Após acabarem de comer, Amon colocou todas as suas poucas roupas dentro de um saco de linho marrom, que havia surrupiado alguns dias antes de um pequeno mercado no centro da cidade, onde também havia roubado a carne seca. O bruxo não tinha mais do que três pares de roupa (contando com o que estava vestindo e o casaco que emprestou para Benjamin), além de possuir apenas aquele par de botas.
As poucas moedas de prata e bronze que o bruxo tinha chacoalhavam de forma reconfortante dentro de um dos bolsos da sua calça. Ele marchou até a cozinha e também colocou dentro do saco os pães e a carne seca, antes de lançar um último olhar para o interior do chalé, soltando um suspiro e se despedindo mentalmente do lugar, que apesar de ser apenas mais um dos inúmeros lugares em que morou, foi seu lar durante meses. Amon se recusou à ficar triste por sair daquela cidadezinha que só trouxe desgraças para a sua vida, onde a mulher horrível que pensou ser sua mãe morava. Amon decidiu que à partir daquele dia não pensaria na rainha por um segundo sequer. Ele nunca havia tido uma mãe.
Amon abriu a porta do chalé, guardando cada uma das memórias que havia do lugar no fundo da sua mente. Talvez elas servissem para trocar por alguns feitiços simples dali um tempo.
— Para onde você vai? — Benjamin, que estava seguindo o bruxo como um cachorrinho sem ter para onde ir, perguntou.
— Sul. — respondeu o bruxo vagamente. Com o canto dos olhos, ele ainda conseguia ver a luz que vinha da fogueira do quarto. Ela ficaria acesa por mais algum tempo, até o efeito do feitiço acabar. Amon poderia dar um jeito de apaga-la, mas não dava importância o suficiente para aquilo para executar outro feitiço. Talvez o fogo se alastrasse dali a um tempo e queimasse todo o chalé. Amon considerou que se fosse o caso, poderia pelo menos apagar com qualquer evidência de que ele estava morando alí.
— Se importa se eu for com você? Não tem mais nada aqui pra mim mesmo. Era só uma questão de tempo até meu pai tentar se livrar de mim. — O príncipe deu um passo incerto na direção do outro rapaz, que analisou o seu rosto por um rápido instante. A covinha no seu queixo ficava ainda mais profunda quando benjamin tensionava o maxilar quadrado.
— Você não vai me atrapalhar, não é? — Questionou Amon, que sabia desde já que era uma péssima, muito, muito péssima, ideia levar aquele príncipe bocó consigo.
— Não. Prometo que não. — Respondeu Benjamin rapidamente, então o bruxo confirmou levemente com cabeça e deu meia-volta, já começando a andar para fora, sendo recebido pelo vento frio do lado de fora, jogando o saco com suas coisas em cima do ombro e pendendo o corpo para o lado oposto para tentar compensar o peso. Assim que Benjamin cruzou a porta, o bruxo sequer se deu o trabalho de fecha-la ou olhar para trás. A partir daquele momento aquele chalé e tudo que ainda havia lá dentro não pertencia mais à ele.
O bruxo sempre costumava andar longe das estradas mais conhecidas, sempre preferindo trilhas que acompanhassem o mesmo sentido delas. Além disso, ele não tinha um cavalo, então viagens sempre demorava vários e vários dias de caminhada. Amon desconfiou que o príncipe, que sempre tinha andado de carruagem, não estava preparado para fazer tal viagem, mas mesmo assim ficou calado, não querendo desanimar seu curioso companheiro logo nos primeiros minutos de caminhada.
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— Você... Escutou isso? — Benjamin perguntou, sua voz quase inaudível, meia hora depois, enquanto estavam caminhando na floresta congelada.
— O que? — Amon olhou para trás e encarou o moreno, tomando cuidado para falar baixinho também. Ao invés de responder, Benjamin ficou completamente parado como uma estátua, como se quisesse fazer o mínimo de barulho possível, para que ambos conseguissem escutar... O que quer que ele tivesse escutado.
