mesmo jeito. Caio travou. — Isso é chantagem. — Não — ela respondeu. — É consequência. O silêncio que se seguiu foi denso, sufocante. Caio sentia o mundo que construíra com tanto controle começar a rachar por dentro. Aquilo não fazia parte de nenhum plano. Não havia estratégia para aquilo. — Você não sabe quem eu sou — disse ele, finalmente. — Sei sim — respondeu Nicole. — Sei que você nunca vai me amar. E eu aceito isso. Aquilo atingiu mais fundo do que qualquer acusação. — Então por que insiste? — perguntou, exausto. Nicole ergueu o olhar uma última vez, inteira ali. — Porque eu não quero ir embora sem saber como é ter uma noite com voçe nem que seja por uma noite. Caio fechou os olhos. Ali, no centro daquele silêncio, ele percebeu que já tinha perdido alguma coisa. Mesmo que mandasse Nicole embora. Mesmo que nada acontecesse. O pedido tinha sido feito. E nenhum dos dois sairia dali ileso. O erro ainda podia ser evitado. Mas o controle já não era absoluto. E Caio Vinícius, pela primeira vez em muito tempo, não tinha certeza de que conseguiria dizer não.
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