Entre nuvens e promessas
Lita chegou à pista de pouso quinze minutos antes do horário marcado, como sempre. A pontualidade não era apenas um hábito, era quase um traço de caráter, uma forma silenciosa de demonstrar respeito — pelos outros, pelo tempo e por si mesma. Caminhava com passos firmes, mas o coração carregava um peso difícil de ignorar. Deixar Isadora, sua pequena de oito anos, sob os cuidados da mãe, nunca era simples. Havia sempre um nó no peito, uma culpa sutil que se misturava com a certeza de estar fazendo o que precisava ser feito.
Ao sair de casa, ainda ecoavam em sua mente as palavras da mãe, ditas com aquele tom calmo de quem já viveu muito e aprendeu a escolher as batalhas certas.
— Filha, eu sei que essa viagem é a trabalho… mas se permita se divertir só um pouco.
Lita lembrava de ter sorrido, um sorriso curto, quase automático. Se permitir. Duas palavras simples, mas carregadas de significados. Será que podia mesmo? A vida havia lhe ensinado a ser responsável, centrada, a não baixar a guarda. Diversão sempre parecia algo que vinha depois — depois do dever, depois da segurança, depois do controle. E, muitas vezes, esse “depois” nunca chegava.
Agosto se aproximava. Seu aniversário também. Talvez fosse isso que tivesse levado a mãe a dizer aquilo, como se intuísse que o tempo estava passando rápido demais e que Lita precisava, nem que fosse por alguns dias, respirar fora do papel que desempenhava tão bem: a mulher forte, profissional impecável, mãe dedicada.
Ela ajustou a alça da bolsa no ombro e observou o movimento ao redor. Aviões, vozes, anúncios ecoando pelo alto-falante. Tudo parecia em constante deslocamento, menos ela, que por dentro sentia-se suspensa entre o que era e o que poderia ser.
Lita estava linda. Não de forma exagerada, mas com uma elegância que chamava atenção pela naturalidade. Usava um conjunto de alfaiataria em tom bege claro, perfeitamente ajustado ao corpo, com uma blusa de seda off-white que trazia leveza ao visual. O salto médio, confortável e sofisticado, mostrava que ela havia pensado em cada detalhe. O cabelo, preso em um coque baixo levemente desestruturado, deixava alguns fios soltos emoldurando o rosto. A maquiagem era discreta, porém marcante: pele bem preparada, olhos realçados com tons neutros e um batom rosado que dava vida ao sorriso contido.
Realmente, não parecia a mesma mulher do escritório. Ali não havia a rigidez dos dias corridos, nem a armadura invisível que costumava vestir. Havia algo diferente, quase sutil, como se aquela viagem estivesse despertando uma versão adormecida de si mesma.
Pereira chegou pouco depois, como combinado. Alto, postura impecável, o típico homem que parecia ter sido moldado para ambientes corporativos e salas de reunião. Ao avistá-la, diminuiu o passo quase imperceptivelmente. Não era comum vê-la assim.
— Bom dia, Lita — disse ele, com o tom profissional de sempre, mas os olhos a analisando por um segundo a mais do que o habitual.
— Bom dia, senhor Pereira — respondeu ela, com um sorriso educado.
Ele pigarreou levemente, como se tentasse disfarçar o impacto. Estava acostumado a vê-la com roupas sóbrias, expressões contidas, foco absoluto no trabalho. Aquela mulher à sua frente continuava sendo a mesma, mas havia algo diferente no ar. Uma leveza. Uma confiança silenciosa. Uma beleza que não pedia permissão para existir.
— Vejo que está… preparada para a viagem — comentou, escolhendo as palavras.
— Sempre — respondeu Lita, sem perceber que havia um duplo sentido ali.
Seguiram juntos para o embarque. Durante o voo, Lita se permitiu observar as nuvens pela janela, algo que raramente fazia. Normalmente aproveitava viagens para revisar relatórios, responder e-mails, planejar estratégias. Mas naquele momento, o céu parecia chamar mais atenção do que qualquer planilha.
Pereira, sentado ao seu lado, tentava manter a conversa em torno do trabalho: reuniões agendadas, expectativas do projeto, contatos argentinos. Ainda assim, vez ou outra, lançava um olhar discreto em sua direção, intrigado. Lita respondia com clareza, como sempre, mas havia uma suavidade em sua voz que ele não conhecia.
Em certo momento, ela fechou os olhos por alguns segundos, respirando fundo. Se permitir, repetiu mentalmente, quase como um mantra. Talvez não fosse sobre festas ou exageros. Talvez fosse apenas sobre estar presente, sentir o momento, permitir-se existir além das obrigações.
A chegada à Argentina trouxe um ar diferente. O aeroporto pulsava com outra energia, outro idioma, outros ritmos. Assim que desembarcaram, Lita sentiu algo se deslocar dentro dela. Não era exatamente alegria, mas uma curiosidade viva, uma sensação de possibilidade.
Enquanto aguardavam as malas, Pereira quebrou o silêncio:
— Nunca imaginei Buenos Aires em agosto como cenário de trabalho… mas confesso que tem seu charme.
