linha tênue

979 Palavras
Não foi um momento específico. Foi o acúmulo. O jeito como eu chegava à cafeteria sem perceber que estava indo cedo demais. A expectativa silenciosa que surgia antes mesmo de olhar para dentro. A pequena frustração quando a mesa perto da janela estava vazia. Comecei a me perguntar coisas que não fazia sentido perguntar. Se ela tinha dormido bem. Se comia direito. Se o peso daquela prova era só profissional ou carregava algo mais profundo. Isso não era curiosidade policial. Eu sabia a diferença. Era cuidado. E cuidado é um território perigoso quando não foi pedido. Passei a reparar nela mesmo quando não estava presente. Em pessoas com postura parecida. Em vozes que lembravam a dela. Em silêncios que ecoavam demais. Quando Ana chegou atrasada naquela manhã, senti alívio antes mesmo de perceber. — Dia longo? — perguntei, oferecendo o café que já tinha pedido. Ela sorriu, cansada. — Semana longa. Sentou-se. Encostou a pasta na cadeira ao lado. Pela primeira vez, tirou os fones e não os colocou de volta. — Você fica muito aqui — comentou, distraída. — Culpa do café — respondi. — Ou do horário. Ela não insistiu. Mas o olhar demorou um segundo a mais em mim. E aquilo… aquilo mexeu comigo mais do que deveria. No trabalho, comecei a errar o tempo. Pequenos lapsos. Nada grave. Mas suficiente para me incomodar. Eu, que sempre mantive a vida organizada em compartimentos claros, estava deixando tudo se misturar. Uma noite, pensei em ligar. Parei antes. Eu nem tinha o número dela. Sorri sozinho com isso. Ridículo. Um homem adulto, policial, preso a um silêncio que nem era dele. Quando ela passou dois dias sem aparecer, senti algo próximo de medo. Não pânico. Algo mais contido. Aquela sensação estranha de perder algo que nunca foi seu. No terceiro dia, ela veio. Sentou. Respirou fundo. Não abriu os livros. — Acho que terminei — disse. — A prova? — A fase mais difícil. Olhei para ela, tentando medir o que aquela frase realmente significava. — E agora? Ela me encarou. Direto. Sem defesa. — Agora eu descanso. Sorri. — Você merece. Ela retribuiu o sorriso, breve. Sincero. Naquele instante, percebi a verdade que vinha evitando desde o primeiro esbarrão: eu já estava envolvido. Não pelo mistério. Não pela curiosidade. Mas pela pessoa por trás do silêncio. E isso me colocava em um lugar vulnerável demais para alguém que passou a vida acreditando que controle era sinônimo de segurança. Porque quando você começa a se importar… você também começa a temer. E eu ainda não sabia exatamente o que Ana escondia. Mas já sabia que, se aquilo viesse à tona, não me deixaria ileso. Foi Ana quem mudou primeiro. Nada explícito. Nada dramático. Só pequenos ajustes que alguém distraído não notaria — mas eu notei. Sempre notei. Ela passou a chegar em horários diferentes. Às vezes mais cedo, às vezes tarde demais. O café já não era sempre o mesmo. O lugar perto da janela, antes automático, agora parecia uma escolha calculada… ou evitada. — Você anda sumida — comentei numa manhã. Ela segurou a xícara com as duas mãos antes de responder. — Ando tentando organizar as coisas. — A prova acabou. — Nem tudo acaba quando termina — disse, sem olhar para mim. Ali estava. A muralha. De novo. Eu quis perguntar mais. Quis atravessar aquela frase curta e puxar tudo o que ela escondia atrás dela. Não fiz. Porque envolvimento demais também assusta — e eu não queria ser mais um motivo para ela se fechar. — Se precisar de ajuda… — comecei. Ela ergueu o olhar rápido. — Eu sei. Não disse que aceitaria. Nem que recusaria. Fiquei observando enquanto ela mexia o café distraída, como se algo dentro dela estivesse em alerta constante. Aquilo me atingiu em cheio. Pessoas em paz não vivem assim. Naquela tarde, no trabalho, um colega comentou sobre os candidatos da última prova. Nada específico. Só números. Estatísticas. Mesmo assim, meu estômago apertou. Eu estava misturando mundos. E isso nunca acaba bem. Passei a lutar contra o impulso de protegê-la de coisas que ela nunca pediu para ser protegida. Contra a vontade de estar por perto demais. Contra o pensamento recorrente de “se algo acontecer com ela…”. Uma noite, sonhei com o som de livros caindo no chão. Acordei antes de ver o rosto dela. No dia seguinte, ela não apareceu. Nem no outro. No terceiro, quando já estava convencido de que tinha ultrapassado algum limite invisível, ouvi a voz dela atrás de mim no balcão. — Kevin. Virei rápido demais. Ela parecia diferente. Cabelo preso. Rosto sério. Menos defesa… e mais decisão. — A gente pode conversar? — perguntou. Meu coração errou o ritmo. — Claro. Sentamos. Ela não pediu café. — Você é um cara gentil — disse, direta. — E isso não é comum. — Não sei se isso é um elogio ou um aviso. Ela quase sorriu. — Os dois. Respirei fundo, escolhendo as palavras com cuidado. — Eu não quero te pressionar, Ana. Nem invadir nada que você não queira mostrar. Ela me olhou por um longo segundo. Longo demais. — Eu percebi. Silêncio. — Só… — ela continuou — às vezes eu preciso manter distância pra não perder o controle. Aquilo doeu mais do que eu esperava. — De mim? — perguntei, sem acusação. — De tudo. Assenti. Porque, pela primeira vez, entendi: o mistério dela não era jogo. Era sobrevivência. Quando ela se levantou, tocou meu braço de leve. Um gesto mínimo. Carregado de significado. — Obrigada por respeitar. Ela saiu antes que eu pudesse responder. Fiquei ali, com a certeza amarga de que me envolver emocionalmente tinha um preço — e que eu estava disposto a pagá-lo, mesmo sem saber qual seria a conta final. Porque o problema nunca foi me apaixonar. O problema sempre foi por quem.
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