Capitulo 25

561 Palavras
Pedro notou antes que qualquer outra pessoa. Não foi uma frase, nem um gesto explícito. Foi o ar. Aquela mudança quase imperceptível que acontece quando duas pessoas dividem o mesmo espaço carregando coisas demais por dentro. O encontro aconteceu no restaurante, em um almoço organizado às pressas para Sr. Pereira para discutir sobre a reforma e ampliação do restaurante e quem sabe uma parceria no futuro. Pedro estava atrás do balcão quando viu Lita entrar. Reconheceu-a de imediato. Havia nela uma postura que ele conhecia bem: firmeza sem rigidez, atenção sem submissão. Ela parou por um segundo ao vê-lo sentado à mesa do fundo. O Sr. Pereira também a viu. E, pela primeira vez desde que Pedro o conhecia, não se levantou de imediato nem manteve o olhar distante. Apenas observou. — Lita — disse ele, quando ela se aproximou. Pedro fingiu organizar papéis enquanto observava. O silêncio entre os dois dizia mais do que qualquer conversa que ele já tivera com o amigo empresário. Havia algo suspenso ali. Algo não resolvido. — Este é o Pedro — disse o Sr. Pereira, quebrando a pausa. — Dono do restaurante. — Prazer — disse Lita, estendendo a mão, mas nós já nos conhecemos. Pedro apertou a mão dela. Sentiu firmeza. — O prazer é meu. Eles se sentaram. Pedro levou os pratos pessoalmente, mais por instinto do que por necessidade. Enquanto falavam de números, prazos e contratos, ele observava os detalhes: o jeito como Lita sustentava o olhar sem desafio; a forma como o Sr. Pereira se inclinava levemente quando ela falava, como se precisasse ouvir melhor; a impaciência contida quando alguém os interrompia. — Esse prazo não é viável — disse Lita, em certo momento. — Não sem comprometer a equipe. Pedro viu o maxilar do Sr. Pereira se contrair. Conhecia aquele gesto. Normalmente, era o prenúncio de uma resposta dura. — Está dizendo que não damos conta? — perguntou ele. — Estou dizendo que damos conta melhor se respeitarmos limites — respondeu ela, sem elevar a voz. Pedro pousou os pratos na mesa com cuidado excessivo. O clima tinha mudado. O restaurante parecia menor. O Sr. Pereira não respondeu de imediato. Apenas a encarou. Havia ali algo que Pedro não esperava ver: contenção. Não autoridade. Contenção. — Vamos analisar — disse ele, por fim. Pedro se afastou, mas continuou atento. Aquilo não era um simples embate profissional. Ele já tinha visto muitos. Aquilo era outra coisa. Algo que misturava respeito, incômodo e uma curiosidade m*l disfarçada. Ele entendeu que seu amigo estava completamente apaixonado pela Lita, mesmo que não admitisse. Quando Lita se levantou para ir embora, o Sr. Pereira acompanhou o movimento com os olhos por tempo demais. Pedro se aproximou da mesa. — Café? — perguntou, neutro. — Depois — respondeu o Sr. Pereira, ainda distraído. Pedro assentiu e se afastou, certo de uma coisa: havia ali uma tensão que não vinha do conflito, mas da semelhança. Dois mundos que não deveriam se tocar, mas que já estavam se reconhecendo, e se envolvendo ainda que não falasse um para outro. Mais tarde, enquanto fechava o caixa, Pedro pensou em Joelma, em Lita, no Sr. Pereira. Em como pessoas fortes costumam se encontrar nos lugares mais improváveis. E em como, quase sempre, esses encontros mudam tudo. Ele ainda não sabia como. Mas sabia que aquela história não seria simples.
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