Capitulo 16

549 Palavras
O Confronto que Não Precisou de Voz O corredor estava quase vazio quando Lita saiu da sala de reuniões. O som dos próprios passos parecia alto demais naquele andar sempre controlado. Ela ainda organizava mentalmente o que havia sido decidido quando ouviu seu nome, dito sem pressa. — Lita. Virou-se. O Sr. Pereira estava à porta do escritório dele. Não fez gesto algum para chamá-la. Apenas esperou. A espera era o convite. Ela entrou. O escritório permanecia igual: linhas retas, tons neutros, nenhuma concessão ao excesso. Pereira fechou a porta, mas não trancou. Um detalhe pequeno — e significativo. Ficaram de pé, por alguns segundos, frente a frente. Não havia clima de reprimenda. Nem de aprovação. — Você foi longe hoje — disse ele, por fim. Não havia crítica explícita. Tampouco elogio. — Fui até onde o projeto exige — respondeu Lita. Pereira caminhou até a mesa, apoiou as mãos no tampo, inclinando levemente o corpo para frente. Observava-a como quem recalcula uma estrutura depois de um esforço inesperado. — Você sabe que criou um precedente — disse. — Outros vão querer o mesmo. — Se os projetos precisarem, deveriam — respondeu ela, sem recuar. — O problema não é o precedente. É o abandono que veio antes. O silêncio se instalou de novo. Um silêncio denso, mas limpo. Pereira descruzou as mãos, respirou fundo. Pela primeira vez, parecia menos um gestor e mais um homem avaliando algo que escapava às planilhas. — Você não pediu permissão — disse. — Não — confirmou Lita. — Pedi responsabilidade. Ele a encarou por mais tempo do que o necessário. O olhar não era duro. Era atento. Quase inquieto. — E se isso der errado? — Então a responsabilidade é minha — disse ela. — Mas não será por negligência. Ele se afastou da mesa, deu alguns passos até a janela. A cidade lá embaixo parecia pequena, distante. Virou-se de novo para ela. — Você entende que isso muda a forma como eu a vejo dentro da empresa. Lita sustentou o olhar. — Eu entendo. E entendo também que a forma como sempre me viram nunca foi neutra. A frase não veio como acusação. Veio como fato. Pereira assentiu, lentamente. Não em concordância plena — em reconhecimento. — Você não é fácil de conduzir — disse. — Nunca fui — respondeu ela. — Apenas fiquei visível. Um quase sorriso ameaçou surgir no canto da boca dele, mas não chegou a existir. O momento não pedia concessões. — Vá ao canteiro amanhã — disse ele, retomando o tom prático. — Quero relatórios semanais. Sem filtros. — Terá — respondeu Lita. — Do jeito que é. Ela se virou para sair. A mão já na maçaneta quando ouviu: — Lita. Parou. — Não confunda este espaço com segurança — disse ele, sem dureza. — O jogo continua. Ela virou o rosto o suficiente para que ele visse seu perfil. — Eu sei — respondeu. — Por isso eu jogo direito. Saiu e fechou a porta com cuidado. Não houve vitória clara. Nem derrota. Mas, ao caminhar pelo corredor, Lita soube: algo havia mudado. Não nele apenas. Nela também. O confronto não precisara de voz elevada. Porque algumas disputas mais importantes são travadas no silêncio — e vencidas pela firmeza de quem não se curva.
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