Pedro escolheu o horário do almoço por hábito e estratégia. Meio-dia e meia era quando o restaurante respirava um pouco entre o movimento da manhã e o fluxo do começo da tarde. As mesas estavam quase todas ocupadas, o cheiro de comida quente misturado ao som contido de conversas. Aquele era o mundo que ele construíra com as próprias mãos — e do qual se orgulhava em silêncio.
O Sr. Pereira chegou pontualmente. Paletó impecável, postura medida, olhar atento demais para um lugar que não controlava.
— Bom te ver, Pedro — disse, estendendo a mão.
— Sempre um prazer — respondeu ele, sincero. — Senta aqui. A mesa é mais tranquila.
Sentaram-se perto da janela. Pedro pediu o prato do dia para os dois, sem consultar o cardápio. Pereira notou, mas não comentou. Havia algo confortável naquela segurança simples.
— Então — começou Pedro —, pensei numa reforma que respeite o que o restaurante já é, mas que ajude a crescer. Cozinha, fachada… talvez um segundo andar no futuro.
Pereira ouviu com atenção, fez perguntas objetivas, comentou custos, prazos. Era o terreno conhecido. O diálogo fluía com a naturalidade de quem se entende sem esforço.
Foi depois da segunda garrafa de cerveja que algo mudou.
Pereira pousou o copo com cuidado excessivo, como se aquele gesto pedisse coragem.
— Você confia em mim, Pedro? — perguntou, de repente.
Pedro ergueu o olhar, surpreso, mas não desconfiado.
— Confio. Se não confiasse, não estaria aqui.
Pereira assentiu, respirou fundo. O barulho do restaurante pareceu se afastar um pouco.
— Eu não costumo falar da minha vida pessoal — disse. — E não sei exatamente por que estou falando agora.
Pedro não respondeu. Apenas esperou. Até porque uma conversa com o Pereira livre é apenas para falar coisas banais ou negócios nunca vida pessoal. Pereira sempre foi um homem muito fechado para se abrir assim nessa naturalidade. -
— Existe alguém na empresa — continuou Pereira — que tem me tirado do eixo. Não de forma imprudente… mas profunda.
Pedro franziu levemente a testa.
— Alguém competente?
Pereira soltou um ar curto, quase um riso.
— Muito mais do que isso. Lita.
O nome ficou suspenso entre eles. Pedro o reconheceu de imediato. Já ouvira Jho mencioná-la. Sempre com respeito.
— Ela é… diferente — continuou Pereira. — Não pede espaço. Ocupa. Não se curva, mas também não afronta sem propósito. Ela me obriga a pensar. E eu passei a vida inteira evitando isso.
Pedro apoiou os cotovelos na mesa, atento.
— Isso parece admiração.
— É — admitiu Pereira, sem rodeios. — E é o que me assusta.
O silêncio voltou a se instalar. Pedro escolheu as palavras com cuidado.
— O senhor sabe que admiração não é o problema — disse. — O problema é o que se faz com ela.
Pereira o encarou. Havia ali algo novo: não autoridade, mas escuta.
— Ela não me deve nada — disse ele. — Nem emocionalmente, nem profissionalmente. E isso… isso me desmonta.
Pedro assentiu devagar.
— Talvez porque o senhor esteja acostumado a relações baseadas em dívida, autoridade, ordem — disse, sem acusar. — E ela não entra nesse jogo.
Pereira desviou o olhar para a rua.
— Exato.
Comeram em silêncio por alguns minutos. O prato esfriava, mas a conversa já tinha ido longe demais para voltar atrás.
— Ela é importante para um projeto grande na Zona Sul — continuou Pereira. — Mas também é importante para algo que eu ainda não sei nomear. Aqui talvez ou em outro lugar, outro projeto na minha vida. Nem sei mais o que eu estou falando
Pedro respirou fundo antes de responder.
— Então o senhor precisa ter cuidado — disse. — Com ela. E consigo mesmo.
Pereira voltou o olhar, sério.
— Eu sei.
— Lita não parece alguém que aceite ser confundida com concessão — completou Pedro. — E, pelo que vejo, ela tem razões fortes fora da empresa.
Pereira assentiu, como quem já sabia, mas precisava ouvir.
— Ela tem uma filha — disse ele. — E uma inteireza que não se negocia.
Pedro sorriu de leve.
— Então o senhor já tem sua resposta.
O almoço terminou sem brindes. A negociação da reforma ficou bem encaminhada, mas não foi o ponto central daquele encontro.
Ao se despedirem, Pereira apertou a mão de Pedro com mais firmeza do que o habitual.
— Obrigado por ouvir — disse. — Nem todo mundo sabe fazer isso.
— Ouvir também é trabalho — respondeu Pedro. — Só não dá status.
Pereira saiu. Porem quando esta presta a entrar no carro vê Lita chegando com o Roberto ambos sorrindo e conversando.
Pedro ficou por um instante observando a porta fechada.
Pensou em Jho. Pensou em Lita, mesmo sem conhecê-la direito. Pensou em como algumas pessoas entram na vida dos outros não para ocupar espaço — mas para revelar fissuras.
E entendeu que aquele almoço não tinha sido sobre uma reforma.
Tinha sido sobre o início de algo que, se não fosse tratado com cuidado,
poderia desmoronar — ou transformar tudo ao redor