algo em comum

1374 Palavras
Não foi no dia seguinte. Nem na mesma semana. Foram pequenos focos, espalhados no tempo. Como se a vida estivesse testando até onde aquela imagem ficaria comigo. Primeiro, vi de longe. Ela atravessava a rua com a mesma pressa contida, os livros agora substituídos por uma pasta fina. Não me viu. Ou fingiu não ver. Eu continuei parado, observando o jeito firme de andar, como quem sempre sabe para onde vai — mesmo quando carrega dúvidas por dentro. Depois, foi no ônibus. Duas semanas mais tarde. Ela sentou algumas fileiras à frente, fones no ouvido, olhar fixo na janela. Eu reconheceria aquele perfil em qualquer lugar. Não falei. Não me movi. Aquilo ainda não era um reencontro. Era só… confirmação. Comecei a reparar nos detalhes. Horários parecidos. Locais próximos. Uma rotina que se cruzava com a minha mais do que o acaso explicava. Não era perseguição. Era atenção. Daquelas que surgem quando algo dentro de você acorda. Na terceira semana, aconteceu. Ela estava sentada em uma cafeteria pequena, quase escondida entre prédios antigos. Livros espalhados pela mesa. Caneta entre os dedos. O rosto sério, concentrado. Estudando como quem não pode errar. Eu hesitei. Por segundos demais. Quando me aproximei do balcão, ela levantou os olhos. O reconhecimento foi imediato — curto, silencioso, carregado de memória. — Oi — ela disse primeiro. Simples. Direto. Sem sorriso exagerado. — Oi — respondi. — A gente… já se esbarrou. — Já — ela confirmou. — Dos livros. Assenti. Pedi um café. Ela voltou para os papéis, mas agora a concentração não era a mesma. Nem a minha. — Prova? — perguntei, indicando os livros. Ela respirou fundo antes de responder. — Última fase. Não explicou mais. Nem eu perguntei. Havia coisas que não se puxavam — se esperavam. — Boa sorte — falei. Ela me olhou de novo. Um olhar rápido, avaliador. — Obrigada. Silêncio. O tipo confortável e tenso ao mesmo tempo. — Você também estuda? — ela perguntou, como quem devolve a educação. — Não. — Fiz uma pausa curta. — Trabalho. Ela assentiu, sem curiosidade excessiva. Como se estivesse acostumada a não saber tudo. Ficamos ali mais alguns minutos. Cada um no seu espaço. O café esfriando. O tempo passando diferente. Antes de ir, ela juntou os livros, colocou a pasta debaixo do braço. — Até — disse, levantando. — Até. Ela saiu. Eu fiquei. Naquela tarde, tive certeza de duas coisas: ela estava se preparando para algo grande. e eu já estava envolvido em algo que não planejei. Ainda não trocamos nomes. Ainda não tomamos café juntos. Mas eu já sabia: aquela história estava começando devagar demais para ser segura. semanas depois... Ela foi a primeira a perceber. Eu já estava no balcão quando ouvi a voz atrás de mim, calma demais para ser casual. — Você tá me seguindo? Virei devagar, sem susto. Sem defesa. Sorri do jeito mais honesto que consegui. — Não. Jamais. — apontei com o queixo para o balcão. — Eu costumo vir aqui tomar café da manhã mesmo. Fiz uma pausa curta, antes de devolver a pergunta. — Você também costuma vir aqui? Ela me observou por um segundo a mais do que o necessário, como se estivesse pesando a verdade das minhas palavras. — Eu gosto desse lugar — respondeu, por fim. — Esse lugar me acalma. Algo relaxou em mim. Talvez porque eu entendesse exatamente o que ela queria dizer. — Engraçado — falei. — Me traz a mesma sensação. O silêncio entre nós não foi estranho. Foi… confortável. Denso. Como se ambos soubéssemos que aquela conversa simples carregava algo maior por baixo. — A gente pode tomar um café juntos? — perguntei, sem forçar. — Por minha conta. Ela arqueou levemente a sobrancelha, quase sorrindo. — Tudo bem, né? — disse. — A gente já se esbarrou duas vezes. Acho justo um café. Sorri de verdade dessa vez. Sentamos perto da janela. A luz da manhã entrava suave, refletindo nos olhos dela de um jeito que me fez perder a linha de raciocínio por um instante. Pedi dois cafés. Ela não protestou. — Kevin — me