Nicole aprendeu rápido que o corpo aceita antes do coração. O corpo acorda. O corpo anda. O corpo obedece. O coração fica para trás, tropeçando. Os dias começaram a ganhar um formato quase decente. Não bom. Decente. Acordava cedo, arrumava a cama sem capricho, tomava café sem sentir gosto. Estudava. Saía para andar. Observava gente que não a conhecia, que não sabia de onde ela vinha, nem o que tinha deixado para trás. Era isso que chamavam de recomeço. Ela se agarrava à rotina como quem segura um corrimão frouxo: não dava segurança, mas impedia a queda livre. E, às vezes, só isso já era muito. Naquela manhã, tudo parecia sob controle. Nicole estava sentada à mesa, caderno aberto, caneta entre os dedos. O conteúdo era simples demais para justificar a dificuldade. Ela lia, relia, s

