Maike:
— Está com medo de eu te largar no chão? Perguntei, caminhando de volta pela trilha, sentindo cada curva do corpo dela colada ao meu.
— Um pouco. Ela murmurou, a voz fraca contra o meu peito.
— Bom saber. Porque eu estou com medo de mim mesmo.
Ela franziu a testa sem entender, mas não respondeu. — Da próxima vez, Samanta… Continuei, olhando pra frente, com a mandíbula travada. — Se quiser brincar de fada do mato, me avisa antes. Vai evitar que eu enfarte aos trinta e poucos anos.
Ela soltou uma risada fraca, ainda entre soluços. E mesmo assim, eu quase sorri de volta.
Quase.
Mas o coração ainda estava acelerado demais pra rir de qualquer coisa.
O calor do corpo dela, molhado, grudado no meu, me deixava desconfortável de um jeito que ia além da razão. Os cabelos ensopados cobriam parte do peito dela, mas não cobriam tudo. A cada passo, eu sentia o movimento leve e natural do corpo jovem contra o meu. Os s***s pequenos, parcialmente escondidos, insistiam em tocar meu peito. Um castigo. Um martírio silencioso.
Olhei pro alto, tentando manter a maldita sanidade.
Ela é uma criança, p***a.
Ela é inocente.
Ela confia em mim.
Mas o corpo… aquele maldito corpo não tinha nada de infantil.
Respirei fundo, forçando a mente a voltar para o que importava: ela estava machucada. Era isso. Apenas isso.
Engoli em seco. Foquei em frente. Um pé depois do outro. Inspira. Expira.
Chegamos de volta à casa, e fui direto para o meu quarto, onde tenho um kit de primeiros socorros completo. A deitei com cuidado sobre a minha cama.
Ela me olhava com olhos atentos, tentando decifrar cada movimento meu. Peguei uma toalha e joguei por cima do corpo dela, tapando o que os cabelos não cobriam.
— Agora não é hora de exibir nada, garota. Fica quieta. Murmurei, tentando disfarçar o desconforto.
Envergonhada, apenas assentiu com a cabeça, ainda chorosa.
Examinei o tornozelo inchado com cuidado. Fiz alguns testes de mobilidade, provocando leves reações de dor. — Não é fratura. É uma torção leve. Provavelmente pisou em falso na pedra molhada.
Peguei uma faixa e comecei a imobilizar com precisão. Meus dedos tocaram a pele fina e quente. Cada movimento era técnico, mas a proximidade… essa era pessoal demais. — Vai precisar descansar. Uns dias sem colocar peso no pé e muito menos no chão. E vai tomar um anti-inflamatório agora. Vai aliviar a dor e o inchaço.
Ela me observava em silêncio, o rosto ainda manchado pelas lágrimas.
— Obrigada! Murmurou, quando terminei de ajeitar a faixa.
— Não me agradece. Retruquei, levantando. — Você só me dá trabalho. Nem devia ter ido lá sozinha.
Ela baixou os olhos, constrangida.
E por um instante… eu quis me aproximar. Dizer que ela me assustou. Que me desarmou. Que se algo tivesse acontecido, eu… Mas calei. — Descansa, Samanta. E não me dá mais sustos hoje. Um por dia já me tira anos de vida.
Me afastei, mas a imagem dela, deitada ali, vulnerável, com aquele olhar doce e desconfiado ao mesmo tempo… ficou presa em mim como um espinho cravado no peito.
Desci para pegar a água, retornei e entrei no closet para pegar o remédio, quando a porta se abriu devagar.
Cacilda — Maike… Ela apareceu com o rosto curioso, os olhos indo direto para a cama. — A Samanta não vai para o quarto dela?
Suspirei, levantando com o copo d’água e o comprimido na mão.
— Não. Vai ficar aqui por enquanto.
Ela arqueou as sobrancelhas, esperando por mais. — Está com certa idade já, né, Cacilda? Não vai dar conta de cuidar dela sozinha. É melhor ela ficar onde eu possa supervisionar. Falei, tentando soar convincente.
Cacilda apertou os lábios para conter o riso. Não conseguiu totalmente. Eu percebi. E odiei ter percebido. — Que foi? Perguntei, estreitando os olhos.
Cacilda — Nada, filho... nada. Ela respondeu com um risinho quase silencioso.
Bufei.