apresentei, depois de um gole. Ela hesitou um segundo. Pequeno, mas perceptível. — Ana. Nome simples. Voz firme. E ainda assim… algo nele parecia carregar histórias que ela não queria contar. — Prova difícil? — perguntei, apontando para a pasta. Ela soltou o ar devagar. — Cansativa. — pensou um pouco. — Tô terminando a prova da polícia. Não demonstrei surpresa. Treino faz isso com a gente. Mas por dentro, tudo se encaixou rápido demais. — Boa escolha — falei. Ela me olhou, curiosa agora. — Como assim? — Eu sou policial. O olhar dela mudou. Não fechou. Não abriu. Avaliou. Sempre atenta. — Então você entende — disse. — Entendo. Tomamos o café com calma. Falamos pouco. Coisas simples. A cidade. O horário puxado. O cansaço que vem antes mesmo da carreira começar. Quando ela se levantou, juntando as coisas, percebi que não queria que aquele momento acabasse — e isso me incomodou mais do que deveria. — Obrigada pelo café, Kevin. — Quando quiser, Ana. Ela sorriu de leve, antes de sair. Fiquei ali, observando a porta se fechar atrás dela, com a certeza crescente de que aquele não tinha sido apenas um café. Tinha sido o primeiro passo de algo que eu ainda não conseguia nomear. E pela primeira vez, não senti vontade de investigar por dever. Senti vontade de conhecer por escolha. O problema é que, quando alguém como Ana guarda silêncio demais… o silêncio costuma esconder muito mais do que parece. Voltei ao trabalho com o gosto do café ainda na boca e o nome dela repetindo na minha cabeça mais vezes do que deveria. Ana. Curto. Firme. Difícil de esquecer. Passei o dia tentando me convencer de que aquilo não era nada. Um encontro casual. Uma conversa educada. Só que o problema de tentar racionalizar sentimentos é que eles não pedem autorização. À noite, peguei o relatório de ocorrências do bairro onde ficava a cafeteria. Rotina. Hábito antigo. Nada que tivesse relação com ela — pelo menos era isso que eu dizia pra mim mesmo. O nome não estava ali. Nenhuma menção. Nenhuma ocorrência direta. Ainda assim, algo me incomodava. Não era desconfiança. Era instinto. O tipo de sensação que a gente aprende a respeitar na polícia, mesmo quando não sabe explicar. Na semana seguinte, voltei à cafeteria no mesmo horário. Ela não estava. Na outra semana, também não. Só na terceira ela apareceu de novo. Mais cansada. Olheiras discretas. O mesmo foco nos papéis. — Achei que tivesse mudado de rotina — falei, quando me aproximei. Ela levantou os olhos e sorriu de leve, como quem reconhece algo familiar. — Provas finais. — fechou a pasta. — Sumir virou sobrevivência. — Posso sentar? Ela assentiu. Dessa vez, ela pediu o café. Por conta própria. Um detalhe pequeno, mas que me disse mais do que palavras. Estava menos na defensiva. Ainda distante — mas presente. — Faltam poucos dias — comentou. — Depois disso… tudo muda. — Muda pra melhor? — perguntei. Ela pensou antes de responder. — Muda pra verdade. A resposta me pegou desprevenido. — Verdade costuma assustar — falei. — Eu sei. Houve uma pausa. O tipo de silêncio que pede uma pergunta — e o tipo de silêncio que ensina quando não fazer uma. — Você sempre quis ser policial? — ela perguntou. — Nem sempre. — sorri de lado. — Mas foi a escolha que fez sentido quando precisei escolher. Ela assentiu, como se entendesse mais do que eu tinha dito. Quando ela foi embora, deixou algo para trás. Um papel dobrado, esquecido sobre a mesa. Não abri de imediato. Esperei. Não por ética — por respeito. Era um cronograma da prova. Datas. Horários. Uma anotação à caneta, quase apagada no canto: “Não errar. Não chamar atenção.” Dobrei o papel e devolvi à mesa, como se aquilo não tivesse passado pelas minhas mãos. Mas passou. E, pela primeira vez, percebi que o mistério de Ana não estava no que ela dizia — estava no cuidado excessivo em não ser notada. E pessoas assim… geralmente não estão fugindo do futuro. Estão tentando manter o passado enterrado.
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