Capitulo 17

851 Palavras
Pedro escolheu o horário do almoço por hábito e estratégia. Meio-dia e meia era quando o restaurante respirava um pouco entre o movimento da manhã e o fluxo do começo da tarde. As mesas estavam quase todas ocupadas, o cheiro de comida quente misturado ao som contido de conversas. Aquele era o mundo que ele construíra com as próprias mãos — e do qual se orgulhava em silêncio. O Sr. Pereira chegou pontualmente. Paletó impecável, postura medida, olhar atento demais para um lugar que não controlava. — Bom te ver, Pedro — disse, estendendo a mão. — Sempre um prazer — respondeu ele, sincero. — Senta aqui. A mesa é mais tranquila. Sentaram-se perto da janela. Pedro pediu o prato do dia para os dois, sem consultar o cardápio. Pereira notou, mas não comentou. Havia algo confortável naquela segurança simples. — Então — começou Pedro —, pensei numa reforma que respeite o que o restaurante já é, mas que ajude a crescer. Cozinha, fachada… talvez um segundo andar no futuro. Pereira ouviu com atenção, fez perguntas objetivas, comentou custos, prazos. Era o terreno conhecido. O diálogo fluía com a naturalidade de quem se entende sem esforço. Foi depois da segunda garrafa de cerveja que algo mudou. Pereira pousou o copo com cuidado excessivo, como se aquele gesto pedisse coragem. — Você confia em mim, Pedro? — perguntou, de repente. Pedro ergueu o olhar, surpreso, mas não desconfiado. — Confio. Se não confiasse, não estaria aqui. Pereira assentiu, respirou fundo. O barulho do restaurante pareceu se afastar um pouco. — Eu não costumo falar da minha vida pessoal — disse. — E não sei exatamente por que estou falando agora. Pedro não respondeu. Apenas esperou. Até porque uma conversa com o Pereira livre é apenas para falar coisas banais ou negócios nunca vida pessoal. Pereira sempre foi um homem muito fechado para se abrir assim nessa naturalidade. - — Existe alguém na empresa — continuou Pereira — que tem me tirado do eixo. Não de forma imprudente… mas profunda. Pedro franziu levemente a testa. — Alguém competente? Pereira soltou um ar curto, quase um riso. — Muito mais do que isso. Lita. O nome ficou suspenso entre eles. Pedro o reconheceu de imediato. Já ouvira Jho mencioná-la. Sempre com respeito. — Ela é… diferente — continuou Pereira. — Não pede espaço. Ocupa. Não se curva, mas também não afronta sem propósito. Ela me obriga a pensar. E eu passei a vida inteira evitando isso. Pedro apoiou os cotovelos na mesa, atento. — Isso parece admiração. — É — admitiu Pereira, sem rodeios. — E é o que me assusta. O silêncio voltou a se instalar. Pedro escolheu as palavras com cuidado. — O senhor sabe que admiração não é o problema — disse. — O problema é o que se faz com ela. Pereira o encarou. Havia ali algo novo: não autoridade, mas escuta. — Ela não me deve nada — disse ele. — Nem emocionalmente, nem profissionalmente. E isso… isso me desmonta. Pedro assentiu devagar. — Talvez porque o senhor esteja acostumado a relações baseadas em dívida, autoridade, ordem — disse, sem acusar. — E ela não entra nesse jogo. Pereira desviou o olhar para a rua. — Exato. Comeram em silêncio por alguns minutos. O prato esfriava, mas a conversa já tinha ido longe demais para voltar atrás. — Ela é importante para um projeto grande na Zona Sul — continuou Pereira. — Mas também é importante para algo que eu ainda não sei nomear. Aqui talvez ou em outro lugar, outro projeto na minha vida. Nem sei mais o que eu estou falando Pedro respirou fundo antes de responder. — Então o senhor precisa ter cuidado — disse. — Com ela. E consigo mesmo. Pereira voltou o olhar, sério. — Eu sei. — Lita não parece alguém que aceite ser confundida com concessão — completou Pedro. — E, pelo que vejo, ela tem razões fortes fora da empresa. Pereira assentiu, como quem já sabia, mas precisava ouvir. — Ela tem uma filha — disse ele. — E uma inteireza que não se negocia. Pedro sorriu de leve. — Então o senhor já tem sua resposta. O almoço terminou sem brindes. A negociação da reforma ficou bem encaminhada, mas não foi o ponto central daquele encontro. Ao se despedirem, Pereira apertou a mão de Pedro com mais firmeza do que o habitual. — Obrigado por ouvir — disse. — Nem todo mundo sabe fazer isso. — Ouvir também é trabalho — respondeu Pedro. — Só não dá status. Pereira saiu. Porem quando esta presta a entrar no carro vê Lita chegando com o Roberto ambos sorrindo e conversando. Pedro ficou por um instante observando a porta fechada. Pensou em Jho. Pensou em Lita, mesmo sem conhecê-la direito. Pensou em como algumas pessoas entram na vida dos outros não para ocupar espaço — mas para revelar fissuras. E entendeu que aquele almoço não tinha sido sobre uma reforma. Tinha sido sobre o início de algo que, se não fosse tratado com cuidado, poderia desmoronar — ou transformar tudo ao redor
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