A princípio Amon não ouviu absolutamente nada. A floresta estava completamente silenciosa. Silenciosa até demais, pois sequer os esquilos e pássaros estavam fazendo algum barulho. Demorou alguns segundos para que o bruxo finalmente conseguisse ouvir o leve farfalhar dos galhos e o som quase inaudível de vários passos contra a neve fofa, como se estivessem tentando fazer o mínimo de barulho possível, seguindo as pegadas dos dois rapazes.
O coração de Amon deu um salto quando ele constatou o óbvio: os guardas do rei estavam bem mais próximos do que poderiam imaginar. Ele xingou baixinho quando percebeu que já não estava mais nevando, e que cada uma das pegadas profundas que os dois deixavam na neve iriam ficar marcadas alí por um bom tempo.
Amon fechou os olhos se se concentrou nos padrões que surgiram na sua mente, considerando que se fosse necessário usar magia, seria bem mais fácil se já tivesse alguns feitiços na sua cabeça. Ele olhou para os lados e tentou encontrar alguma maneira de fugir sorrateiramente, já que se corressem pela neve, os seus passos seriam escutados da mesma forma como eles estavam escutando os passos dos guardas.
Não haviam muitos arbustos no chão, mas em compensação, as sequoias enormes que haviam por toda a floresta eram tão altas e com tantos falhos que eles se emaranhavam uns nos outros. Amon decidiu que a forma mais fácil de sair dali evitando um confronto direto seria pelas árvores, então caminhou em passos curtos e silenciosos até uma das sequoias e começou a escapar com facilidade, usando a prática de subir em árvores que havia acumulado nos últimos anos, levando o saco com suas coisas com a borda dele presa entre os seus dentes.
Benjamin também começou a subir na árvore, apesar de ser bem mais desajeitado e menos silencioso que o bruxo, que usou um pouco de magia no príncipe para conseguir fazê-lo parar de fazer barulhos. Todo e qualquer feitiço deixava no ar aquele cheiro agridoce característico da magia, e mesmo que algumas pessoas não soubessem disso, se os guardas sentissem aquele cheiro, as coisas poderiam ficar ainda mais complicadas para os dois rapazes.
Eles continuaram escalando até ultrapassarem a primeira linha da copa das árvores, de modo com que m*l conseguissem ver o chão dali de cima por causa da grande quantidade de neve que havia nos galhos logo abaixo deles, então Amon pressupôs que também seria difícil alguém lá de baixo avista-los. O problema é que as suas pegadas ainda estavam completamente visíveis no chão, e que agora levavam diretamente até a árvore em que estavam.
Amon buscou um padrão que fizesse elas sumirem com rapidez, pois os guardas pareciam estarem tão próximos de onde estavam que os seus passos já podiam ser ouvidos com clareza. O bruxo fechou os olhos e selecionou um padrão aleatório entre os vários que praticamente brilhavam na sua mente, aceitando o preço do feitiço rapidamente, que felizmente era uma coisa bastante banal. As pegadas dos dois começaram a desaparecer do chão uma por uma num passe de mágica, sendo preenchidas com neve que parecia fluir do chão à medida que o cumprimento do cabelo de Amon diminuía.
Benjamin observou com curiosidade a cabeceira longa e branca do bruxo, que antes ia até metade das suas costas, encolher gradativamente até ficar na linha de ombros. A cena era bastante interessante de ser observada, era como se os fios lisos e absurdamente brancos estivessem voltando para dentro da sua cabeça devagarinho, mas após observar mais de perto, o príncipe percebeu que na verdade as pontas de cada um dos fios estavam simplesmente se desfazendo. Benjamin refletiu sobre se havia um lugar para onde todos as coisas que os bruxos davam em troca da magia iam, como uma dimensão que funcionava como um imenso depósito, com medos, segredos, dores e memórias engarrafados.
— Tem certeza que vieram por aqui? Não estou vendo mais pegadas. — Uma voz masculina e grave disse logo abaixo deles, fazendo Amon e benjamin prenderem a respiração, como se respirar pesadamente ou profundamente poderia chamar atenção dos homens que estavam logo abaixo daquela árvore.
Os galhos mais baixos e quantidade de neve sobre eles não deixava Amon ver com clareza, mas ele chutou que deveria ter pelo menos meia dúzia de guardas alí embaixo. Benjamin e Amon não moviam um músculo sequer, porque qualquer simples movimento poderia fazer a neve presa nos galhos despencar e entregar as suas localizações.
