CAPÍTULO DEZ.
Selene Moreau
Cheguei com uma dor de cabeça terrível.
O i****a do Zade veio para cá e quase arrombou a porta do meu quarto.
Ele é um bruto, se ainda não deu para notar.
E nojento também.
Tempo passou, e eu fiquei só aqui, pareceu mais seguro para os meus neurônios não explodirem.
A Kaiane insistiu de descermos até a festa na discoteca do resort, e fim ao cabo, um pouco de whiskey não vai fazer m*l.
Assim, será mais suportável aturar o i****a do Zade.
— Selene? — a Kaiane me chama, entrando no quarto.
Tinha saído.
— Oi? — respondo, terminando de colocar os saltos.
— O senhor Castellano aparentemente tomou uma decisão, ele pediu para você subir — ela diz, e eu franzo o cenho.
— Agora? Ele pareceu muito confuso quando saímos — comento.
— Você o deu um ultimato, devia ficar feliz — ela diz, enquanto eu me levanto.
— O que me faria feliz, era sumir daqui — respondo, caminhando até a porta.
— Vamos! — ela diz, vindo atrás.
— Para onde você tinha ido? — pergunto, enquanto entramos no elevador.
— A assistente do Castellano... — afino o meu olhar na sua direção. — O quê, Selene? — pergunta.
— Você saiu para se encontrar com alguém, não precisa mentir para mim, eu conheço você — falo, vendo ela suar frio.
— Eu estou falando a verdade — claro que está.
— Humn... — respondo a observando. — O Zade já está lá? — pergunto.
— Deve estar, ele só veio para isso — se for assim, eu ficarei mais feliz.
Mas com tantas festas nessa cidade, ele tinha que vir justamente para o lugar que eu fiz de tudo para vir, só para escapar daquele terror.
Mas um dos monstros me seguiu até aqui...
Na verdade, tem dois aqui.
O som de chegada soa, e as portas metálicas se abrem.
Está escuro aqui.
Isso é hora?
Ou ele tem tanto medo assim do Laurent, para querer assinar esse documento de madrugada?
— Selene, vá entrando... Eu esqueci o documento no quarto — a Kaiane diz, atrás de mim.
— Tudo bem... — respondo, ouvindo-a sair e simplesmente abro a porta para terminar com isso logo.
No passo que dei para dentro dessa maldita sala, os meus olhos pousam no homem mais canalha na face da terra, e o mais ridículo é que ele parece surpreso também.
— Ah, não... — ela não fez isso comigo.
Me viro para abrir a porta e sair, mas a porta simplesmente não abre mais.
— Kaiane! — caramba!
Que coisa...
Me viro sem muita opção, e o encontro sentado na poltrona, de forma ridiculamente atraente...
Indiferente, e como se achasse isso uma completa parvoíce... E é, mas não é ele quem precisa de paciência e sim eu.
— Não tinha melhor maneira para tentar falar comigo? — pergunto, irritada.
E ele nem sequer olha para mim, e por mais que eu deteste admitir, a frieza dele é cortante.
Ele pega no celular e eu o observo ligar para o Apollo, que obviamente não atende.
Boa...
— Ligue para a sua amiga e diga para ela acabar com essa infantilidade — ele diz, e eu franzo o meu cenho, o encarando.
— Se a minha amiga é infantil, o seu seria o quê? — eu concordo, isso é uma infantilidade. Mas quem ele acha que é?
O oásis no deserto?
— Quer ou não sair daqui? — ele questiona, e ele soa intimidante.
— Eu estou sem o meu celular — falo, descendo dos saltos, e já colocando o meu pé para funcionar.
Eu não quero ficar aqui.
— Vai ficar sentado, ou vai me ajudar? — pergunto.
— Essa é uma porta blindada, o máximo que vai conseguir é quebrar o pé — eu coro, com a forma tão didática que ele fala, pousando o meu pé no chão.
Eu preciso dele amanhã.
