CAPÍTULO 10

2172 Palavras
A noite caiu mais rápido que os dois rapazes imaginavam, não dando tempo para sequer encontrarem um lugar melhor para montar acampamento. Enquanto procurava uma pequena clareia que fosse pelo menos plana e sem galhos no chão, Amon imaginou que talvez tivessem perdido às horas porque saíram tarde demais do seu chalé, além de que como o céu não passava de uma grossa e espessa massa e cinzenta, seria impossível saber das horas se baseando pelo sol. Benjamin começou à catar alguns galhos em silêncio, aproveitando os últimos poucos raios de sol que ultrapassavam a barreira de nuvens. Eles fizeram isso em silêncio, e Amon pressupôs que teria que acender a fogueira com magia, já que seria impossível acender aqueles galhos úmidos da forma convencional, fora que o frio aumentava à cada instante. Assim que o príncipe juntou galhos suficientes numa pilha grande bem no centro da pequena clareira, Amon foi até lá e acendeu o fogo com um feitiço simples, dando em troca a sua habilidade de sentir cheiros por alguns minutinhos dessa vez. O bruxo percebeu com surpresa que usar sentidos em troca dos feitiços era bastante vantajoso e melhor do que usar dor, desde que a troca fosse algo temporário e não demorasse mais do que alguns minutos. O fogo dessa fogueira consumia a madeira de forma lenta igual à que fizeram na noite passada. Amon pegou o seu velho cobertor dentro do saco de linho, então se enrolou nele e se sentou com as costas contra uma árvore enorme que ele não sabia identificar, além de que isso não tinha a menor importância naquele momento. — Pode sentar aqui também, vossa majestade. — Amon convidou, sem deixar de caçoar um pouquinho do outro. Benjamin revirou os olhos e aceitou o convite, caminhando até o bruxo e sentando espremido ao seu lado, debaixo do cobertor quente. Os dois quase gemeram quando o calor corporal um do outro chegou ao seu alcance, fazendo tanto o príncipe quanto o bruxo deslizarem ainda para mais perto um do outro, até seus corpos estivessem completamente grudados, de modo com que Amon sentisse cada um dos músculos de benjamin, que conseguia sentir cada uma das curvas delicadas do bruxo. A barriga de Amon roncou enquanto ele pegava um dos grandes pães que estavam dentro do seu saco de linho. Eles estavam um pouco duros e frios, mas isso sequer importava, enquanto o bruxo partia um ao meio e entregava metade ao príncipe, que aceitou de bom grado. — você não tem dinheiro contigo não? Eu não tenho quase nada. — Amon disse enquanto comia. Ele m*l tinha moedas o suficiente para comprar comida para uma pessoa à longo prazo, quanto mais para duas. O bruxo sobrevivia roubando e caçando esquilos e cervos nas florestas. — Se soubesse que seria atacado por um bruxo e expulso da minha casa, teria me preparado antes. — Benjamin disse, antes de soltar uma risada baixinha e voltar à encarar o fogo. Amon ficou de boca aberta com tamanha ousadia do príncipe, desejando dar uma cotovelada nele, mas antes que fizesse justamente isso, o príncipe enfiou a mão por debaixo do cobertor, depois por debaixo do casaco que Amon havia lhe emprestado, até chegar na sua própria camisa chique por debaixo. O bruxo só percebeu que ele estava procurando alguma coisa quando benjamin retirou a mão de lá e mostrou a palma para ele, onde repousava um medalhão brilhante e vários botões, que provavelmente havia arrancado do colete. — O medalhão é de ouro, e acho que os botões também são. Talvez a gente consiga vender ou trocar por alguma coisa. — O príncipe disse, dando de ombros. Ele tentou colocar as coisas na mão de Amon, que negou rapidamente. — Pode guardar com você, não estou cobrando um pedágio ou algo do tipo por ter aceitado que você viesse comigo. — Explicou o bruxo, que se arrependeu imediatamente de ter comentado sobre o assunto. Aquele medalhão nas mãos do príncipe parecia algo pessoal, entalhado com desenhos delicados e símbolos que apesar de serem vagamente familiares, Amon não sabia dizer do que se tratavam. Um silêncio um tanto desconfortável tomou conta da clareia pelos vários segundos seguintes, onde o único som que reverberava pelo lugar era o crepitar da