A CONDIÇÃO

1060 Palavras
Aceitar não foi um gesto nobre. Também não foi um impulso romântico. Foi fraqueza. Caio Vinícius percebeu isso no exato instante em que o silêncio entre eles se prolongou além do suportável. O pedido ainda ecoava no ar, pesado demais para ser ignorado, perigoso demais para ser acolhido sem consequências. Nicole estava ali, imóvel, inteira na própria decisão. Não chorava. Não implorava. Não tentava convencê-lo com palavras doces. Aquilo era o que mais o desestabilizava. Ele sempre soubera lidar com súplicas. Sabia esmagar expectativas. Mas não sabia o que fazer com alguém que aceitava a própria perda antes mesmo de acontecer. — Você não faz ideia do que tá pedindo — disse ele outra vez, mais baixo, menos agressivo, como se repetir a frase pudesse mudar alguma coisa. Nicole assentiu devagar. — Faço, sim. A resposta simples retirava dele a última desculpa confortável: a de que ela era apenas uma menina confusa. Não era. Havia medo nela, claro. Mas havia também lucidez. E lucidez sempre cobra mais caro. Caio caminhou alguns passos para longe, passou a mão pelo rosto, respirou fundo. Sentia o corpo tenso, como antes de uma briga que sabia não poder vencer sem perder algo importante. O mundo inteiro dele fora construído sobre controle, previsibilidade, disciplina. Aquela conversa desmontava tudo isso peça por peça. Ele não queria aquilo. Mas também não conseguia encerrá-lo. — Olha pra mim — disse, virando-se de novo. Nicole obedeceu. O olhar dela estava firme, mas havia ali uma vulnerabilidade que ele reconhecia bem demais. Não era fragilidade. Era exposição. O tipo de exposição que ele passara a vida inteira evitando. — Isso não é amor — falou ele, duro. — Isso é carência. Confusão. Você cresceu cercada por mim, só isso. — Talvez — ela respondeu. — Mas não muda o que eu sinto. Ele fechou os olhos por um segundo. Não havia argumento lógico que resolvesse aquilo. Não havia saída limpa. — Você sabe que, se isso acontecer, não tem depois — disse ele, abrindo os olhos. — Não tem história. Não tem continuidade. Não tem nada. — Eu sei. — Não tem promessa. — Eu não quero promessa. — Não tem carinho. Nicole engoliu em seco, mas manteve a postura. — Eu não tô pedindo isso. Caio sentiu um incômodo atravessar o peito. Aquela era a parte que ele mais odiava: ela não estava tentando transformá-lo em algo que não era. Estava aceitando exatamente quem ele era. — Então escuta bem — disse ele, a voz mais firme agora, como quem impõe uma sentença. — Se isso acontecer, vai ser uma única vez. Nicole não respondeu de imediato. Apenas assentiu. — Uma noite — continuou Caio. — Sem amor. Sem conversa depois. Amanhã, você sai daqui e finge que nada aconteceu. Cada palavra era uma tentativa de erguer muros em volta do erro. — Você não vai me procurar. Não vai tocar no assunto. Não vai usar isso contra mim, contra o Rafael, contra ninguém. — Eu nunca faria isso — ela disse, rápido. — Não importa — ele cortou. — É regra. O silêncio caiu novamente. Nicole sentia o peso das condições se acomodar dentro dela. Eram duras. Frias. Cruéis até. Mas eram claras. E, estranhamente, aquilo a tranquilizava. Ela não queria ilusão. Queria verdade, mesmo que machucasse. — Se você se arrepender no meio — Caio acrescentou —, você vai embora. Sem discussão. — E se você se arrepender? — ela perguntou, quase num sussurro. Ele hesitou por um segundo. — Aí já vai ser tarde. A resposta não era arrogância. Era constatação. Nicole respirou fundo. O coração batia forte, mas a decisão permanecia intacta. — Eu aceito — disse, enfim. As palavras saíram firmes. Sem tremor. Sem heroísmo. Caio sentiu como se tivesse sido atingido por algo invisível. Esperava hesitação. Esperava lágrimas. Esperava que ela recuasse diante da frieza. Mas Nicole aceitava. Isso o fez perceber, com clareza incômoda, que aquela noite não seria um favor que ele concederia. Seria uma escolha compartilhada. Um erro consciente de ambos. — Você não vai sair daqui achando que isso significa alguma coisa — disse ele, mais uma vez, quase como um aviso para si mesmo. — Pra você, não — respondeu ela. — Pra mim, já significa. A sinceridade dela era brutal. Caio virou o rosto. Não queria ouvir aquilo. Não queria carregar essa parte. Já tinha peso demais nos ombros. Ainda assim, não disse nada. Ele sabia que estava cedendo não por desejo simples, mas por exaustão emocional. Por estar cansado de resistir. Por sentir que negar naquele ponto não o tornaria mais forte — apenas mais covarde. — Isso não muda quem eu sou — disse ele, quase num murmúrio. — Eu sei quem você é — Nicole respondeu. — Sempre soube. E isso era verdade. Ela nunca o idealizara. Nunca fantasiara um homem diferente daquele que estava ali, duro, fechado, incapaz de oferecer futuro. Amar Caio Vinícius sempre fora amar o limite. Caio deu alguns passos, abriu a porta, olhou para dentro. O gesto simples pareceu definitivo demais. Cruzar aquela soleira significava atravessar algo que ele passara anos mantendo intacto. Ele parou, respirou fundo. — Ainda dá tempo de você ir embora — disse, sem olhá-la. Nicole se aproximou um pouco mais, sem tocá-lo. — Se eu for agora, vou embora pra sempre. Ele fechou os olhos. Essa era a parte que não estava no acordo. A parte que não podia controlar. — Você vai sair daqui machucada — disse ele, a voz mais baixa. — Eu já estou — ela respondeu. — Isso só muda a forma. Caio permaneceu em silêncio por longos segundos. O morro continuava do lado de fora, indiferente. Pessoas passavam, vidas seguiam, sem saber que ali, naquele espaço pequeno, algo estava sendo quebrado com cuidado demais para parecer violência. Ele abriu a porta completamente. — Então entra — disse, finalmente. — E não confunde isso com salvação. Nicole cruzou o limiar com o coração disparado, mas sem hesitar. O acordo estava feito. Não havia amor prometido. Não havia futuro. Não havia depois. Havia apenas uma noite permitida por fraqueza, regida por regras cruéis, erguida sobre silêncio e negação. E, mesmo assim, os dois sabiam: nenhuma condição seria suficiente para impedir o que aquela noite faria com eles. Porque algumas escolhas, mesmo cercadas de regras, não respeitam limites depois de atravessadas.
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