Seguro a erupção de emoções dentro de mim, e me viro, indo me sentar do lado oposto ao dele.
A vontade que eu tenho de gritar é intensa, de chorar, questionar, estrangular me consome, mas eu não pretendo ficar e nem exibir as minhas pobres e voláteis emoções para um canalha, que não se importa.
Nunca se importou.
Meu olhar sobe até ao seu que olha para o meu dedo, com o maldito anel de noivado.
— Belo anel — ele diz, e a minha mandíbula enrijece, enquanto eu o encaro.
Encaro a sua indiferença.
Quem é ele?
Eu me mantenho calada, porque eu tenho certeza que eu irei me perder se eu ousar abrir a minha boca.
Alcanço o remote do ar condicionado e baixo a temperatura.
Espero que ela não demore com essa brincadeira de mau gosto.
Por que ela faria uma coisa dessas?
O silêncio aqui, é cortante, ensurdecedor.
Infelizmente, eu tenho quase certeza que ele está escutando os meus batimentos cardíacos.
— O seu noivado foi rápido, não? — pergunto, sem conseguir segurar a minha língua, e ele pousa o seu olhar em mim, por segundos.
Seu maxilar está cerrado, e eu tenho a sensação que se ele me odeia.
— O seu também não — ele finalmente responde, e a sua resposta me faz sorrir.
— Não é como se você não soubesse que eu não tinha outra escolha — falo, e ele sorri, me irritando.
— O que é tão divertido? — pergunto. — O facto de você ter me feito pensar que ia evitar isso? — questiono, exibindo o anel na sua direção, dolorida.
— Por quanto mais tempo você pretende atuar? — ele pergunta, me encarando, gélido.
— O único que atuou e muito bem, foi você, Laurent — falo, partida. — É divertido ver a minha vida arruinada? — ele me corta.
— A sua vida não pareceu nada arruinada quando você estava me traindo com quem você está noiva agora, Selene — hamn?
— Quê?! — o meu coração literalmente despencou da sua posição original.
— Quê? — ele pergunta sarcástico. — Quer que eu detalhe o que vi no lugar em que você pediu para te encontrar, ou prefere a pendrive com o vídeo que recebi depois? — a minha visão fica turva ao me levantar, mas volta ao normal logo depois.
E eu o encaro atordoada, enojada, tremendo, desacreditada.
— O que você está dizendo? — questiono, embasbacada, e ele somente me observa.
— O QUE VOCÊ ESTÁ DIZENDO? — eu perco a cabeça.
— Pare com isso, Selene — ele fala, e eu me sinto ainda mais traída do que me sentia antes.
— Eu nunca, nunca traí você! — deixo isso claro, endoidecida. — Você ficou louco? — pergunto.
— Eu vi você, Selene, na casa daquele desgraçado, no quarto dele, casa essa que você mesma me escreveu para ir, pois tinha provas contra ele e a família dele — ele fala, irritado, e eu só consigo abanar a cabeça, a qualquer momento ela vai explodir.
Os meus pés descalços no chão gelado, a minha mente rodopiando, e lágrimas vertendo do meu olhar.
— Eu nunca escrevi para você chegar nem perto da minha família, Laurent! — exclamo. — Nem eu alguma vez pisei na casa daquele desgraçado desde que voltei para cá — falo, inconformada, e ele me observa.
E eu consigo ver algo a mais que frieza e raiva no seu olhar.
— Eu recebi uma mensagem sua, Selene, era a maneira que você escreve, e depois de você ter conseguido o seu celular de volta — ele diz, e eu abano a cabeça negativamente.
Eu não acredito nisso.
As minhas mãos tomam o meu rosto, incrédula.
— Você por acaso me conhecia tão pouco assim? — pergunto, ofendida.
— Eu fugi no meio da noite para ir ter com você em outro país, com medo de que ferissem você, e você simplesmente acreditou numa estúpida mensagem, aparentemente, escrita por mim, mandando você justamente para perto de quem eu queria proteger você e fugir? — pergunto, inconformada.
