Depois do Almoço
Roberto
Roberto saiu do restaurante alguns minutos depois de Lita. Não por acaso, mas por prudência. Precisava do silêncio do próprio passo para organizar o que o almoço tinha desorganizado dentro dele.
O sol do início da tarde batia diferente na calçada, e ele teve a sensação incômoda de que algo tinha mudado de lugar — não no mundo, mas nele. Durante anos, convenceu-se de que o que sentia por Lita era apenas uma lembrança bem guardada, dessas que a gente respeita à distância. Um afeto antigo, nascido nos corredores da faculdade, quando ela ainda era aluna e ele, professor. Um sentimento que nunca ultrapassara a linha do olhar atento demais, da escuta prolongada, do cuidado silencioso.
Mas agora, sentado à mesa com ela, ouvindo-a falar da vida, da maternidade, dos textos que escrevia e dos que havia deixado de escrever, Roberto teve certeza: o sentimento não tinha morrido. Tinha amadurecido. E, talvez por isso mesmo, era mais perigoso.
Quinze anos. Ele repetiu esse número mentalmente enquanto atravessava a rua. Quinze anos não eram quinze dias, não eram detalhe, não eram algo que se varria para debaixo do tapete com frases modernas sobre maturidade emocional. Quinze anos eram histórias vividas em ritmos diferentes, marcas no corpo, expectativas desalinhadas. Em partes, era um problema. Em outras, uma desculpa conveniente para nunca tentar.
O maior obstáculo, porém, não era o tempo. Era o olhar dela.
Lita ainda o via como professor. Mesmo agora, adulta, mãe, mulher feita de escolhas difíceis, havia nos gestos dela um respeito quase automático, uma escuta atenta que o colocava num lugar seguro — e distante. Ele temia que, para ela, ele fosse sempre o homem que explicava livros, não o homem que desejava ser lido.
E havia ainda outro medo, mais íntimo, menos confessável.
Roberto sabia o quanto escrever era essencial para Lita. Sabia também o quanto ela tinha se afastado disso depois de se tornar mãe, como se a vida tivesse exigido silêncio em troca de cuidado. Ele não queria ser mais um fator de interrupção. Não queria que, por causa dele, ela voltasse a escrever como antes — ou pior, deixasse de escrever de vez. Não queria ocupar um espaço que não fosse convite, mas peso.
Parou por um instante, encostando-se a uma vitrine qualquer. Observou o próprio reflexo: cabelos já marcados pelo tempo, olhos cansados, mas atentos. Um homem que ainda sentia. Que ainda desejava. Que ainda tinha medo.
Talvez amar Lita fosse isso: aceitar o risco de não ser correspondido, o risco de ser visto apenas como parte do passado dela, o risco de nunca ultrapassar a linha invisível que os separava. Mas também aceitar que negar o sentimento seria uma forma lenta de covardia.
Roberto retomou o caminho, mais calmo. Não tinha respostas, nem decisões prontas. Tinha apenas a certeza recém-descoberta de que alguns sentimentos não pedem permissão para existir. Eles apenas ficam. À espera de coragem — ou de silêncio.
Sr. Pereira
Uma promessa interna
Sr. Pereira não tinha ido ao restaurante por acaso, mas também não esperava ver o que viu. A cena era simples demais para justificar o impacto: Lita sentada à mesa, rindo baixo, inclinando levemente a cabeça enquanto Roberto falava. Um almoço comum. Pessoas comuns. E, ainda assim, algo nele se deslocou com violência silenciosa.
Não foi raiva. Não foi surpresa. Foi reconhecimento.
Ali, parado a poucos metros, ele teve certeza de que algo dentro dele havia mudado em relação a Lita — algo que já não cabia mais no território seguro da admiração distante. Até então, tinha chamado de respeito, de apreço intelectual, de curiosidade profissional. Mas ver outro homem ocupando aquele espaço despertou um incômodo que não aceitava mais eufemismos.
Ciúme.
Ele não deu esse nome em voz alta. Nem para si. Apenas sentiu o estômago contrair, a mandíbula endurecer, o impulso quase infantil de ir embora rápido demais. O sentimento veio junto com outro, mais racional e mais duro: o aviso.
Era ali que precisava parar.
Ainda caminhando, Sr. Pereira decidiu — com a firmeza de quem usa a razão para conter o caos — que fecharia qualquer brecha. Não permitiria que aquele início de sentimento crescesse, não daria espaço para encontros fora do necessário, não confundiria gestos, palavras ou silêncios. A partir daquele dia, sua relação com Lita seria apenas profissional. Correta. Respeitosa. Limpa de intenções.
Nunca mais um convite.
Nunca mais uma aproximação que pudesse ser lida como afeto.
Nunca mais um olhar que demorasse além do aceitável.
Era uma promessa. E também uma sentença.
O que ele não admitia — nem sob ameaça — era o que fervilhava por baixo dessa decisão. Porque, no fundo, enquanto se obrigava a recuar, desejava Lita como um louco. Desejava o que ela não dizia, o que escondia nos intervalos, o que surgia quando falava de livros, de cansaço, de maternidade, de vida. Desejava a mulher inteira, com as pausas, as contradições e as forças que ela mesma talvez não reconhecesse.
Esse desejo o assustava.
Por isso o controle. Por isso o distanciamento calculado. Por isso a escolha pela negação como forma de sobrevivência.
Sr. Pereira sabia: alguns sentimentos não se resolvem sendo vividos. Alguns só se suportam sendo contidos. E ele se orgulhava de ser um homem que sabia conter.
Mesmo que, à noite, ao lembrar do riso de Lita no restaurante, essa contenção doesse como uma ferida aberta.
Ele seguiu em frente, postura impecável, decisão intacta. Por fora, o profissional exemplar.
Por dentro, um homem em guerra consigo mesmo — desejando em silêncio aquilo que jurou nunca mais tocar.Mesmo sabendo que a partir dessa decisão tudo mudaria tanto na vida como na empresa.