O príncipe encarou os olhos verde claros do bruxo, que estavam tão arregalados quando os seus próprios. Ela um momento completamente inoportuno, mas o moreno não deixou de notar como até às sobrancelhas e cílios longos do outro eram absurdamente brancas, contrastando contra a pele alva que estava corada devido ao frio. O cabelo branco (que agora batia nos ombros) estava um pouco assanhado. O olhar do príncipe recaiu sobre os lábios rosados e delicados do bruxo, então a memória do beijo e da língua quente e molhada de Amon contra a sua voltou com tudo, fazendo-o engolir em seco e tentar enfiar o pensamento no fundo da sua mente, o que foi completamente inútil, pois a lembrança permanecia viva na sua cabeça.
— Vamos voltar para a estrada, provavelmente fomos enganados e eles já estão bastante longe daqui. Meu palpite é que cruzaram a estrada e já estão do outro lado da floresta. — Um dos guardas disse para os seus companheiros, antes de sinalizar para que eles o seguissem pelo mesmo caminho que vieram. O feitiço para apagar as pegadas deve ter funcionando bem mais do que Amon achou que funcionaria, apagando muito mais do que apenas aquelas pegadas logo abaixo deles.
Amon e benjamin esperaram vários minutos depois que os guardas do rei sumiram de vista, se certificando de que eles já estavam longe o suficiente para enfim acharem seguro poder descer da árvore. O príncipe foi o primeiro à fazer isso, pulando no chão logo após chegar na metade do caminho. Amon foi mais cuidadoso e desceu devagar, jogando as suas coisas no chão sem muita cerimônia e apoiando com firmeza apenas a mão que não estava machucada nos galhos.
Assim que os dois já estavam no chão, começaram a andar em passos rápidos pela floresta. Benjamin não conhecia praticamente nada da região e não sabia para onde era norte ou sul, então o rapaz precisava confiar em Amon, que soltava um grunhido de desgosto sempre que tentava passar as mãos pelo seu cabelo, cujo às mechas estavam bem menores do que sempre estiveram. O bruxo claramente gostava da cabeleira longa, mas Benjamin achou bonito o novo corte de cabelo.
Haviam vários declínios traiçoeiros e encostas pelo caminho, e na maioria deles o príncipe deslizava e caia de b***a no chão, arrancando uma risadinha de Amon, que apenas revirava os olhos e continuava caminhando. O bruxo percebeu tarde demais que não haviam levado água com eles, mas pelo menos haviam alguns riachos semi-congelados pelo caminho, que apesar de terem uma água absurdamente congelante, pelo menos era água líquida, que era bem melhor do que comer neve.
— Para onde estamos indo mesmo? — Perguntou o príncipe, apressando o passo para caminhar ao lado de Amon. Algum tempo atrás ele havia se oferecendo para levar as coisas do bruxo, que como não era bobo ou orgulhoso o suficiente para negar, aceitando de bom grado.
— Para o sul.
— Sim, você disse que era pro sul. Mas pra que lugar do sul? Tem alguma cidade ou vilarejo em mente?
— Não havia pensado nisso antes. — Amon respondeu, dando de ombros, fazendo Benjamin praguejar baixinho. Ele fez uma nota mental de todos os castelos que a família real tinha no sul, pretendo ficar em algum deles até as mentiras do seu pai chegarem até lá, o que provavelmente demoraria um tempo ainda.
— Acha que vai demorar muito para atravessarmos essa floresta? — continuou ele.
— Alguns dias. Eu chutaria uns três até o primeiro vilarejo, já que estamos seguindo em linha reta, e se formos pela estrada, faríamos várias curvas evitando os declives e os morros. — Amon explicou, enfiando as mãos dentro das várias camadas de roupas que ele estava vestindo, pretendendo passar pelo menos um pouco do calor do seu tronco para as extremidades. O bruxo m*l estava sentindo os dedos de tanto frio, tanto os das mãos quanto os dos pés. Benjamín não estava tão diferente disso, pois a sua calça cara não era feita para o frio do lado de fora do castelo, mais pelo menos o casaco que Amon havia emprestado era grosso o suficiente para manter a parte do seu corpo quente.