O corredor silencioso conduzia até a porta da suíte presidencial. Pereira caminhava alguns passos à frente, cartão magnético na mão, com uma expressão que misturava concentração e uma leve satisfação. Quando a porta se abriu, o espaço revelou-se amplo, elegante, quase cinematográfico.
A suíte era dividida de forma inteligente: dois quartos espaçosos, cada um com sua própria varanda envidraçada; uma sala de estar integrada à área de refeições, decorada com sofás claros, almofadas em tons de azul e bege, uma mesa de madeira nobre posicionada sob uma luminária moderna; e, mais ao fundo, uma mesa longa de reuniões, com cadeiras ergonômicas, iluminação direta e uma vista privilegiada da cidade. Cortinas translúcidas deixavam a luz de inverno entrar suavemente, criando uma atmosfera acolhedora, sofisticada e intimista ao mesmo tempo.
— Eu achei mais prático ficarmos em uma suíte assim — explicou Pereira, agora com um tom mais leve, quase descontraído. — Dois quartos separados, privacidade garantida… e espaço suficiente para trabalhar com conforto.
Lita observava tudo com atenção, os olhos curiosos passeando pelo ambiente.
— É… definitivamente não estamos em um hotel comum — comentou, com um sorriso admirado.
Ela havia trocado o salto por um sapato mais confortável durante o trajeto e agora usava uma calça de tecido leve em tom caramelo, combinada com uma blusa de malha fina em bege claro. O sobretudo preto ainda repousava sobre seus ombros, contrastando com o tom quente da roupa. O cabelo permanecia preso, mas alguns fios escapavam delicadamente, dando-lhe um ar mais natural, menos rígido do que no escritório.
Pereira, por sua vez, havia afrouxado discretamente a gravata durante o trajeto. O paletó permanecia alinhado, mas havia algo diferente em sua postura: menos formal, menos engessada. O homem sério de reuniões intermináveis dava espaço a um Rogério mais acessível, mais humano, que se permitia pequenos sorrisos e olhares prolongados.
— Vou deixar suas malas no quarto da direita — disse ele. — Fique à vontade para escolher o que preferir.
— Obrigada. Vou me trocar rapidamente para a reunião — respondeu ela.
Alguns minutos depois, Lita saiu do quarto com uma aparência ainda mais elegante. Vestia uma blusa de seda em tom azul claro, que realçava seus b***o, combinada com uma saia midi de corte impecável e um cinto discreto marcando a cintura. Mesmo que ao ver dela estivesse acima do peso, Lita era uma mulher n***a de um corpo muito bonito, mesmo sendo gordinha tinha um b***o, quadril, coxa, boca que no conjunto ficava exuberante. A maquiagem estava um pouco mais definida, sem exageros — apenas o suficiente para ressaltar sua expressão confiante.
Pereira ergueu o olhar ao vê-la e, por um breve instante, esqueceu-se completamente da pauta da reunião.
— Você está… muito elegante — comentou, escolhendo cuidadosamente as palavras.
— Obrigada — respondeu ela, percebendo o olhar atento, mas sem constrangimento. Pelo contrário: sentiu uma pontada de satisfação silenciosa.
Sentaram-se à mesa de reuniões. Documentos, tablet, anotações. O trabalho tomou forma rapidamente. A reunião com o representante do prédio — que enfrentava problemas estruturais e administrativos — fluiu melhor do que o esperado. Lita conduziu parte da apresentação com clareza e firmeza, trazendo soluções práticas, enquanto Pereira complementava com estratégia e negociação.
O acordo foi fechado de maneira positiva. Apertos de mão, promessas de encaminhamentos, um clima de dever cumprido. E combinado de ver a obra no outro dia por volta das 10hs
Assim que ficaram a sós novamente, Pereira soltou um suspiro leve e recostou-se na cadeira.
— Confesso que foi mais rápido do que imaginei. Porem bem exaustiva.
— Quando existe alinhamento, tudo flui — respondeu Lita, organizando os papéis. — Foi um ótimo trabalho em equipe.
Ele a observou por alguns segundos, com um sorriso que não escondia o orgulho — e algo mais difícil de nomear.
— Acho que merecemos um almoço decente. Nada de sanduíches improvisados.
— Concordo plenamente — disse ela, rindo.
Optaram pelo restaurante do próprio hotel, conhecido pela gastronomia refinada e ambiente intimista. A mesa escolhida ficava próxima à janela, com vista para as ruas arborizadas e o movimento elegante da cidade.
A luz natural desenhava sombras suaves sobre o rosto de Lita, destacando seus traços. Pereira percebeu o quanto aquela atmosfera parecia dissolver lentamente as barreiras entre eles.
— Sabe… — começou ele, girando levemente a taça de água. — Eu quase não me reconheço fora do ambiente corporativo. É curioso como um simples deslocamento muda a gente.
— Talvez não seja o lugar — respondeu Lita, pensativa. — Talvez seja a permissão.
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
— Permissão?
— Permissão para sair do papel que nos acostumamos a desempenhar. Para respirar diferente. Para olhar diferente.
Houve um silêncio breve, carregado de significado. Pereira sustentou o olhar dela por alguns segundos a mais.
— Você é uma mulher muito interessante, Lita — disse, com uma suavidade que não existia em sua voz profissional.
Ela sentiu o coração acelerar discretamente.
— E o senhor está surpreendentemente… diferente — respondeu, com um meio sorriso provocativo.
— Rogério — corrigiu ele. — Acho que, fora do escritório, podemos aposentar o “senhor”.
Ela riu, surpresa e divertida.
— Está bem… Rogério.
O almoço seguiu em um clima leve, quase cúmplice. Conversaram sobre viagens, sonhos adiados, pequenas manias, livros preferidos, memórias da infância. Descobriram afinidades inesperadas. Risos surgiam com naturalidade. O toque ocasional das mãos ao dividir um prato ou pegar o mesmo guardanapo gerava pequenas faíscas silenciosas.
Não havia pressa. Não havia excesso. Apenas uma sedução sutil, feita de olhares prolongados, palavras escolhidas com cuidado e silêncios confortáveis.
Em determinado momento, Pereira apoiou o cotovelo na mesa e inclinou-se levemente na direção dela.
— Você sabe que isso… — fez um gesto vago com a mão, indicando o momento, o ambiente, a proximidade — não estava nos planos.
— Talvez os melhores planos sejam os que não fazemos — respondeu ela, mantendo o olhar firme no dele.
Ele sorriu, um sorriso tranquilo, quase íntimo.
— Talvez.
Ao final do almoço, caminharam lentamente de volta à suíte, sem necessidade de tocar no assunto que pairava entre eles. Não era preciso. Ambos sentiam.
Lita carregava dentro de si uma sensação nova: não de medo, não de culpa, mas de possibilidade. Rogério, por sua vez, parecia mais leve, como se tivesse retirado uma armadura antiga e descoberto que ainda sabia sentir, encantar e ser encantado.
Nada foi apressado. Nada foi ultrapassado. Mas algo havia sido despertado — e, silenciosamente, ambos sabiam que aquele era apenas o início.