CAPÍTULO 08

1997 Palavras
Já eram por volta de duas da madrugada quando Amon finalmente avistou o seu velho chalé, quase chorando de alívio ao perceber que depois de tanto tempo caminhando, finalmente tinha chegado alí. Se os guardas do rei dessem uma descrição correta dele para algumas pessoas que moravam nas redondezas, talvez pudessem dizer onde ele morava e de quem se tratava, mas o bruxo tinha praticamente certeza de que os guardas não iriam sair acordando pessoas aleatórias no meio da madrugada para interroga-las sobre se sabiam ou não onde um jovem bruxo com cabelos brancos poderia ser encontrado, então por pelo menos aquele noite ele ainda estaria seguro alí. Benjamin, que o havia seguido de perto até ali, encarou o pequeno chalé com curiosidade, apesar se ainda está visivelmente abalado pelos acontecidos de poucas horas atrás. Assim que Amon abriu a porta, o príncipe entrou logo atrás dele sem sequer ser convidado, fazendo o bruxo lançar-lhe um olhar maligno e querer terminar com o plano de estrangula-lo, exatamente como pretendia fazer quando estavam no castelo. Mas por algum motivo (talvez por Benjamin estar congelando naquelas roupas finas desde que haviam saído do aconchego da sua casa), Amon resolveu não falar nada e fechou a porta assim que o outro entrou, soltando um longo suspiro e indo acender todas as velas, e lampiões que haviam pelo pequeno chalé, já que as pessoas mais pobres não tinham outro meio de iluminação à não ser aquele. O bruxo tentou ignorar o olhar no rosto do príncipe, que encarava o interior do chalé com surpresa, o que fez Amon revirar os olhos com força, sabendo muito bem qual tipo de "covil" o príncipe esperava encontrar como a casa de um bruxo. Amon caminhou até o quarto e pegou o único outro casaco que tinha fora o que estava vestindo, além de pegar também o cobertor grosso que cobria a cama e envolvê-lo no seu corpo logo em seguida, voltando para a sala/cozinha poucos segundos depois, onde Benjamin estava esperando, em pé exatamente no mesmo lugar, tremendo de frio, já que embora tivesse uma temperatura levemente mais alta do que do lado de fora, o chalé não era aquecido como o interior do palácio. — Toma. — O bruxo jogou o casaco para o outro, que o pegou sem problema algum. A peça de roupa era de um tecido grosso e um tanto puído, quase igual ao que o próprio Amon estava vestindo naquele exato momento, exceto por ser de um cinza um pouco mais escuro. Benjamin vestiu o casaco rapidamente, fazendo Amon soltar o ar pelo nariz, um tanto aliviado, porque já estava se preparando para fazer o príncipe engolir o maldito casaco caso inventasse algum tipo de frescura sobre como a roupa era velha ou algo assim. — Obrigado. — Benjamin agradeceu, então Amon confirmou levemente com a cabeça. Pelo visto o rapaz moreno já estava percebendo que ser um príncipe pouco importava mais, pelo menos até resolver todas as confusões e problemas que haviam na sua vida naquele momento. Como aquela seria a última noite que passaria ali e não precisaria se importar com o estado do chalé, Amon começou a pegar algumas lascas da madeira do chão e a pouca lenha que ainda tinha guardado, levando para o pequeno quarto onde ficava a sua cama e fazendo uma pilha à pouco mais de um metro de distância dela. O bruxo acendeu a fogueira com um feitiço simples que exigiu apenas um pouquinho da audição do seu ouvido esquerdo por alguns minutos. Era como se Hécate estivesse lhe concedendo preços insignificantes pela magia por causa da miserável e fática última noite, cujo os acontecimentos ainda estavam se revirando na cabeça do bruxo. Benjamin observou, completamente impressionado, a fogueira acender em questão de segundos e os pedaços de madeira queimarem até se tornarem quase brasas, porque só assim não sairia aquela típica fumaça, que