Tati
Olhada Estranha
Depois que eu conheci a Jho e a Lita, minha vida nunca mais foi à mesma. Duas mulheres completamente diferentes, jeitos opostos de enxergar o mundo, mas com algo em comum que colava a gente feito ímã: o coração enorme. Foi assim, sem cerimônia, que viramos melhores amigas. Daquelas que se escolhem no caos.
Eu e a Lita estávamos solteiras. Solteiras de verdade — com cicatrizes, ironias afiadas e aquele acordo silencioso de não prometer nada a ninguém. Jho, por outro lado, já tinha virado a página. Estava conhecendo alguém novo, sorrindo diferente, mais leve. E eu gostava de ver isso nela.
O Pedro, dono do restaurante, já me conhecia de outras noites e conversas jogadas fora. A Lita, não. Ela sempre passava apressada, educada, distante. Mas naquela noite isso ia mudar.
Marcamos de beber um drink e deixar a conversa correr solta no restaurante do Pedro. Ele andava empolgado com a ideia de ampliar o espaço, falava como quem sonha alto sem pedir licença. Jho estava elétrica — ainda mais agora que trabalhava com a Lita na empresa do Sr. Pereira. Duas mulheres brilhantes dividindo o mesmo escritório… aquilo ainda ia dar história.
Lita ficou receosa no começo. Isadora tinha só oito anos, e mãe é mãe, mesmo quando tenta fingir que não pesa tudo mil vezes. Mas, para surpresa dela, a mãe se ofereceu para ficar de olho na menina. Lita sorriu daquele jeito contido, meio culpado, meio aliviado. A noite, oficialmente, estava liberada.
Eu me arrumei sem pressa, mas com intenção.
Escolhi um vestido preto, curto na medida exata entre o “despretensioso” e o “não passe do meu limite sem convite”. O tecido abraçava o corpo sem esforço, alças finas, decote discreto — porque sedução não precisa gritar. Nos pés, uma sandália de salto médio, confortável o suficiente pra dançar se desse vontade. Ou fugir, se fosse o caso.
A maquiagem veio como minha armadura favorita: pele iluminada, olhos marcados com um delineado firme — desses que dizem eu sei quem eu sou — e boca em tom de vinho fechado. O cabelo solto, levemente ondulado, como se eu tivesse acordado assim… mesmo sabendo que não acordei.
Antes de sair, me encarei no espelho e pensei: não estou pronta para amar, mas estou pronta para viver.
No caminho, Jho soltou a bomba, rindo:
— Ah, esqueci de contar… tem um amigo do Pedro lá hoje. Bonitão. Nome dele é Rafael.
Revirei os olhos, fingindo desinteresse.
— Jho, eu não tô pronta pra relacionamento nenhum.
Ela sorriu daquele jeito que só quem conhece seus segredos consegue.
— Quem falou em relacionamento? Uma paquera não mata ninguém.
Ela tinha razão. Uma paquera não era uma promessa. Era só um risco pequeno. E eu já tinha sobrevivido a riscos bem maiores.
Quando chegamos ao restaurante, o clima estava diferente. Luz mais baixa, música boa, risadas espalhadas. Foi então que aconteceu.
A olhada.
Rafael estava encostado no balcão, camisa clara com as mangas dobradas, barba por fazer, sorriso fácil demais para ser ignorado. Quando nossos olhos se cruzaram, não foi imediato. Foi lento. Curioso. Um reconhecimento silencioso de que algo podia acontecer — ou não.
Ele sorriu primeiro. Eu demorei um segundo a mais. De propósito.
Mais tarde, entre um drink e outro, ele se aproximou. Conversa simples, inteligente, sem pressa. Não tentou me impressionar. Me escutou. Riu das minhas ironias. Sustentou meu olhar. E isso, confesso, desarmou mais do que qualquer elogio.
Não foi amor. Não foi promessa. Mas foi o início de algo possível.
E, para alguém como eu — que aprendeu a rir para esconder as dores —, desejar de novo, mesmo que devagar, já era uma pequena revolução.
A noite prometia. E, pela primeira vez em muito tempo, eu deixei.
O que a noite revela
Depois de muitos drinks e risadas que já vinham fáceis demais, a ideia de encerrar a noite no restaurante simplesmente não parecia suficiente. Eu e Rafa trocamos um olhar cúmplice — desses que dispensam explicação — e decidimos esticar. Chamamos a Lita e a Jho mais por costume do que por insistência.
Lita recusou com um sorriso cansado. Estava ali, mas não estava. O corpo sentado à mesa, a mente longe. Talvez na filha, talvez na culpa silenciosa de quem passa anos colocando a própria vida em pausa. Havia muito tempo que ela não saía à noite, e aquilo era visível no jeito como olhava o relógio, como se pedisse permissão a si mesma para ir embora.
Jho também ficou. Pedro não precisou dizer nada — eles já se moviam como quem divide rotina, espaço e silêncios. Praticamente moravam juntos, mesmo sem nunca terem oficializado isso em palavras.
Eu e Rafa saímos.
Caminhar pelas ruas de São Paulo à noite sempre teve algo de libertador pra mim. Estávamos no Largo de Pinheiros, um território familiar, onde os bares se espalham como convites discretos. Escolhemos um dos que eu já frequentava com minhas amigas — mesas na calçada, luz amarela, música baixa o suficiente para permitir conversa de verdade.
Sentamos.
E foi ali que Rafael realmente se apresentou a mim.
Sem pressa. Sem personagens.
Ele falou da vida com a tranquilidade de quem já viveu o bastante para não precisar provar nada. Solteiro. Oito anos dividindo a vida com uma mulher — uma história longa, intensa, encerrada sem escândalos, mas com marcas. Ele não romantizou o passado, tampouco o renegou. Apenas contou.
Moreno, corpo bonito sem esforço, sorriso fácil, daqueles que chegam antes da frase terminar. Quarenta e dois anos, advogado, dono do próprio escritório. Não trabalhava para ninguém — e isso se refletia no jeito seguro, quase leve, de conduzir a conversa. Havia nele uma juventude que não vinha da idade, mas da forma como escutava, como ria, como se permitia estar ali.
Eu percebi quando o olhar dele demorou um segundo a mais no meu.
Ele percebeu quando eu sorri antes de responder.
Falamos de tudo e de nada. Da cidade, das escolhas erradas que acabam ensinando mais do que as certas, de como o tempo muda as prioridades. Não houve cantadas óbvias. Não houve promessas. Mas havia interesse — claro, silencioso, confortável.
Um interesse adulto.
A noite avançava sem pressa. O bar enchia, as vozes se misturavam, e ainda assim parecia que existia um pequeno espaço só nosso naquela mesa. Em algum momento, ele encostou a mão na minha ao rir de algo que eu disse. Não afastou. Eu também não.
Não era paixão. Ainda não.
Mas era o começo de algo que merecia atenção.
E naquela São Paulo iluminada por postes e possibilidades, eu soube:
algumas histórias não começam com urgência — começam com presença.