fogueira e as respirações dos dois rapazes. — Porque seu pai não gosta de você? Aconteceu alguma coisa entre vocês? — O bruxo perguntou, algum tempo depois de terminar de comer a sua parte do pão. Amon nunca tinha ouvido falar que o rei tinha algum tipo de desavença com os filhos, mas parando pra pensar, ele nunca se importou em escutar fofocas ou boatos sobre aquela família. — Ele tem quase certeza de que não sou filho dele. E pra falar a verdade, eu também acho isso. — Isso explica muita coisa. — Concordou o bruxo, imaginando que essa definitivamente era a razão do porque benjamin ser tão bonito e charmoso, enquanto o rei parecia um rato de esgoto obeso. — Mas e você. O que estava fazendo no castelo? — Benjamin perguntou, fazendo Amon morder o lábio ao lembrar dos acontecimentos miseráveis da noite anterior, que pareciam corroer o seu cérebro só de lembrar deles. — A rainha foi a mulher que me gerou. Esperei encontrar uma mãe quando invadi o castelo, mas tudo que vi foi uma cobra venenosa. — Disse ele amargamente. — Você é filho da rainha Rose? — Benjamin arregalou os olhos, completamente surpreso com isso. — Eu não tenho mãe. Aquela mulher não é nada minha. — O bruxo apressou-se em dizer, então benjamin assentiu levemente com a cabeça. — Se te serve de consolo, aquela mulher não é gentil ou bondosa com ninguém. Ela batia nos meus irmãos quando eles eram pequenos, e só não batia em mim também porquê quando ela casou com meu pai, eu já tinha seis anos, e demorou algum tempo para ela ter coragem o suficiente para fazer isso. — Ela bateu em você? — O bruxo sentiu rapidamente uma empatia quente pelo príncipe, que negou levemente com a cabeça. — Ela tentou, mas aprendeu da pior forma que se encostasse um dedo em mim, receberia na mesma moeda. — respondeu Benjamin, fazendo Amon soltar um longo suspiro de alívio. — Mas se você é filho dela, e você é um bruxo, isso quer dizer que ela também é uma...? — Não. Ela é só uma mulher normal. Uma incrivelmente estúpida e i****a. Meu pai é Mamon, foi dele que herdei as minhas habilidades. — Amon explicou, apoiando a cabeça no ombro de Benjamin, que pareceu não ligar. — Esse Mamon é um bruxo? — Questionou o príncipe, fazendo Amon soltar uma risadinha engraçada. — Ele é um demônio, Benjamín. — O-O QUÊ?! — Gritou o moreno à plenos pulmões, completamente sobressaltado, longos segundos depois de assimilar as palavras de Amon. — Esqueça tudo que você sabe sobre magia, demônios, céu ou inferno, cara. Tenho certeza de que tudo que você sabe é uma versão completamente errada e deturpada da verdade. — Amon explicou, dando um rápido resumo para o príncipe de como as coisas realmente funcionavam, e que apesar de um pouco desconfiado, assentia levemente com a cabeça à cada informação passada. Cerca de uma hora depois, Amon achou que se contasse mais alguma coisa para benjamin, o cérebro do príncipe iria explodir à qualquer momento. — E-então deixa eu ver se entendi: você é filho de um demônio, mas não um daqueles demônios vermelhos e asquerosos descritos nas histórias. O seu pai, que é um demônio, é um príncipe de outra dimensão rica e próspera, que apesar de ser reconhecida como inferno, não é um lugar para onde os humanos maus vão. — Benjamin se embaralhou com as palavras, fazendo Amon rir da sua cara de espanto e assentir levem com a cabeça, estendendo as pernas para um pouco mais perto das chamas. — É basicamente isso. — Amon se lembrou do pai e percebeu que ainda tinha assuntos à tratar com ele, pois Mamon não havia explicado direito toda a história relacionada à rainha Rose. O bruxo desejou poder falar com o pai, mas não havia nenhum cruzamento ou sequer uma simples linha de ley passando próximo de onde os dois rapazes estavam acampados, mas foi então que uma ideia surgiu em sua mente: m*l havia motivos para desconfiar do pai, então também não havia motivos para não chama-lo através do seu sangue, apesar de nunca ter tentado fazer isso antes. — Benjamin, quero falar com meu pai. Você se importa se eu invoca-lo? — U-um demônio, aqui? Com a gente? — O príncipe arregalou ainda mais os olhos escuros, se é que isso fosse possível. O bruxo agarrou o braço dele