so um abraço

803 Palavras
Eu a vi antes que ela me visse. Ana estava parada no saguão, rígida demais para alguém que só tinha vindo resolver burocracia. Os ombros tensos, o olhar perdido, as mãos tremendo levemente enquanto segurava o celular. Algo estava errado. Muito errado. — Ei… — chamei, aproximando devagar. — Fala comigo. Ela ergueu o olhar. Os olhos encontraram os meus por um segundo… e então desabaram. Não em lágrimas. Em silêncio. Ela deu um passo na minha direção, como quem já não aguenta mais segurar. — Só me abraça, Kevin. Nada mais. Nenhuma explicação. Nenhum pedido além disso. E, pela primeira vez, eu não perguntei nada. A envolvi nos braços com cuidado, como se ela pudesse quebrar ali mesmo. Senti o corpo dela relaxar aos poucos, como se finalmente tivesse permissão para cair. Ela enterrou o rosto no meu peito. A respiração veio descompassada, curta. Minhas mãos passaram pelas costas dela, lentas, firmes, presentes. — Tá tudo bem — murmurei, mesmo sem saber se estava. — Eu tô aqui. Ela assentiu de leve, ainda agarrada a mim. O cheiro do cabelo dela trouxe uma memória absurda de normalidade, como se aquele gesto simples pudesse afastar tudo de r**m. Mas eu sentia. Sentia o medo no corpo dela. A urgência. Algo que ela vinha carregando sozinha por tempo demais. — Eu sinto muito — falei, baixo. — Por ter me afastado. Por não ter ficado quando você precisou. Ela apertou os dedos na minha camisa. — Agora fica — sussurrou. Aquele pedido foi mais forte do que qualquer explicação poderia ser. Eu não precisava saber ainda. Não naquele momento. O que ela precisava não era de um policial. Era de alguém que ficasse. Encostei o queixo no topo da cabeça dela. — Eu fico — respondi. — Sem pressão. Sem perguntas. Do jeito que você precisar. Ela respirou fundo, como se aquela promessa tivesse aberto um espaço de ar dentro dela. E ali, no meio do prédio mais racional que eu conhecia, eu entendi: às vezes, proteger alguém começa antes da verdade. Começa com um abraço. Ela se afastou do abraço devagar, mas não muito. Ainda parecia precisar daquele contato para continuar em pé. — Kevin… — a voz saiu baixa, séria. — Me ajuda a achar um apartamento por aqui. Mais escondido. Eu preciso mudar o mais rápido possível. Aquilo confirmou tudo o que eu já sentia. Não era paranoia. Não era exagero. Era perigo. — O que está acontecendo, Ana? — perguntei com cuidado, mantendo o tom calmo. — Não como policial. Como alguém que se importa. Ela respirou fundo, olhando em volta, como se as paredes pudessem ouvir. — Eu não posso explicar tudo agora — disse. — Mas eu não estou segura onde estou. E não quero envolver mais ninguém… do que já envolvi. Meu maxilar se contraiu. — Você já me envolveu no momento em que pediu ajuda — respondi. — E tá tudo bem. Eu quero estar aqui. Ela me olhou, hesitante. — Não é simples. — Eu sei — falei. — Mas a gente começa pelo que dá pra resolver agora. Puxei o celular do bolso. — Conheço alguns corretores que trabalham com contratos mais discretos. Prédios sem porteiro fixo, entradas laterais, garagem fechada. Nada no seu nome, se você preferir. Ela engoliu em seco. — Você faria isso? — Eu já estou fazendo. Os olhos dela se encheram de algo que não era só medo. Era alívio. Cansaço. Gratidão misturada com culpa. — Kevin… eu não queria te colocar nisso. — Você não colocou — falei, firme. — Você pediu ajuda. Existe diferença. Ela assentiu, passando a mão pelo rosto. — Eu posso pagar adiantado — disse. — Só preciso sair de lá hoje ou amanhã. Aquilo acendeu um alerta ainda maior. — Hoje — repeti. — Então não é só prevenção. Ela desviou o olhar. — Por favor… — murmurou. — Não agora. Eu respeitei. — Certo. — bloqueei o celular. — Vamos resolver o apartamento primeiro. Depois, quando você estiver segura, a gente conversa. No seu tempo. Ela soltou o ar devagar, como se estivesse segurando há dias. — Obrigada por não insistir. — Eu já aprendi — respondi, com um meio sorriso triste. — Insistir foi o que quase te fez ir embora. Ela me olhou por um instante longo demais. — Você pode… — hesitou — me acompanhar até lá hoje? Só pra pegar minhas coisas? O pedido não foi direto, mas foi claro. — Claro — respondi sem pensar. — Eu não vou te deixar sozinha. E naquele momento, enquanto caminhávamos juntos para fora do prédio, eu tive a certeza de uma coisa: Se alguém estava caçando Ana… tinha acabado de comprar uma briga comigo. E eu não era mais apenas o homem apaixonado. Eu era o homem que ia protegê-la.
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