Capitulo 15

1259 Palavras
Na mesma noite em casa Lita entrou em casa sem acender a luz da sala. O silêncio a recebeu como um espelho — não hostil, apenas atento. Tirou os sapatos perto da porta, como fazia nas noites em que precisava sentir o chão para voltar ao próprio corpo. Passou primeiro pelo quarto da filha. A porta estava entreaberta. A respiração calma, o braço jogado para fora da coberta, a vida acontecendo sem saber de reuniões em restaurantes nem de homens que falam em clareza quando, na verdade, estão aprendendo a nomear o que sentem. Lita encostou no batente. É por você, pensou. Sempre era. Não apenas o sustento. Mas o exemplo. Se aceitasse atalhos — emocionais ou profissionais — o que estaria ensinando? Que estabilidade justifica silêncio demais? Que reconhecimento pode vir misturado com ambiguidade? A pergunta doía porque não era abstrata. No quarto, sentou-se à escrivaninha pequena, onde o caderno de capa gasta ainda resistia ao tempo. Não escreveu. Apenas abriu. Algumas ideias não suportam tinta imediatamente — precisam primeiro ser compreendidas. O jantar não fora uma ameaça. Isso a inquietava mais. O Sr. Pereira não a chamara para pressionar, nem para seduzir. Chamara porque ela era indispensável. Porque o projeto da Zona Sul não avançava sem ela — sem sua leitura de território, sem sua capacidade de traduzir números em pessoas, metas em impacto real. Ela sabia disso. Sempre soube. O problema era o preço invisível de ser a chave. No escritório, sua posição se tornara delicada: era técnica demais para ser ignorada, sensível demais para ser domesticada. O projeto crescera com seu nome grudado a ele mediante a tudo que já foi feito e visto. Desde da ultima reunião onde sua opinião foi ouvida que até os funcionários estava olhando ela de outra maneira — não oficialmente, mas nos corredores, nas decisões que só a procuravam quando a reunião já tinha acabado. O jantar tornava isso explícito. Se aceitasse proximidade demais, perderia algo essencial: a distância que a protegia. Se recuasse em excesso, poderia colocar em risco não só sua trajetória, mas o próprio projeto — que ela sabia ser necessário para aquela região esquecida da cidade. Na verdade os funcionários da obra estavam esquecidos mediante ao numero de trabalho e tempo de obra. Engenharia cível nunca foi fácil, e os projetos dos prédios, telhados entre outras coisas esta no escopo de Lita, porem ela por tudo que já tinha passado naquele lugar, por sua cor e status social e financeiro que agora ver as coisas mudando era muito assustador. Não era apenas sobre ela. Era sobre as famílias da Zona Sul que tinham rosto, voz, endereço. Sobre não permitir que aquilo virasse mais uma iniciativa bonita no papel e vazia na prática. Lita fechou os olhos. Pensou no que diria à filha se, um dia, ela perguntasse por que certas coisas não deram certo. Porque eu escolhi o caminho mais fácil nunca fora uma resposta aceitável. Mas porque eu tive medo também não. Levantou-se, foi até a cozinha, bebeu água. O reflexo no vidro mostrava uma mulher cansada, mas inteira. Alguém que sabia onde estava pisando — mesmo quando o chão parecia inclinado. Voltando ao quarto da filha, ajeitou a coberta com cuidado. — Eu estou tentando — sussurrou, sem saber se falava para ela ou para si mesma. Naquela noite, Lita entendeu que o jantar não era um ponto de virada visível. Era mais perigoso que isso. Era uma linha fina desenhada dentro dela. E, dali em diante, cada escolha — no trabalho, na escrita, na forma de amar e resistir — teria que honrar essa linha. Não por medo de perder. Mas por consciência de quem ela precisava continuar sendo. A Reunião Decisiva da Zona Sul A sala de reuniões tinha