pelo menos vou dormi

1141 Palavras
O caminho até o apartamento dela foi silencioso demais. Ana olhava pela janela como se cada carro fosse uma ameaça em potencial. Eu mantinha atenção em tudo — espelhos, semáforos, pessoas paradas tempo demais. Não falei nada. Às vezes, segurança também é silêncio. — É ali — ela disse, apontando para o prédio. Estacionei um pouco mais à frente. — Não vou parar na frente da entrada — expliquei. — Menos previsível. Ela assentiu. Não questionou. Aquilo confirmou que o medo já tinha virado rotina. Subimos rápido. Dentro do apartamento, Ana se apoiou na porta por um segundo, respirando fundo, como se aquele lugar já não fosse mais dela. — Eu não trouxe muita coisa quando me mudei — disse, tentando soar casual. — Então vai ser rápido. Mas não foi. Ela abriu o guarda-roupa e ficou parada. Olhando. Não para as roupas — para o passado que estava ali. Cada peça parecia carregar uma decisão difícil. Cada objeto, uma fuga. — Leva só o essencial — falei, com cuidado. — O resto a gente resolve depois. Ela me olhou. — “A gente”? Percebi tarde demais. — Se você quiser — corrigi. — Eu não tô assumindo nada que você não peça. Ela soltou um meio sorriso cansado. — Não… — disse baixo. — Eu gosto de “a gente”. Só ainda tô aprendendo a confiar nisso. Enquanto ela colocava roupas em uma mala, fui até a cozinha pegar caixas. Foi ali que vi. Na geladeira, preso com ímã, havia um papel dobrado. Um número de telefone. Sem nome. E uma frase escrita à mão: Último aviso. Meu estômago afundou. — Ana… — chamei, segurando o papel. Ela congelou. Virou devagar. O rosto perdeu a cor. — Você não devia ter visto isso — sussurrou. — Há quanto tempo isso tá aqui? Ela fechou os olhos. — Duas semanas. Duas semanas. E ela sozinha. Passei a mão pelo cabelo, tentando conter a raiva — não dela, de tudo. — Isso não é só ameaça — falei. — Isso é perseguição. — Eu sei — respondeu. — Por isso eu fugi antes. E por isso eu não queria te envolver. — Você não escolheu isso — falei, firme. — Mas agora não dá mais pra fingir que é pouco. Ela sentou no sofá, de repente exausta. — Meus pais… — começou, e parou. A voz falhou. — Eles me venderam, Kevin. O mundo parou por um segundo. — Pra pagar uma dívida — continuou, com os olhos fixos no chão. — Eu fugi antes que… — engoliu em seco. — Antes que fosse tarde. Meu peito apertou de um jeito que eu nunca tinha sentido. — O homem não desistiu — ela disse. — E agora ele sabe que eu tô aqui. Sentei ao lado dela, com cuidado. — Você devia ter contado — falei, não como cobrança, mas como lamento. — Eu tive medo — respondeu. — De você me olhar diferente. De achar que eu era problema demais. Olhei para ela. — Ana, o único problema aqui é alguém achar que pode possuir outra pessoa. Ela levantou o olhar. Os olhos cheios, mas firmes. — Você ainda quer ajudar? — Eu já tô ajudando — respondi. — E agora, mais do que nunca, você não vai fazer isso sozinha. Um barulho no corredor nos fez ficar atentos. Passos. Ana segurou meu braço, instintivamente. Eu me levantei devagar, o corpo em alerta. — Calma — sussurrei. — Provavelmente é só um vizinho. Mas no fundo, eu sabia. O tempo de fugir sozinha tinha acabado. E o jogo tinha mudado. O apartamento novo era pequeno, discreto demais para chamar atenção — exatamente como precisava ser. Prédio antigo, corredor estreito, poucas luzes. Nada de placas, nada de porteiro curioso. Seguro o suficiente por agora. Ela entrou devagar, como se estivesse testando o chão. — É… — murmurou. — Aqui parece… quieto. — Quieto é bom — respondi, largando a mala perto do sofá. — Quieto costuma manter as pessoas vivas. Ela soltou um ar meio trêmulo que parecia riso e cansaço ao mesmo tempo. Andou até a janela, espiou a rua, depois fechou a cortina rápido demais. Foi ali que ela falou, sem me olhar: — Kevin… você pode ficar aqui essa noite? Não soou como convite. Soou como pedido. Ela se virou então, finalmente. — A gente ficou esse tempo sem se falar… eu sei. Mas as ameaças pioraram. — a voz falhou. — Tem seis dias que eu tô virada. Eu não durmo de verdade. Só cochilo… uma, duas horas no máximo. Meu peito apertou. Seis dias. E eu achando que o silêncio tinha sido o pior erro. Aproximei devagar, sem tocar ainda. — Ana… — falei baixo. — Você não precisava justificar isso. Os olhos dela estavam fundos, cansados de um jeito que não se resolve com café. — Eu não tô pedindo como policial — continuou. — Nem como alguém que… — ela hesitou — que eu não sei se ainda é alguma coisa pra você. Eu tô pedindo como alguém que tá exausta. E com medo. Cheguei mais perto. Toquei o rosto dela com cuidado, como se ela pudesse se desfazer ali mesmo. — Eu fico — disse. Simples. Firme. — Não por obrigação. Fico porque você precisa. E porque eu quero. Ela fechou os olhos na hora. O corpo cedeu um pouco, como se aquela resposta tivesse desligado um alarme interno. — Obrigada… — sussurrou. — Eu só preciso dormir sem acordar achando que alguém vai bater na porta. Passei os braços ao redor dela. Não apertado. Presente. — Hoje ninguém bate — prometi. — E se bater, vai ter que passar por mim. Ela respirou fundo, a testa encostada no meu peito. — Eu não queria que você visse esse lado da minha vida — disse, quase envergonhada. — Eu queria ter visto antes — respondi. — Pra não ter te deixado sozinha. Levei ela até o quarto. Arrumei a cama rápido, deixei a luz do abajur acesa, a porta entreaberta. — Você deita — falei. — Eu fico no sofá. Qualquer coisa, você chama. Ela segurou minha mão antes que eu me afastasse. — Fica aqui… pelo menos até eu pegar no sono? Assenti. Sentei na beirada da cama. Ela se deitou de lado, ainda segurando meus dedos, como se soltar fosse perigoso. Em poucos minutos, a respiração dela começou a ficar mais lenta. O corpo relaxou de um jeito que denunciava o quanto estava cansada. Eu fiquei ali. Em silêncio. Vigiando o sono que ela não tinha há dias. E enquanto observava Ana finalmente dormir de verdade, eu entendi algo que mudou tudo: Proteger alguém não é só enfrentar ameaças externas. Às vezes, é simplesmente garantir que ela consiga fechar os olhos… sem medo. E eu não sairia dali.
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