não teria para onde sair no pequeno quarto. Amon se sentou com as costas contra a velha cama, então benjamin fez o mesmo, deixando cuidadosamente um pequeno espaço entre os dois. O calor emanava pelo quarto em ondas enquanto a madeira crepitava, fazendo Amon soltar um gemido de alívio e prazer por causa do calor que se infiltrava nas suas roupas e chegava até a sua pele. Ele puxou os joelhos contra o peito e finalmente retirou o capuz que cobria o seu rosto, prendendo o cabelo longo num coque desajeitado para tira-lo do rosto, sem desgrudar os olhos da chama hipnotizante da fogueira, que ardia em tons de amarelo e laranja. Amon sabia que o feitiço deixaria a fogueira acesa a noite toda, fazendo a madeira ser consumida bem mais lentamente do que normalmente seria. — Porque você não cura o seu dedo? — Benjamin apontou para a mão de Amon, que seguiu o olhar do príncipe e encarou o dedo indicador, que estava inchado e arroxeado, mas que pelo menos já não doía mais, e se Amon se esforçasse, conseguiria ignorar totalmente o latejar vindo de dentro das falanges. — Não posso. Esse foi o preço pela magia usada por ter destruído o cadeado. — Explicou o bruxo de forma vaga, não querendo explicar detalhadamente como funcionava a magia ou qualquer coisa do tipo para o príncipe, que deve ter entendido o recado, porque confirmou levemente com a cabeça e não perguntou mais nada. Amon encarou o dedo uma última vez e voltou a olhar para o fogo. Ele podia muito bem usar um feitiço para cura, mas usar magia para pagar o preço de outra magia era algo que todos os bruxos do mundo definitivamente não eram recomendados à fazer. Aquele era o preço por ter aberto o cadeado, e tentar contornar isso só geraria uma bola de neve. Como se um juros altíssimo fosse cobrado à cada vez que ele burlasse as regras da magia. Era como se pra curar o dedo, Amon precisaria quebrar o braço em troca, e pra curar o braço, ter uma doença incurável em troca, e pra se ver livre da doença, ter um m****o amputado em troca. Os preços pela magia iriam ficar cada vez mais absurdos, até chegar um ponto em que sua vida seria a única moeda de troca existente. Naquele momento tudo que Amon queria era dormir por dois séculos. Ele levantou do chão e se jogou na cama, soltando um gemido de felicidade ao perceber que o calor do fogo chegava até lá também. — Você... Pode dormir aqui também. — Disse ele para o príncipe, que permaneceu sentado ao lado da cama. Amon definitivamente não queria dividir a cama com outra pessoa naquele momento, mas reconhecia que tinha bastante culpa no que havia acontecido com Benjamin nas últimas horas. No primeiro momento, o rapaz moreno não fez qualquer menção de levantar, o que fez Amon revirar os olhos, pois definitivamente não iria convidar duas vezes, mas então Benjamin levantou do chão aos tropeços e deitou no lado oposto da cama, fazendo o colchão balançar e a cama ranger perigosamente sobre o peso dos dois, que somados estavam bem próximos do máximo que ela poderia suportar. Em silêncio, Amon jogou uma parte do cobertor sobre o príncipe, que aceitou de bom grado e fechou os olhos. Amon resistiu à vontade de desejar "boa noite", como sempre dizia a Tristan quando dormiam juntos, até porque aquela definitivamente não estava sendo uma boa noite. [•••] Quando Amon abriu os olhos e olhou ao seu redor, precisou de alguns segundos para assimilar as lembranças do que havia acontecido no encontro desastroso no castelo, e do porque havia outro rapaz ao seu lado. Ele sentou na cama e coçou os olhos com a mão direita, lançando um olhar para a fogueira, cujo à magia ainda mantinha acessa, com a mesma quantidade de lenha de quando foram dormir. Sem querer acordar o príncipe (que estava dormindo como uma pedra, roncando baixinho), o bruxo levantou da cama e foi até o banheiro