janelas amplas, não apenas um vidro fosco por isso chamava sala de vidro. que deixava entrar uma luz intensa Lita chegou alguns minutos antes. Abriu a pasta, alinhou as plantas, os relatórios de carga, cronogramas e fotos do canteiro. Não para impressionar — para se ancorar. Quando os outros entraram, a conversa veio junto: prazos, custos, “otimizações”. Palavras que costumam apagar pessoas. O Sr. Pereira sentou-se à cabeceira, como sempre. Não sorriu. Não precisava. A autoridade dele vinha do hábito. — Vamos direto ao ponto — disse. — O projeto da Zona Sul precisa de ajustes. Estamos com atraso e desgaste de equipe. Precisamos decidir hoje. Lita respirou fundo. Não era a primeira vez que ouvia aquilo. A diferença era o hoje. Ela pediu a palavra. — Antes de falarmos em ajustes — começou, com a voz firme — precisamos falar do que sustenta o projeto. Não são apenas números. É a obra em si. As pessoas que a fazem existir. Alguns se mexeram nas cadeiras. Pereira levantou o olhar, atento. — Estamos falando de engenharia civil — respondeu ele. — Não de sociologia. — Engenharia civil é gente — Lita rebateu, sem elevar o tom. — Sempre foi. E neste projeto, os trabalhadores estão operando no limite. Jornadas estendidas, retrabalho por mudanças sucessivas de escopo, equipamentos atrasados. Isso não aparece nos gráficos, mas aparece nos erros. Nos acidentes que aconteceu e por isso houve dois afastamento. No atraso que vocês chamam de “ineficiência”. Ela deslizou as fotos pela mesa. Mãos calejadas. Um telhado improvisado. Um cronograma rabiscado à mão no canteiro. — Esses prédios não se levantam sozinhos — continuou. — E os projetos que estão sob minha responsabilidade — estrutura, telhados, adequações — não podem ser comprimidos sem comprometer segurança. Se cortarmos agora, o custo volta depois. Maior. Silêncio. Alguém pigarreou. Outro conferiu o celular. Pereira manteve o olhar nela. — Você está sugerindo o quê? — perguntou. — Reorganização de turnos, reforço de equipe nas frentes críticas e revisão do prazo oficial — respondeu. — E, principalmente, escuta. Ir ao canteiro antes de decidir daqui. — Isso aumenta o orçamento. — Isso protege o projeto — disse Lita. — E as famílias que vão morar ali. Não podemos vender impacto social se a base é frágil. Houve uma pausa longa. Lita sentiu o peso do que estava em jogo. Sua trajetória. O projeto. A forma como sempre fora vista naquele lugar — pela cor, pelo status que não vinha de herança, pelo corpo que precisou se afirmar mais vezes do que deveria. Agora, as coisas estavam mudando. E isso assustava. — Você está assumindo muita responsabilidade — disse Pereira, por fim. — Eu já assumi — respondeu ela. — Desde que o escopo caiu no meu colo. Ser a chave não é um privilégio. É um risco. E eu aceito. Mas não aceito atalhos. Pereira cruzou as mãos. Avaliou. Não havia ameaça ali, apenas consequência. — Muito bem — disse. — Vamos aprovar a revisão proposta por você. Com uma condição. Lita esperou. — Você lidera a implementação. Vai ao canteiro, responde pelos ajustes e apresenta resultados em trinta dias. Ela assentiu. Era o que já fazia — agora, com nome e peso. — Perfeito — disse. A reunião terminou sem aplausos. Sem celebração. Apenas com decisões. Ao sair da sala, Lita sentiu o corpo inteiro despertar. Não euforia — lucidez. A linha fina estava ali, intacta. No elevador, pensou na filha. No que diria se um dia perguntasse por que aquele projeto deu certo. Não seria por ter escolhido o caminho mais fácil. Nem por não ter sentido medo. Seria porque, quando precisou, ela ficou. E fez a engenharia — e a vida — do jeito certo: sustentada por gente
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