— Vou colocá-la no banheiro. Ajuda ela a tomar banho. Quando terminar, me chame. Cuidado, não pode molhar o pé machucado.
Cacilda — Sim, senhor.
Sem esperar qualquer comentário, peguei Samanta no colo de novo e a levei até o banheiro da suíte. Não disse nada. Ela também não. Mas o silêncio dela me queimava mais do que qualquer provocação.
Assim que a coloquei sentada no banco do box e me certifiquei de que não ia cair, me virei para sair.
— Cacilda! Chamei pela porta. — Agora é com você.
E saí às pressas, antes que a velha língua solta resolvesse abrir a boca.
Ou antes que eu mesmo dissesse o que não devia.
Porque se ficasse ali por mais cinco minutos...
Ia acabar confessando que o problema não era a idade da Cacilda.
Era eu.
Era ela.
Era tudo.
E eu não estava pronto pra lidar com isso. Ainda não.
[...]
Samanta:
Desde que o Maike me pegou no colo na beira daquele rio, meu coração num parô mais de bater forte. Ele foi um grosso, um m*l-educado, mas também foi… foi como um príncipe dos contos de fada que dona Cotinha contava pra mim. Me carregou nos braço, cuidou do meu pé com carinho. Me senti tão… importante.
Ele se preocupou comigo, de verdade. De repente, me deu uma dor na cabeça e umas imagens borradas apareceram.
" Precisa olhar por onde anda, garotinha. Onde está o seu irmão?"
"Desculpa, não tive a intenção de machucar..."
Ele sorriu e se agachou na minha frente.
" Não, eu quem peço desculpas. Eu quase machuquei você..."
Levei a mão à cabeça, sentindo uma dor forte.
"Irmão… me salva..."
Cacilda — Samanta? A voz dela me puxou de volta. — O que você tem, menina? Samanta? O que há de errado?
Comecei a chorar desesperada. Às vezes ouço essas vozes, mas não sei quem é. Apertei os braços ao redor dela, me encolhi e chorei mais. — Calma, Samanta. O Maike fez alguma coisa com você?
— Num... tô só emocionada. Ninguém nunca cuidou de mim assim... igual você, o tio Dolfo… e agora o Maike… Mesmo ele sendo um bobão mimado e grosso...
Ela riu baixinho.
Cacilda — Ai, menina. Você me deu um baita susto. Já estava me preparando para dar uma surra no Maike. Mas ele estava preocupado. Saiu feito um doido a sua procura
— Sério? Ele me deu uma baita bronca... Disse que eu quase fiz ele sofrer um... um vac, vac... não, espera... acho que foi cav, cva… ah, sei lá… um troço desses aí...
Ela gargalhou, negando com a cabeça.
Cacilda — AVC, menina. E vê se não some mais, que até eu fiquei preocupada. Agora vamo terminar, para você almoçar.
Balancei a cabeça, tentei mexer as pernas, mas parei rapidinho. Lembrei do que ele disse... Será que Mike teria coragem mesmo de me deixar no mato sozinha?
Quando terminamos, Cacilda foi chamar ele. Tapei a boca com a mão. Ai, meu Deus... eu ia chamar ele de “Mike”. Num posso fazer isso...
Logo ele entrou no banheiro, me pegou no colo de novo. O cheiro dele é tão bão... Dá um negócio por dentro, que nem sei...
Me colocou na cama com cuidado, me olhou nos olhos e perguntou:
— Desde a cachoeira você está calada. O que houve? Está sentindo mais alguma coisa? Se machucou em outro lugar?
Meus olhos encheram d’água.
— Num... é que... nunca fui cuidada com tanto amor assim. E mesmo você sendo um grosso... tá cuidando bem de mim.
Ele me olhou sério por alguns segundos e sentou na beira da cama.
— Desculpa por ter gritado com você. É que você realmente consegue me deixar irritado.
— Você tava me bisbilhotando tomar banho no rio?
Ele levantou na hora, passou a mão nos cabelo e bufou:
— Viu? Você me tira do sério. Eu não estava bisbilhotando. Fui procurar por você. A Cacilda tava preocupada e… se acontece alguma coisa com você, meu pai me mata.
Ele pegou a bandeja e colocou no meu colo.
Eu ri. Fofinho!
Ele bufou de novo, virou as costas e saiu do quarto.
Mentiroso...