capitulo 21

759 Palavras
A mensagem que não devia existir Minha vida emocional estava um caos. Eu tentava racionalizar, organizar pensamentos, colocar cada sentimento no lugar certo — mas nada obedecia. Lita atravessava tudo. Os dias, as noites, os intervalos de silêncio. E isso me irritava profundamente. Não por ela, mas por mim. Eu havia prometido. A mim mesmo. Nada além do profissional. Era a única forma de seguir. Cheguei em casa com esse discurso ecoando na cabeça. O apartamento estava silencioso demais — aquele tipo de silêncio que não acalma, apenas evidencia a ausência. Abri a geladeira, peguei uma cerveja e me joguei no sofá. Gelada. Amarga. Fiel companheira das horas difíceis. Bebi uma. Depois outra. O tempo perdeu contorno. A televisão ligada sem som, o celular largado de lado, a cabeça pesada demais para pensar direito. A solidão, essa velha conhecida, começou a apertar o peito de um jeito quase físico. E foi aí — naquele ponto exato entre o cansaço e a carência — que eu cedi. Levantei. Fui até o computador. Não havia um plano. Só impulso. Entrei no sistema. Lista de funcionários. Rolei os nomes sem pressa, como quem já sabe exatamente o que procura. Quando vi o dela, hesitei. Um segundo. Talvez menos. Cliquei. O cadastro de Lita se abriu na tela. Li tudo. Dados frios, organizados, objetivos. Endereço. Histórico. Função. E, por fim, o telefone. Fiquei ali mais tempo do que deveria. O cursor piscando. A cerveja quase vazia ao lado do teclado. Era só um número. Mas eu sabia que não era. Quando me dei conta, já estava digitando. Uma mensagem simples. Nada explícito. Nada comprometedor. Algo que, na minha cabeça turva, parecia inofensivo demais para ser um erro. Apertei “enviar” antes que a razão tivesse tempo de reagir. Só então veio o choque. O arrependimento tardio. A consciência gritando. Do outro lado da cidade, o celular de Lita vibrou. Ela se espantou ao ver o nome. O coração acelerou sem aviso. Leu a mensagem uma vez. Depois outra. O susto veio primeiro — o susto de algo fora do lugar, de uma fronteira ultrapassada. Ela olhou ao redor, como se alguém pudesse ver seus pensamentos. Não respondeu. Não apagou. Ficou ali, imóvel, com o celular na mão e um turbilhão silencioso por dentro. Sabia que não devia sentir nada além de surpresa. Sabia que aquilo complicava tudo. Mas o fundo do peito não obedeceu. Entre o certo e o desejo, Lita permaneceu em silêncio — paralisada pela mesma mensagem que, do outro lado, eu já desejava nunca ter enviado. O que se responde quando não há resposta Lita... Não era nada grande. Nada elaborado. Apenas uma pergunta. “Por que é tão difícil conviver com você? E por que você não sai da minha mente?” Lita leu devagar. Não porque não tivesse entendido, mas porque precisava ganhar tempo. O coração bateu mais forte, denunciando um desconforto que ela não queria nomear. Aquilo não era uma investida direta, mas era íntimo demais para ser ignorado. E vinha de quem não devia. Ela apoiou o celular na mesa, respirou fundo e passou a mão pelo rosto. Sabia que qualquer resposta abriria uma porta. O silêncio também. Não existia saída limpa. Pensou na filha. No trabalho. Na linha tênue que ela lutava tanto para manter. Mas também pensou em si. Pegou o celular novamente. Digitou. Apagou. Digitou de novo. As palavras pareciam erradas antes mesmo de serem concluídas. Não queria estimular, mas também não conseguia ser fria. Não com alguém que, de alguma forma, já tinha atravessado suas defesas. Do outro lado, eu observava a tela como se pudesse forçar uma resposta com o olhar. Cada segundo sem retorno aumentava a sensação de ter ido longe demais. Quando o celular finalmente vibrou, foi quase um susto. Lita escreveu pouco. Cuidadosa. Medida. Não respondeu à pergunta como ela foi feita. Desviou. Protegeu-se. Falou de limites, de momentos confusos, de como algumas presenças mexem mais do que deveriam — e de como isso não significa que devam ser alimentadas. Não negou o impacto, mas também não o convidou a crescer. Era uma resposta que dizia muito justamente pelo que evitava dizer. Eu li com atenção. E entendi. Não era um “sim”. Mas também não era um “não”. Era o reconhecimento silencioso de algo que existia — e que ambos sabiam que precisava ser contido. A conversa terminou ali. Sem despedidas longas. Sem promessas. Mas naquela noite, nenhum dos dois dormiu em paz. Porque algumas perguntas, mesmo quando respondidas, continuam ecoando.
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