O jantar
O restaurante era discreto, luz baixa, mesas afastadas o suficiente para que as conversas não se misturassem. Nada chamava atenção — e isso era exatamente o que o Sr. Pereira queria.
Lita chegou alguns minutos depois do horário combinado. Não por descuido, mas por necessidade de respirar antes de entrar. Ao atravessar a porta, seus olhos encontraram os dele quase de imediato. Ele se levantou em um gesto automático, educado demais para ser apenas profissional.
— Boa noite, Lita.
— Boa noite.
O cumprimento foi simples. Nenhum toque além do necessário. Ainda assim, havia algo diferente no ar — uma tensão que não vinha do lugar, mas do que ambos sabiam e evitavam nomear.
Sentaram-se.
— Espero que o local seja adequado — disse ele, abrindo o cardápio sem realmente olhar.
— É — respondeu ela. — Gosto de lugares que não precisam provar nada.
Ele ergueu o olhar por um segundo.
— Eu também.
Ele pediu uma cerveja, ela um suco de maracujá precisava se acalmar de alguma maneira. O silêncio entre eles não era constrangedor, mas atento. Como se cada pausa fosse parte da conversa.
— Obrigado por aceitar — disse o Sr. Pereira, por fim. — Sei que não é um convite comum.
— Não é — concordou Lita. — Mas achei honesto ouvir antes de julgar.
Ele assentiu lentamente.
— Honestidade tem sido… um tema recorrente desde que você chegou.
Ela apoiou as mãos sobre a mesa.
— Às vezes, é só o que sobra quando a gente cansa de se proteger demais.
O comentário não era acusação. Mas encontrou alvo.
— Você acha que eu me protejo? — perguntou ele, com calma calculada.
— Acho que o senhor construiu algo muito sólido — respondeu ela. — E solidez costuma ser uma forma sofisticada de defesa.
O garçom trouxe a cerveja, e o suco quebrando o momento. O Sr. Pereira serviu com cuidado, como se o ritual pudesse organizar o que sentia.
— Você fala como quem observa de fora — disse ele. — Mas continua aqui dentro.
Lita sorriu de leve.
— Porque, por enquanto, é aqui que consigo sustentar o que é importante para mim.
— Sua filha — disse ele, sem hesitar.
Ela o encarou, surpresa.
— Sim.
— Você nunca usa isso como argumento — continuou. — Mas está presente em tudo o que decide.
— Ela é o meu eixo — respondeu Lita, firme. — E também o limite.
O Sr. Pereira inclinou-se levemente para trás na cadeira.
— Limites são necessários. Mas às vezes… nos custam coisas.
— E às vezes nos salvam — rebateu ela, sem elevar o tom.
Houve um silêncio mais longo dessa vez. Não de desconforto — de reconhecimento mútuo.
— Eu não a chamei aqui por impulso — disse ele, finalmente. — Nem por interesse inadequado.
Lita sustentou o olhar.
— Então por quê?
Ele demorou a responder. Quando falou, a voz estava mais baixa.
— Porque percebi que tenho tomado decisões olhando apenas para o que construí… e não para o que me tornei.
A franqueza pairou entre eles como algo raro demais para ser desperdiçado.
— Cuidado — disse Lita, com suavidade. — Esse tipo de conversa cria expectativas sem querer.
— Eu sei — respondeu ele. — Por isso estou dizendo agora.
Ela respirou fundo.
— Eu não posso ocupar lugares confusos. Não na minha vida. Não no meu trabalho.
— Não é isso que eu quero — disse ele, rápido demais. Depois, se conteve. — Quero clareza.
Lita ergueu o copo, observando o líquido por um instante antes de beber.
— Clareza exige tempo — disse. — E respeito aos silêncios.
Ele assentiu.
— Então talvez este jantar seja apenas isso.
— Talvez — concordou ela.
A comida chegou. Comeram com calma, trocando comentários neutros, quase triviais. Mas o essencial já tinha sido dito — e sentido.
Quando pediram a conta, o Sr. Pereira falou antes que ela pudesse:
— Não espero nada depois desta noite.
Lita levantou os olhos para ele.
— Mas algo já mudou.
— Sim — admitiu. — E eu não sei exatamente o que fazer com isso ainda.
Ela sorriu, pequeno, verdadeiro.
— Nem tudo precisa de resposta imediata.
Do lado de fora, despediram-se sem promessas. Sem toques desnecessários. Apenas um olhar sustentado por tempo suficiente para reconhecer o que existia — e o cuidado que aquilo exigia.
Enquanto caminhava em direção ao carro, Lita pensou que algumas linhas não são cruzadas por desejo, mas por consciência.
E, naquela noite, ambos tinham escolhido permanecer atentos