A manhã chegou sem delicadeza.
Sr. Pereira acordou antes do despertador, com a cabeça pesada e a sensação incômoda de quem atravessou um limite durante a noite. A lembrança da mensagem veio inteira, sem cortes, sem anestesia. Cada palavra digitada voltava com um gosto amargo de impulsividade.
Levantou-se devagar, tomou banho como quem tenta lavar mais do que o corpo. Vestiu-se no automático, sem música, sem pressa. Não havia resposta nova no celular — e, estranhamente, isso aliviava e incomodava ao mesmo tempo.
No caminho até o escritório, decidiu algo que soava racional:
trabalho. Apenas trabalho.
Ao entrar, m*l teve tempo de deixar a pasta sobre a mesa.
— Sr. Pereira, precisamos falar com urgência — disse Marcos, da diretoria, surgindo na porta com o semblante fechado demais para aquela hora da manhã.
A notícia veio direta, sem rodeios.
O projeto na Argentina. Dois prédios em fase inicial de construção.
Problemas graves: falhas nos protocolos de segurança, denúncias, risco de paralisação imediata da obra.
— Você precisa ir hoje — concluiu Marcos. — Se isso não for resolvido agora, o prejuízo será enorme.
Sr. Pereira respirou fundo. Argentina. Viagem internacional. Crise técnica. Aquilo exigia mais do que decisões administrativas.
— Vou precisar de um assistente de área. Alguém de Segurança do Trabalho. Alguém… competente.
Marcos assentiu.
— Já pensamos nisso. Revimos toda a equipe.
Houve uma pausa curta. Desconfortável.
— A única profissional que atende todos os critérios é a Lita.
O nome caiu no ar como um impacto silencioso.
Sr. Pereira não reagiu de imediato. Não por surpresa — ele já sabia. Lita era precisa, técnica, experiente. Nunca falhava. Mas ouvi-la naquele contexto, naquela manhã específica, parecia uma ironia c***l do destino.
— Ela tem disponibilidade? — perguntou, mantendo a voz firme.
— Total. E já trabalhou em situações de crise parecidas. Não temos plano B.
Ele assentiu lentamente. Não havia como recuar. Não sem comprometer o projeto. Não sem misturar o que não devia.
— Então chame-a.
Minutos depois, Lita entrou na sala.
Ela parecia calma, profissional, como sempre. Mas os olhos denunciaram algo não dito. Um reconhecimento silencioso. Ela sabia. Ele também.
— Precisamos viajar hoje para a Argentina — explicou ele, direto ao ponto. — Projeto de dois prédios. Houve falhas sérias na segurança. Preciso de você na equipe.
Lita ouviu sem interromper. Técnica. Atenta. Anotando mentalmente cada detalhe. Quando ele terminou, ela respirou fundo.
— Certo. Me diga o horário do voo.
Nada mais foi dito.
Nenhuma referência à mensagem.
Nenhum olhar prolongado.
Mas quando ela saiu da sala, ambos sabiam:
aquela viagem não seria apenas sobre concreto, normas e relatórios.
Porque algumas urgências profissionais expõem exatamente aquilo que se tenta esconder.
O peso de ir
Quando Lita saiu da sala do Sr. Pereira, o corredor pareceu mais estreito do que de costume.
Ela caminhou até sua mesa mantendo a postura que aprendera a sustentar ao longo dos anos: coluna ereta, passos firmes, expressão neutra. Por fora, era a coordenadora de Segurança do Trabalho respeitada, técnica, indispensável. Por dentro, era uma mulher atravessada por sentimentos que não cabiam em planilhas nem em relatórios.
Argentina.
Viagem internacional. Crise em obra de grande porte. Responsabilidade total.
Ela sabia que era competente. Sabia que era a melhor opção. Mas também sabia que aquela escolha vinha carregada de camadas que ninguém ali precisava enfrentar além dela.
Mulher n***a. Mãe solo. Profissional em uma área ainda dominada por homens que testavam sua autoridade a cada reunião. Num país racista, ao lado de um homem branco e rico.
E agora, mulher interessada no próprio chefe.
Sentou-se devagar. Pegou a agenda. Começou a listar mentalmente tudo o que precisava organizar: documentos, EPIs, normas locais, cronograma de inspeção. Depois, a realidade paralela se impôs — a filha. Escola. Rotina. Quem buscaria. Quem ficaria.
Respirou fundo.
Não era a primeira vez que precisava conciliar mundos que nunca foram feitos para coexistir com facilidade. E, ainda assim, havia algo diferente dessa vez. O nome dele ecoava por motivos que iam além do trabalho.
Sr. Pereira.
Ela tentou ser honesta consigo mesma. Gostava dele. Do jeito contido, do olhar que parecia enxergar além da função que ela ocupava. Gostava — e isso a assustava. Porque interesse, para mulheres como ela, sempre custou mais caro.
Pegou o celular. Pensou na mensagem da noite anterior. Na pergunta que ele fizera. Na resposta cuidadosa que enviara. Nada daquilo havia sido esquecido — apenas empurrado para um canto silencioso da mente.
Agora, estariam juntos. Sozinhos. Em outro país.
Lita fechou os olhos por um instante. Não para fugir, mas para se organizar por dentro. Sabia o que precisava fazer: manter-se profissional, firme, impecável. Não podia errar. Não podia misturar.
Mas também sabia — com uma lucidez incômoda — que o interesse era mútuo. Estava nos silêncios, nos olhares interrompidos, na forma como ele confiava nela sem hesitar.
Levantou-se e voltou à sala dele para confirmar detalhes práticos.
Bateu na porta de forma simples e educada
Entre ele respondeu
— Vou precisar das informações completas do projeto e dos contatos locais — disse, objetiva.
Ele assentiu, admirando em silêncio aquela mulher que equilibrava tanto sem nunca pedir aplausos.
Quando os olhares se cruzaram por um segundo a mais do que o necessário, ambos entenderam: aquela viagem seria um teste.
Não apenas de competência técnica.
Mas de limites. E sentimentos
.