e deu um leve aperto, tentando tranquiliza-lo. — Eu acabei de te contar que os demônios não são como você acreditava ser. Também não te garanto que são os seres mais justos ou bonzinhos do universo, mas posso dizer com toda certeza que ele não vai te machucar. — Amon tentou soar convincente, embora nem ele acreditasse realmente nisso. O bruxo não entendia Mamon, que ainda parecia um enigma complicado. — Tudo bem. — confirmou Benjamin, depois de longos segundos pensando no assunto, então Amon respirou fundo, tentando se concentrar em como raios deveria fazer aquilo. Ele imaginou que se o feitiço fosse feito através do sangue, séria bem mais fácil se visse, de fato, o sangue. Ele levou um dos dedos até a boca e mordeu a ponta dele com força até rasgar a pele com a ponta da presa. Amon achou que não precisava de canções de invocação, então apenas se concentrou no desejo de ver o pai, esperando e torcendo silenciosamente para que o pedido fosse enviado através das barreiras de magia que dividiam as dimensões e chegasse até Mamon. Depois de alguns segundos, o chamado parecia estar funcionando, apesar de que ao contrário de quando estava invocando o pai através das linhas de lei, quando o frio aumentava de forma absurda e ventos esquisitos rondavam o cruzamento, naquele momento a temperatura pareceu aumentar calorosamente, fazendo ambos os rapazes soltarem grunhidos de satisfação pela onda de calor, embora ambos estivessem claramente nervosos. Amon abriu os olhos e se concentrou em um ponto perto da fogueira, do outro lado dela, a pouco mais de dois metros de distância de onde os dois estavam. Ele sentiu aquela típica sensação de arrepio na nuca que precipitava a chegada do pai, então levantou do chão as pressas, sendo seguido por Benjamin, apesar de que enquanto o bruxo dava uma passo para a frente, o príncipe dava um passo para trás. O fogo da fogueira aumentou sem aviso algum, ficando do tamanho de uma pessoa grande e tornando-se azul por um pequeno intervalo de tempo, antes de diminuir de forma abrubta um segundo após uma figura alta sair de dentro do fogo e ficar de frente para Amon, que engoliu em seco e observou o pai de cima à baixo. O demônio que só parecia ser alguns poucos anos mais velho que o próprio filho, abriu um sorriso largo repleto de dentes brancos. Ele vestia uma calça escura idêntica à de todas as outras vezes, ela ficava bem abaixo da linha da cintura, mostrando os pelos brancos que começavam no umbigo e seguiam até se ligar com seus pelos pubianos cuidadosamente aparados. Mamon estava descalço, como sempre, e a neve sob seus pés derretia lentamente devido à temperatura do corpo do demônio. — Sem pentagrama dessa vez, Amon? — Perguntou ele, com a voz calma e compassada, ainda sorrindo quando cruzava a pequena distância até o filho e lhe dava um abraço apertado, pressionando o corpo um tanto frio do rapaz contra o seu próprio, que era absurdamente quente. Sem o círculo mágico para mantê-lo preso no seu interior, Mamon poderia andar por onde quisesse e abraçar o filho sem que Amon caminhasse até o limite do seu lado do pentagrama. — Precisamos conversar, pai. — Amon disse assim que o demônio retirou os braços que o envolviam. — Diga-me o que tem lhe incomodado. — Mamon disse, ainda com uma voz completamente simpática, embora os olhos verde sobrenaturais do demônio pálido fossem naturalmente rápidos, ágeis e calculados como os de uma víbora. Ele pegou as mãos do filho com as suas própria, acariciando os dedos do mais novo. Amon achou que aquilo não passava de um gesto paternal, mas quando olhou para baixo, viu que o pai estava curando o seu dedo quebrado e aquele corte que havia feito pouco tempo antes com os dentes. A cor arroxeada e o inchaço diminuam com uma velocidade sobrenatural, enquanto os ossos quebrados voltavam a posição original e se remendavam. — Então. O que está te incomodando, filho? Fale-me, e se estiver no meu alcance, irei dar um jeito. — Continuou o demônio, que apesar de já ter curado os dedos do bruxo, continuou segurando suas mãos. Amon engoliu em seco, tentando encontrar as palavras certas.
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