Eu a vi antes que ela me visse.
Ana estava parada no saguão, rígida demais para alguém que só tinha vindo resolver burocracia. Os ombros tensos, o olhar perdido, as mãos tremendo levemente enquanto segurava o celular.
Algo estava errado. Muito errado.
— Ei… — chamei, aproximando devagar. — Fala comigo.
Ela ergueu o olhar. Os olhos encontraram os meus por um segundo… e então desabaram.
Não em lágrimas. Em silêncio.
Ela deu um passo na minha direção, como quem já não aguenta mais segurar.
— Só me abraça, Kevin.
Nada mais. Nenhuma explicação. Nenhum pedido além disso.
E, pela primeira vez, eu não perguntei nada.
A envolvi nos braços com cuidado, como se ela pudesse quebrar ali mesmo. Senti o corpo dela relaxar aos poucos, como se finalmente tivesse permissão para cair.
Ela enterrou o rosto no meu peito. A respiração veio descompassada, curta. Minhas mãos passaram pelas costas dela, lentas, firmes, presentes.
— Tá tudo bem — murmurei, mesmo sem saber se estava. — Eu tô aqui.
Ela assentiu de leve, ainda agarrada a mim. O cheiro do cabelo dela trouxe uma memória absurda de normalidade, como se aquele gesto simples pudesse afastar tudo de r**m.
Mas eu sentia.
Sentia o medo no corpo dela. A urgência. Algo que ela vinha carregando sozinha por tempo demais.
— Eu sinto muito — falei, baixo. — Por ter me afastado. Por não ter ficado quando você precisou.
Ela apertou os dedos na minha camisa.
— Agora fica — sussurrou.
Aquele pedido foi mais forte do que qualquer explicação poderia ser.
Eu não precisava saber ainda. Não naquele momento. O que ela precisava não era de um policial. Era de alguém que ficasse.
Encostei o queixo no topo da cabeça dela.
— Eu fico — respondi. — Sem pressão. Sem perguntas. Do jeito que você precisar.
Ela respirou fundo, como se aquela promessa tivesse aberto um espaço de ar dentro dela.
E ali, no meio do prédio mais racional que eu conhecia, eu entendi: às vezes, proteger alguém começa antes da verdade.
Começa com um abraço.
Ela se afastou do abraço devagar, mas não muito. Ainda parecia precisar daquele contato para continuar em pé.
— Kevin… — a voz saiu baixa, séria. — Me ajuda a achar um apartamento por aqui. Mais escondido. Eu preciso mudar o mais rápido possível.
Aquilo confirmou tudo o que eu já sentia.
Não era paranoia.
Não era exagero.
Era perigo.
— O que está acontecendo, Ana? — perguntei com cuidado, mantendo o tom calmo. — Não como policial. Como alguém que se importa.
Ela respirou fundo, olhando em volta, como se as paredes pudessem ouvir.
— Eu não posso explicar tudo agora — disse. — Mas eu não estou segura onde estou. E não quero envolver mais ninguém… do que já envolvi.
Meu maxilar se contraiu.
— Você já me envolveu no momento em que pediu ajuda — respondi. — E tá tudo bem. Eu quero estar aqui.
Ela me olhou, hesitante.
— Não é simples.
— Eu sei — falei. — Mas a gente começa pelo que dá pra resolver agora.
Puxei o celular do bolso.
— Conheço alguns corretores que trabalham com contratos mais discretos. Prédios sem porteiro fixo, entradas laterais, garagem fechada. Nada no seu nome, se você preferir.
Ela engoliu em seco.
— Você faria isso?
— Eu já estou fazendo.
Os olhos dela se encheram de algo que não era só medo. Era alívio. Cansaço. Gratidão misturada com culpa.
— Kevin… eu não queria te colocar nisso.
— Você não colocou — falei, firme. — Você pediu ajuda. Existe diferença.
Ela assentiu, passando a mão pelo rosto.
— Eu posso pagar adiantado — disse. — Só preciso sair de lá hoje ou amanhã.
Aquilo acendeu um alerta ainda maior.
— Hoje — repeti. — Então não é só prevenção.
Ela desviou o olhar.
— Por favor… — murmurou. — Não agora.
Eu respeitei.
— Certo. — bloqueei o celular. — Vamos resolver o apartamento primeiro. Depois, quando você estiver segura, a gente conversa. No seu tempo.
Ela soltou o ar devagar, como se estivesse segurando há dias.
— Obrigada por não insistir.
— Eu já aprendi — respondi, com um meio sorriso triste. — Insistir foi o que quase te fez ir embora.
Ela me olhou por um instante longo demais.
— Você pode… — hesitou — me acompanhar até lá hoje? Só pra pegar minhas coisas?
O pedido não foi direto, mas foi claro.
— Claro — respondi sem pensar. — Eu não vou te deixar sozinha.
E naquele momento, enquanto caminhávamos juntos para fora do prédio, eu tive a certeza de uma coisa:
Se alguém estava caçando Ana…
tinha acabado de comprar uma briga comigo.
E eu não era mais apenas o homem apaixonado.
Eu era o homem que ia protegê-la.