Capitulo 13

957 Palavras
Lita... Convite O dia começou como todos os outros: planilhas, prazos, decisões que não pediam opinião — apenas execução. Lita entrou no prédio com a sensação conhecida de estar vestindo uma pele que não era exatamente sua, mas que aprendera a usar bem. No meio da manhã, a mensagem apareceu na tela. Sr. Pereira: Pode vir à minha sala? Não havia urgência explícita. E isso, por si só, era incomum. Lita respirou fundo antes de se levantar. Caminhou pelo corredor envidraçado sentindo o corpo atento, como se algo estivesse prestes a ser deslocado. Bateu à porta. Ele a chamou para entrar sem levantar os olhos. — Sente-se — disse, fechando um relatório. O silêncio se estendeu por alguns segundos. Não era hostil. Era avaliativo. — Tenho pensado nas suas observações sobre a parceria — ele começou. — E percebi que estamos tratando decisões estratégicas como se fossem apenas números. Lita manteve a postura neutra. — Às vezes, são pessoas que sustentam os números. Ele a encarou, dessa vez sem disfarçar. — É exatamente isso. O reconhecimento veio como um impacto breve. Não era elogio. Era validação — e isso a deixava em alerta. — Quero continuar essa conversa fora daqui — disse ele, por fim. — O escritório… limita. Lita franziu levemente a testa. — Fora daqui como? — Jantar. Um restaurante tranquilo. Nada social, nada informal demais. Uma reunião — acrescentou, rápido, como se precisasse nomear o limite. Ela sentiu o conflito subir pelo peito. Pensou na filha. No horário. No que aquele convite significava — e no que poderia significar se recusasse. — Qual restaurante? — perguntou, escolhendo não fugir. Ele citou o nome. Discreto. Conhecido por não misturar negócios com espetáculo. — Amanhã, às oito — completou. — Se for inconveniente… — Não é — interrompeu, antes que ele terminasse. — Só preciso me organizar. Ele assentiu, satisfeito. — Ótimo. Quando Lita saiu da sala, o coração estava acelerado — não por expectativa, mas por consciência. Sabia que aquele convite ultrapassava o protocolo, ainda que se mantivesse dentro da formalidade. Sabia também que o Sr. Pereira não dava passos sem medir consequências. No elevador, apoiou a testa no espelho por um segundo. — Não é um encontro — murmurou para si mesma. — É uma escolha. À noite, enquanto fechava a lancheira da filha para o dia seguinte, a pergunta ecoava sem pedir resposta imediata: até onde é possível negociar sem se perder? Antes de dormir, abriu um caderno antigo, esquecido na gaveta. Não escreveu nada. Apenas passou os dedos pelas páginas em branco. Às vezes, o conflito não começa quando alguém nos chama para fora do escritório. Começa quando percebemos que já não cabemos mais inteiramente onde estamos. E Lita sabia: aquele jantar não seria apenas sobre trabalho. Antes de Sair Sr. Pereira O Sr. Pereira fechou a porta do escritório mais cedo do que o habitual. Não porque o dia tivesse terminado, mas porque ele já não conseguia fingir concentração. O prédio ainda pulsava lá fora, mas ali dentro havia um silêncio denso, incômodo. O convite tinha sido um impulso calculado. Ou talvez um cálculo impulsivo — e isso o perturbava. Sentou-se na cadeira, afrouxou a gravata e passou os dedos pela borda da mesa. Tudo estava em ordem: relatórios revisados, decisões tomadas, e-mails respondidos. Ainda assim, sentia-se deslocado. Como se algo tivesse saído do lugar sem pedir permissão. Pensou em Lita. Não na função. Não na eficiência. Pensou no modo como ela sustentava o olhar sem confronto, na clareza com que dizia coisas difíceis sem precisar elevar a voz. Aquilo não era comum. Não naquele ambiente. Não com ele. — Você está confundindo a******a com fraqueza — disse em voz baixa, para si mesmo. Mas sabia que não era isso. Lita não pedira espaço. Não exigira nada. Apenas existira inteira em um lugar que ele aprendera a tornar fragmentado. Levantou-se e foi até a janela. A cidade se estendia abaixo, indiferente às inquietações individuais. Quantas decisões importantes já tinha tomado ali, olhando para aquele mesmo cenário? Aquela noite, no entanto, era diferente. Não havia meta. Não havia plano claro. Havia curiosidade. E algo mais difícil de nomear. Pegou o paletó e o vestiu com cuidado excessivo, como se a precisão do gesto pudesse devolver o controle. Conferiu o relógio. Ainda tinha tempo. Pensou em cancelar. Bastaria uma mensagem curta, profissional. Um adiamento estratégico. Não o fez. — É só uma conversa — repetiu, como quem testa uma frase em voz alta. Mas ele sabia que não convidava funcionários para jantar. Não daquela forma. Não sem motivo. No carro, o trânsito fluía lento. O Sr. Pereira mantinha os olhos na rua, mas a mente insistia em retornar à mesma pergunta: o que exatamente eu espero dessa noite? Não era sedução planejada. Não era uma tentativa de poder. Se fosse, saberia lidar. Aquilo era diferente. Era o risco de escutar algo que não queria admitir que precisava ouvir. Pensou nos anos de disciplina, nas escolhas feitas em nome da estabilidade, na casa grande demais que o esperava vazia ao fim de cada dia. Pensou no silêncio que aprendera a tolerar — e na inquietação recente que já não conseguia ignorar. Estacionou o carro em frente ao restaurante. As luzes suaves vazavam pelas janelas, prometendo discrição. Exatamente o que escolhera. Antes de sair, permaneceu alguns segundos imóvel, as mãos apoiadas no volante. Não sentia medo. Sentia responsabilidade. Por si mesmo, mais do que por qualquer outro. Saiu do carro e fechou a porta com cuidado. Ajustou o paletó. Respirou fundo. Alguns encontros não acontecem para mudar a vida inteira. Acontecem para deslocar certezas. E o Sr. Pereira sabia: depois daquela noite, algo não voltaria exatamente ao lugar de antes. Mesmo que nada fosse dito.
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