Promessas que não se dizem
Depois do combinado da viagem por algum motivo quem nem o sr. Pereira sabia responder ele mandou uma mensagem para Lita.
Precisamos alinhar nossa viagem e tudo que será resolvido, antes de embarcar. Por gentileza poderia me acompanhar num almoço? Será num restaurante de um amigo que tem a pretensão de ampliar assim já conversamos sobre, essa reforma.
A mensagem demora um pouco para chegar, minha ansiedade é enorme e a demora da mensagem me deixa louco. Quando chega a resposta é apenas um:
Ok envia o endereço e vou preparar a pauta.
Como assim só isso? Sem nenhuma outra palavra? Essa mulher esta me deixando doido.
Um almoço veio carregado de promessas silenciosas.
Depois de combinar a viagem, por algum motivo que nem o Sr. Pereira conseguia explicar — e que se recusava a analisar com profundidade — ele mandou a mensagem. Sabia que não era estritamente necessária. Sabia que muitos alinhamentos poderiam ser feitos por e-mail, em reuniões formais, com atas e horários definidos. Ainda assim, escreveu.
“Precisamos alinhar nossa viagem e tudo que será resolvido antes de embarcar”.
Por gentileza, poderia me acompanhar num almoço? Eu me sentia como um adolescente penso nisso só piorava.
E a espera o desorganizou mais do que ele gostaria de admitir.
O tempo passou lento demais para alguém que sempre controlou agendas, decisões e pessoas. Ele checava o celular sem disfarçar, fingia concentração em documentos que não lia, levantava para pegar água sem sede alguma. A ansiedade não vinha da reunião, vinha dela. Do silêncio dela.
Quando a resposta chegou, foi curta. Fria demais para quem esperava qualquer outra coisa.
Ele leu mais de uma vez, como se houvesse algo oculto entre as palavras. Não havia. Era objetiva. Profissional. Distante. E isso o incomodou mais do que uma recusa teria incomodado. Na minha mente vinha se fosse aquele cara do outro dia, talvez a mensagem fosse mais harmoniosa, e menos formal. Isso lhe causou um ódio.
O almoço chegou rápido demais.
O restaurante ficava em uma rua tranquila, discreta, daqueles lugares que misturam sofisticação com i********e. Pedro, o dono, os recebeu com um sorriso aberto, claramente animado com a visita. Havia orgulho ali — orgulho de quem construiu algo com as próprias mãos e agora sonhava maior.
Lita chegou pontual. Deu um beijo e abraço no Pedro, de certa forma se sentia amiga dele por causa da Jho. Vestia-se com a elegância prática de sempre: nada chamativo, nada descuidado, mesmo assim havia uma certa sedução e mistério. O cabelo preso, maquiagem leve, postura firme. E o Sr. Pereira com um aceno respeitoso, profissional demais para o contexto íntimo que ele havia criado na própria cabeça.
Sentaram-se.
O silêncio inicial foi inevitável.
— Obrigado por ter vindo — ele disse, quebrando o gelo com a voz baixa.
— Faz parte do trabalho — ela respondeu, abrindo a bolsa e retirando um pequeno caderno. — Podemos começar quando quiser.
Ali estava ela. Técnica. Preparada. Blindada. Totalmente profissional. Nem pensou num almoço, ou até mesmo em pedir um suco, sempre muito técnica e profissional será que é assim que as pessoas me veem?
Pedro começou a falar sobre o restaurante: a vontade de ampliar, criar um segundo andar, investir em uma cozinha mais moderna, melhorar os fluxos de trabalho e, principalmente, garantir que tudo fosse feito dentro das normas de segurança. Lita escutava com atenção absoluta, fazendo perguntas precisas, anotando detalhes que o Sr. Pereira sequer havia percebido.
Ela era brilhante no que fazia. E isso só tornava tudo mais complicado, porem mais encantador também.
— A ampliação exigirá um plano rigoroso — Lita explicou. — Principalmente pela circulação de funcionários e clientes. Segurança não pode ser pensada depois.
Pedro assentia, visivelmente impressionado.
— É exatamente por isso que pedi essa conversa — ele disse, olhando para o Sr. Pereira. — Quero fazer certo desde o início.
Pedro o ideal seria você fechar o restaurante durante a obra assim evita acidente desnecessário, e a oportunidade de tudo ser entregue dentro do prazo. Sem nenhum risco. Disse Lita
Eu entendo, porem não posso fechar, porque esse é meu ganha pão, ainda não tenho um capital de giro alto para fechar para reforma e me sustentar. Afirma Pedro. E
Assim foi a conversa. O almoço seguiu entre pratos bem apresentados e uma conversa técnica que, para qualquer observador externo, parecia absolutamente normal. Mas havia algo no ar. Um desconforto sutil. Um cuidado exagerado nos gestos. Um evitar de olhares que, quando aconteciam por acaso, demoravam meio segundo a mais do que deveriam.
Em determinado momento, Pedro se afastou para atender uma ligação.
O silêncio se instalou novamente entre eles.
— A pauta está bem clara — Lita disse, quebrando o vazio. — Sobre a viagem, já revisei os relatórios preliminares. O problema na Argentina parece mais estrutural do que operacional.
Ele assentiu.
— Confio totalmente na sua análise.
Ela levantou os olhos por um instante. Apenas um instante. E depois voltou ao caderno.
— Precisaremos agir rápido — continuou. — Rever protocolos, treinar equipes locais, talvez até interromper parte da obra.
— Sei que posso contar com você — ele disse, quase sem perceber o tom pessoal da frase.
Ela respirou fundo.
— Sempre pôde.
Não havia ironia. Apenas verdade.
Pedro voltou à mesa, trazendo consigo o movimento que os salvou daquele silêncio perigoso. O assunto retornou ao restaurante, aos prazos, aos custos, às possibilidades. Tudo fluía — mas nada era simples.
O Sr. Pereira observava Lita enquanto ela falava. Pensava em como aquela mulher carregava tantas camadas: mulher n***a, mãe solo, coordenadora respeitada em um ambiente que raramente facilitava o caminho. Pensava também no quanto ela se fazia forte — e no quanto ele desejava saber o que havia por trás disso.
Mas não disse nada.
O almoço terminou sem excessos. Sem brindes. Sem despedidas longas.
Na porta do restaurante, Pedro se despediu animado, agradecido, cheio de planos.
— Vamos conversar mais sobre isso — ele disse. — Tenho certeza de que esse projeto vai crescer.
— Crescer com segurança — Lita respondeu, sorrindo de leve.
Quando ficaram sozinhos por um instante, o Sr. Pereira hesitou.
— Obrigado pelo almoço — disse ela, antes que ele pudesse falar qualquer coisa além do necessário.
— Eu que agradeço — respondeu. — Nos vemos mais tarde para alinhar a viagem.
Ela assentiu.
Virou-se. Foi embora.
Ele ficou ali, parado por alguns segundos a mais do que o aceitável, com a sensação incômoda de que aquele almoço não tinha sido apenas sobre trabalho. Porem não havia feito nenhuma diferença
Algumas promessas não são ditas.
Mas são sentidas. E ele sabia — aquela viagem seria tudo, menos simples.