Quando os Mundos se Cruzam
O Sr. Pereira já tinha a mão na maçaneta do carro quando algo fora de lugar interrompeu o gesto automático.
Do outro lado da calçada, Lita se aproximava do restaurante.
Ela caminhava ao lado de um homem que ele não conhecia. Alto, postura relaxada, óculos discretos, um sorriso fácil demais para ser apenas cordial. Conversavam com i********e suficiente para não ser acaso, mas leve o bastante para parecer antiga.
Riam.
Não alto. Não ostensivo. Um riso cúmplice, desses que não pedem atenção — apenas existem.
O peito de Pereira contraiu num reflexo que ele não antecipara. Não era ciúme no sentido vulgar da palavra. Era algo mais incômodo: a consciência súbita de que Lita tinha uma vida que não orbitava a empresa. Nem ele.
— Roberto — disse Lita, parando diante da porta. — Acho que vou entrar só pra tomar um suco, não posso demorar.
— Claro — respondeu o homem.
Havia algo naquele tom. Um cuidado contido. Um interesse bem educado. Perigoso exatamente por isso.
Pereira reconheceu o tipo.
Lita com um toque breve no braço dele. Um gesto pequeno, mas carregado de confiança. Depois, entraram no restaurante.
Roberto entrou logo depois, com o mesmo ar tranquilo de sempre. Professor de Literatura, alguns anos mais velho, alguém que carregava o hábito de ouvir antes de falar. Usava camisa clara, mangas dobradas, livros invisíveis sempre presentes no jeito de andar.
Pereira entrou no carro devagar, mas não deu a partida de imediato. Observava o reflexo da fachada no para-brisa, como se ali estivesse a resposta para algo que ele ainda não conseguia formular.
Lita surgiu à janela interna do restaurante, falando com Pedro. Seu rosto estava diferente do ambiente corporativo. Mais solto. Mais inteiro. Aquela era a mulher que não aparecia nas reuniões — e que, ainda assim, influenciava todas elas.
Pereira sentiu algo que não experimentava havia anos: deslocamento.
Ele não era o centro daquela cena. Nem o eixo. Nem a referência.
E isso doeu mais do que ele esperava.
Dentro do restaurante, Pedro percebeu quando Lita se aproximou de uma mesa
Eles se sentaram. O garçom trouxe o cardápio, mas Roberto m*l olhou.
— Confio em você — disse, fechando-o. — Escolhe.
Ela arqueou a sobrancelha, divertida.
— Isso é coragem ou imprudência?
— Um pouco dos dois. Como quase tudo que vale a pena.
Conversaram primeiro sobre banalidades. A aula da manhã, um autor citado fora de contexto, a cidade que parecia nunca diminuir o ritmo. Mas havia algo ali, sob a superfície, que não precisava ser nomeado para existir.
Roberto observava Lita com atenção contida. Não a olhava como quem avalia, nem como quem invade. Era um olhar que reconhecia. Que sabia de onde ela vinha.
Você escreve menos do que deveria — disse ele, de repente.
Lita pousou os talheres devagar.
— Ainda acompanha meus silêncios, professor?
— Alguns silêncios gritam — respondeu. — O seu sempre gritou.
Ela respirou fundo, sentindo aquele velho aperto familiar.
A vida exige outras urgências.
— Eu sei — disse ele, com suavidade. — Mas a palavra também é uma forma de sobrevivência. Você me ensinou isso sem perceber.
Lita sorriu, mas desviou o olhar. Havia carinho ali. Respeito. E algo mais — algo que Roberto guardava com cuidado demais para ser acaso.
— Você nunca atravessou a linha — disse ela, quase como quem testa o chão.
— Porque algumas linhas existem para serem honradas — respondeu ele. — Não ultrapassadas.
O almoço chegou. Comeram devagar, como se o tempo tivesse afrouxado. Roberto falava de livros, de projetos culturais, de uma palestra que queria convidá-la a assistir. Sempre havia espaço para ela recuar. Sempre havia escolha.
E isso, para Lita, era raro.
— Você está diferente — disse ele, em certo momento. — Mais firme. Mas também mais cansada.
— Aprendi a sustentar estruturas — respondeu ela. — Algumas visíveis. Outras, nem tanto.
Ele assentiu, compreendendo mais do que ela dizia.
Do lado de fora, um carro estava estacionado por tempo demais. Mas Lita não percebeu.
Para ela, aquele almoço não era ameaça, nem promessa. Era um intervalo seguro. Um lembrete de quem ela fora — e ainda era — antes de o mundo exigir dureza constante.
Para Roberto, era mais.
Era a confirmação de um sentimento antigo, guardado com ética e paciência. Um interesse que não pedia posse, apenas possibilidade.
Quando se despediram, ele tocou de leve o braço dela.
— Fico feliz que tenha vindo.
— Eu também — respondeu Lita, sincera.
Ela deu um adeus a Pedro pois ambos só se conhecia por causa da Jho e não por i********e, até porque Pedro estava um pouco fora do mundo da Lita. Roberto ficou do lado de fora por um instante, respirando fundo antes de ir embora.
Alguns encontros não precisam acontecer plenamente
para transformar tudo ao redor.
Basta que revelem o que estava silenciosamente à espera.
E para o Sr. Pereira…
Era a confirmação definitiva de algo que ele vinha resistindo a aceitar:
Lita não estava à espera de ser descoberta.
Não precisava ser escolhida.
Não orbitava o poder.
Ela se movia por outros centros —
palavra, memória, afeto, responsabilidade.
Ligou o carro.
Enquanto se afastava, uma certeza desconfortável se instalou:
O que ele sentia não competia com Roberto,
nem com a literatura,
nem com a vida que ela construíra.
Competia com o fato de que Lita
não pertencia a nenhum território
que ele soubesse dominar.
E isso tornava tudo
irremediavelmente real.