— Tem sim — respondeu Lita, olhando ao redor. — Às vezes, o trabalho nos leva a lugares que também nos ensinam outras coisas.
Ele a encarou por um instante, surpreso com a reflexão. Sorriu de leve.
— Talvez sua mãe estivesse certa — disse, quase sem perceber que falava em voz alta.
Lita arqueou levemente a sobrancelha, curiosa.
— Como assim?
— Nada… só pensei que… — ele hesitou. — Que essa viagem pode ser mais do que apenas reuniões.
Ela não respondeu de imediato. Apenas sorriu, aquele mesmo sorriso sereno, carregado de significados não ditos. No fundo, sabia que algo estava começando ali. Não um romance, talvez não ainda. Mas um movimento interno, silencioso e poderoso.
Enquanto atravessavam as portas de saída, sentindo o ar frio de agosto tocar a pele, Lita percebeu que, pela primeira vez em muito tempo, não sentia apenas saudade ou culpa. Sentia expectativa. E isso, por si só, já era uma pequena revolução.
O frio de Buenos Aires a atingiu como um aviso tardio. Assim que atravessaram a porta giratória do aeroporto, o vento cortante tocou-lhe o rosto e o pescoço, fazendo-a encolher os ombros instintivamente.
— Acho que subestimei esse inverno… — murmurou, quase para si mesma.
Antes que pudesse completar o pensamento, sentiu algo pesado e macio pousar sobre suas costas. Um sobretudo preto, elegante, com o perfume discreto de madeira e notas cítricas. O tecido a envolveu num abraço inesperado, quente e protetor.
Ela virou-se, surpresa.
— Achei que seria bom você não pegar uma gripe antes de resolvermos o trabalho — disse o senhor Pereira, com um sorriso que fugia um pouco da formalidade habitual. Havia algo diferente em seu olhar: menos rígido, mais humano… quase sedutor.
Por um segundo, Lita ficou sem palavras. Não pelo casaco em si, mas pelo gesto. Simples, atencioso, carregado de uma delicadeza que ela não estava acostumada a receber.
— Obrigada… — respondeu, ajeitando o sobretudo nos ombros. — Salvou minha pele.
— Vamos. Nosso carro já está nos esperando. Pode deixar que eu carrego sua mala. Quantas são?
Ela riu de leve, um riso curto e espontâneo.
— Diferente de muitas mulheres, eu tenho apenas duas malas. O senhor não disse quantos dias iríamos ficar.
— Baseado no cronograma… uns três dias. Isso é mais do que suficiente.
— Viu só? Praticidade é uma virtude — provocou ela, erguendo uma sobrancelha.
— Bem prática a senhorita… — respondeu ele, com um meio sorriso. — Vamos.
O carro os conduziu por avenidas largas, prédios históricos iluminados por uma luz dourada que contrastava com o céu acinzentado do inverno. Lita observava a cidade pela janela, sentindo algo estranho crescer dentro de si: uma mistura de liberdade, curiosidade e uma leve excitação emocional, como se estivesse atravessando uma fronteira invisível — não apenas geográfica, mas interna.
O hotel surgiu imponente, clássico, elegante. Um dos melhores da Argentina. A fachada iluminada refletia sofisticação e silêncio refinado. Ao descer do carro, Lita sentiu novamente o peso confortável do sobretudo sobre os ombros, como um lembrete constante do gesto de Pereira.
O lobby era amplo, com lustres de cristal, piso de mármore polido e um perfume suave de flores frescas no ar. O ambiente transmitia uma sensação de exclusividade, quase cinematográfica.
— Impressionante… — comentou ela, baixinho.
— Achei que merecíamos um pouco de conforto — respondeu ele. — Trabalhar bem também exige estar bem.
Enquanto realizavam o check-in, Lita percebeu algo mudar na forma como Pereira a observava. Não era mais apenas a colega eficiente, a profissional impecável. Havia curiosidade, admiração e uma tensão silenciosa, ainda contida, mas claramente presente. Ele estava me olhando como uma mulher e não como funcionaria
Quando o funcionário entregou as chaves, os dedos de Pereira tocaram levemente os dela ao pegar o cartão do quarto. Um contato breve, quase acidental — mas suficiente para provocar um arrepio inesperado em ambos.
Eles trocaram um olhar rápido. Um segundo a mais do que o necessário.
Nada foi dito.
O elevador subiu em silêncio. Um silêncio diferente. Denso, carregado de possibilidades não verbalizadas. Lita sentia o coração bater um pouco mais acelerado, algo que não acontecia havia muito tempo por causa de um simples olhar.
Ela pensou nas palavras da mãe.
Se permita.
Talvez não fosse sobre perder o controle. Talvez fosse apenas permitir-se sentir. Permitir-se existir fora das armaduras. Permitir-se olhar alguém não apenas como colega, mas como homem. Permitir-se ser mulher.
Quando as portas do elevador se abriram, o corredor iluminado por luz quente parecia um convite silencioso a algo novo. Não necessariamente um romance imediato — mas o início de uma permissão interna, de uma curiosidade que já não podia mais ser ignorada.
E Lita, pela primeira vez em muito tempo, não recuou desse sentimento.