jogar um pouco de água no rosto e escovar os dentes. Amon prendeu o cabelo em um coque frouxo novamente, antes de enfim sair do banheiro e começar a andar em direção a cozinha/sala, contornando a fogueira e tentando inutilmente ser silencioso, porque as tábuas soltas do chão rangiam à cada passo dado, não que ele isso fosse acordar Benjamin. Na verdade, Amon desconfiava que nem se o chalé fosse destruído por um furacão, o príncipe acordaria. Já na cozinha, Amon pegou os últimos pães que ainda tinha e os colocou em cima da pequena mesa, antes de caminhar até a porta da cozinha e começar à escavar na pilha de neve que havia logo do lado de fora. Para falar a verdade não havia muita coisa que se pudesse levar para a viagem alí, e foi justamente por isso que o bruxo tomou cuidado para não comprar mais coisas do que o necessário, assim as perdas seriam mínimas quando desse no pé. Amon tirou uma pequena porção de carne seca da neve, que assim como os pães, era o que duraria mais enquanto estivesse viajando. Havia carne fresca também, mas essa ele pretendia assar na fogueira do quatro, porque o bruxo estava morrendo de fome, apesar de tentar constantemente ignorar aquela sensação de vazio vindo diretamente do seu estômago. Quando voltou para o quarto, Amon encontrou o príncipe sentado na cama e encarando o fogo, enrolado no cobertor e ainda completamente sonolento, em um estado meio desnorteado, como se ainda tivesse tentando assimilar as memórias e onde estava. O bruxo colocou a carne para assar na fogueira rapidamente, usando uma lasca fina e longa da madeira de uma das paredes como espeto. O silêncio era confortável, apesar das preocupações de ambos, que se encaravam nervosamente de vez em quando, focados nos seus próprios problemas. Eles observaram em silêncio a carne ser assada, enquanto o cheiro bom e suculento dela tomava conta do quarto.. — Pra onde você vai agora? — Benjamin perguntou para Amon enquanto ele virava a carne uma última vez, para que o lado que tivesse menos assado ficasse igualzinho o outro. — Talvez Sul, talvez Leste. — O bruxo deu de ombros, sem desviar os olhos da carne, já comendo-a com os olhos. Ele poderia ter comido um pouco dos pães, mas preferia deixa-los para a viagem. Amon estava em dúvida sobre se deveria ou não ir atrás de Tristan. Os dois eram definitivamente melhores amigos, mas não se encaixavam bem juntos por muito tempo. A única vez que tentaram viajar juntos como uma dupla acabou com uma briga feia, com socos e xingamentos (que depois de algum tempo virou uma f**a bruta que durou a noite inteira, mas isso não tira o fato de que brigaram feio). Depois de mais um minuto, a carne já estava completamente assada, e tão suculenta que Amon não conseguiu conter o grunhido de satisfação. Aquele definitivamente era um pedaço enorme de carne de cervo, que ele dividiria em quatro ou cinco vezes em um dia normal para economizar, mas como não havia como levar aquele tipo de carne até muito longe, achou melhor comer logo tudo de uma vez. Em silêncio, Amon entregou metade do pedaço de carne para benjamin, que pela forma como estava encarando a comida, estava pronto para atacar o bruxo e tomar o espeto das suas mãos. Eles começaram a comer sem muita cerimônia, sem conversar muito, enquanto mastigavam e engoliam de forma rápida os pedaços da carne assada, m*l ligando se faltava um pouco de tempero aqui e alí. A comida estava tão boa que Amon esqueceu a dor do dedo e o fato da sua coluna estar doendo um pouquinho, pois ele havia dormido de m*l jeito contra a parede. A situação de benjamin não estava tão diferente, e o desconforto estava claramente presente no seu rosto, embora Amon não soubesse se era devido à noite passada ou por causa do seu pobre e acabado chalé.
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