Pré-visualização gratuita o primeiro impacto
Eu não estava procurando nada.
E talvez por isso tudo tenha acontecido.
Foi um segundo de distração. Um passo m*l calculado. Um choque leve demais para ser chamado de acidente, forte demais para ser ignorado. Ombro com ombro. Corpo com corpo. O som seco dos livros batendo no chão ecoou mais alto do que qualquer pedido de desculpa.
— Desculpa — eu disse no mesmo instante, me abaixando.
Ela também se abaixou. Nossas mãos alcançaram o mesmo livro ao mesmo tempo. Os dedos se tocaram por engano — e ali, de novo, o mundo pareceu errar o ritmo.
— Foi culpa minha — ela falou, a voz baixa, quase constrangida.
— Não — respondi. — Eu que não estava olhando.
Mentira.
Eu estava olhando para tudo, só não para o que importava.
Recolhi alguns livros e entreguei a ela. Capa simples, páginas gastas, anotações à margem. Ela segurou contra o peito como quem protege algo importante demais para cair outra vez.
— Obrigada.
Foi só isso. Nenhum sorriso exagerado. Nenhuma frase ensaiada. Mas quando ela levantou o olhar para mim… eu soube. Não soube explicar. Só soube.
— Nada — respondi, rápido demais.
Ela ajeitou os livros, deu um passo para trás, como quem decide seguir em frente antes que o momento se alongue além do necessário.
— Boa tarde — disse.
— Boa tarde.
E foi assim.
Sem nomes.
Sem promessas.
Sem história — ainda.
Ela se afastou, misturando-se às pessoas, ao barulho, à pressa do dia. Eu fiquei parado por um segundo a mais do que deveria, com a sensação incômoda de que algo tinha acabado de começar… mesmo sem ter sido combinado.
Não foi o tom da voz.
Não foi a queda dos livros.
Foi o olhar.
Porque alguns encontros não fazem barulho.
Eles só deixam marcas.
E eu ainda não sabia, mas aquele instante simples carregava o peso de tudo o que viria depois.
O que ficou
Eu segui andando.
Ou pelo menos tentei.
Os passos continuaram no mesmo ritmo, o caminho era o de sempre, o dia seguia comum demais para justificar aquela sensação estranha no peito. Ainda assim, algo estava fora do lugar. Como quando você sai de casa e tem certeza de que esqueceu alguma coisa — mesmo sem saber exatamente o quê.
O rosto dela insistia em voltar. Não como uma imagem nítida, mas como um fragmento. O jeito de segurar os livros. A pausa antes de falar. O olhar rápido demais, profundo demais, para um encontro tão banal.
Ridículo, pensei.
Foi só um esbarrão.
Mas eu sabia que não era só isso. Se fosse, já teria passado.
Tentei me concentrar em qualquer outra coisa. No barulho da rua, nas mensagens no celular, no compromisso que me esperava. Nada funcionou. O silêncio dela era mais alto do que tudo. O olhar, mais presente do que qualquer distração.
O que me incomodava não era o desejo. Não era curiosidade. Era reconhecimento. Aquela sensação desconfortável de ter sido visto sem ter escolhido mostrar nada.
Ela não sabia meu nome.
Eu não sabia o dela.
Mesmo assim, havia algo íntimo demais naquele instante breve.
Parei por um momento, respirando fundo, como se isso pudesse organizar o caos dentro de mim. Não podia. Porque certas coisas não pedem explicação — apenas se instalam.
Segui em frente, finalmente. Mas agora com a certeza incômoda de que alguns encontros não acabam quando as pessoas se afastam. Eles continuam acontecendo por dentro, em silêncio, repetindo-se como uma pergunta sem resposta.
Eu não sabia quando a veria de novo.
Nem se veria.
Só sabia de uma coisa: aquele olhar tinha ficado comigo.
E, de algum jeito estranho, eu tinha a sensação de que ele ainda voltaria para cobrar presença.