A minha barriga está revirando.
Eu não estou me sentindo bem.
— E você sabia que eu estava e ficaria trancada na porcaria daquela casa, porque o meu pai não ia me deixar sair até a data do noivado! — exclamo, com o meu rosto queimando e ele olha para o teto. — Era por isso que era suposto você ter feito o que prometeu. Invadir aquele maldito noivado e me tirar dali — falo, e ele abana a cabeça negativamente, também em pé.
— Eu vi você, Selene... — ele repete, e isso está me irritando mais ainda.
— Por acaso você viu o meu rosto? — pergunto, e o seu olhar me dá a única resposta que ele mesmo precisava.
— ... — seu suspiro é fundo, e o vejo levantar a sua cabeça, com os seus olhos fechados vejo ele passar as suas belas mãos, pelos seus cabelos pretos.
Argh!
Eu não acredito que eles fizeram isso...
— Traidora... — rio, sem graça. Limpando o meu rosto, sem conseguir ficar parada num lugar só.
Eu estou a própria erupção vulcânica.
— Eu nunca fiquei com absolutamente ninguém, e chega a ser um insulto você pensar que eu... — eu estou enojada.
A minha pressão caiu, eu estou tonta, a minha visão sai de nítida com muita frequência.
— Selene... — a minha pele aquece, quando eu sinto a sua mão tocar em mim, seu tom não foi tão frio, e sim preocupado.
E o meu instinto foi simplesmente girar a mão no rosto dele.
Ofendida, confusa, com um monte de coisa circulando na minha mente.
— Você é um i****a! — exclamo, olhando para ele.
— Eu recebi uma mensagem do seu celular, Selene, num cenário como o que eu vi, o que achou que eu ia pensar? — pergunta, frustrado.
— Não sei, mas duvidar da minha dignidade era tudo o que eu menos esperava de você, Laurent — falo, furiosa.
— A pessoa com histórico de mulherengo aqui é você, e não eu — digo, e ele olha para o teto, suspirando fundo, e andando para longe de mim. — E aparentemente, você continuou com a sua lista de mulheres bem rápido, para quem prometeu fugir comigo — falo, expelindo a minha dor.
Seus olhos veem na minha direção, e por mais raiva e ódio que eu sinta, o meu corpo estremece.
— Isso foi um tratado de família — ele diz, e eu sorrio.
— As nossas famílias têm costumes similares, e na primeira oportunidade que teve, você simplesmente preferiu acreditar numa clara armadilha, e noivar com o tratado da sua família... — falo, limpando o meu rosto.
— E eu achava que eu importava para você — o quanto eu chorei.
Eu chorei igual uma criança.
— Mas eu não era tão importante assim para o Laurent Duvall, ele tem uma filha de mulheres o esperando, ele não as perderia por minha causa... — falo.
— Não coloque palavras na minha boca, Selene — ele diz, e eu dou de ombros.
— Foi isso que eu entendi quando nem a porcaria de um celular você atendeu, nem sequer para me insultar, Laurent — eu falo, olhando nos olhos dele, e eu não sei dizer se é arrependimento, ou simplesmente, desiludido por ter sido tão facilmente enganado.
Ele detesta ser enganado, perder, faz parte da personalidade avassaladora dele.
— Fui tão descartável para você quanto qualquer outra, e a culpa foi minha por achar que eu era diferente para você... — falo, irritada.
— Selene... — o quanto eu queria escutar a voz dele chamar o meu nome me deixava louca.
— Tudo por causa de uma armadilha que podia ter sido resolvida se você me ligasse... — eu balbucio, indignada, caminhando até a porta.
— Selene, eu estou falando com você... — ele diz, vindo até mim, enquanto eu forço a fechadura da porta, e oh, eu não estou mais vendo praticamente nada.
— Nós... — as minhas pernas estão fracas. — Não temos mais nada para falar... — o peso do meu próprio corpo se tornou insustentável e a visão escureceu completamente.