oque nao foi dito

876 Palavras
Ela respirou fundo antes de falar. Como quem se prepara para algo que dói, mas precisa sair. — O que foi que você viu no meu celular, Kevin? A pergunta veio calma demais. Isso me desarmou. Engoli em seco. — Uma mensagem — respondi. — Alguém dizendo que precisava de você. E… — dei de ombros, sem orgulho nenhum — eu senti ciúmes, Ana. Me senti descartável. Sei lá. Ela me olhou por alguns segundos, em silêncio. Não era raiva. Era decepção. — Então foi isso? — disse por fim. — Você viu uma mensagem, não perguntou nada… e decidiu me punir com o silêncio? — Eu não quis punir você — falei rápido. — Eu só… me afastei. Ela soltou uma risada curta, sem humor. — E vai ser sempre assim? — perguntou. — Sem conversar, você só me ignora? Some? Me deixa falando sozinha? As palavras pesaram mais do que um grito. — Eu já te disse que minha vida é complicada — continuou. — Que eu não consigo explicar tudo de uma vez. Mas em nenhum momento eu te desrespeitei. Baixei a cabeça. — Eu sei. — Não, Kevin. — ela deu um passo à frente. — Você não sabe. Porque se soubesse, teria perguntado. Teria confiado. Não teria decidido por mim o que eu merecia. Aquilo doeu porque era verdade. — Eu fiquei dias tentando entender o que tinha feito de errado — ela continuou, a voz falhando agora. — Revendo cada conversa. Cada gesto. E você simplesmente… sumiu. — Eu tive medo — admiti. — Medo de estar me envolvendo sozinho. — E eu? — ela perguntou, com os olhos marejados. — Você acha que eu não estava? O silêncio caiu de novo. Mas agora não era confortável. Era o tipo que separa pessoas. — Aquela mensagem — ela disse, limpando uma lágrima que insistia em cair — não era o que você imaginou. Mas agora… agora nem sei se isso importa mais. Meu peito apertou. — Importa pra mim — falei. — Sempre importou. Ela respirou fundo, tentando se recompor. — Eu não posso estar com alguém que, ao primeiro sinal de insegurança, prefere se afastar em vez de conversar — disse, firme. — Eu já tive gente demais decidindo coisas por mim. Ela se virou, pronta para ir embora. — Ana… — chamei. Ela parou, sem olhar. — Eu gosto de você — disse. — Mais do que deveria. Ela fechou os olhos por um segundo. — Eu também gostava de quem você era quando ficava. E saiu. Fiquei ali, parado, entendendo tarde demais que não foi o ciúme que quase nos separou. Foi a falta de diálogo. As ameaças não voltaram gritando. Voltaram sussurrando. Primeiro foi uma ligação sem ninguém do outro lado. Depois, mensagens apagadas segundos depois de chegarem. Números desconhecidos. Perfis sem foto. Frases curtas demais para serem engano. Você achou mesmo que tinha sumido? Dívidas não desaparecem. A gente sempre encontra o que é nosso. Ana tentou ignorar. Como sempre fez. Mudou a rotina. Variou horários. Evitou lugares previsíveis. Apagou mensagens antes que alguém pudesse ver. Antes que Kevin pudesse ver. Porque agora, mais do que nunca, ela não podia envolvê-lo. Ele tinha se afastado. E, de certo modo, isso facilitava. Doía, mas facilitava. Se algo acontecesse, não o atingiria diretamente. Era isso que ela repetia para si mesma. Mas o medo não respeita lógica. Naquela manhã, ao sair do café — o mesmo de sempre, o único lugar onde ainda se sentia minimamente segura — encontrou um envelope preso ao para-brisa do carro. Sem nome. Sem remetente. As mãos tremeram antes mesmo de abrir. Dentro, havia apenas uma foto. Ela reconheceu o lugar na hora. A casa dos pais. Reconheceu também a data escrita atrás. Era recente demais para ser coincidência. E uma frase, escrita à mão: Fugir não te salvou. O ar sumiu dos pulmões. Ela entrou no carro e ficou ali, parada, com a testa encostada no volante, tentando controlar o choro, tentando ser forte como sempre foi obrigada a ser. O celular vibrou. Número desconhecido. Ela não atendeu. Vibrou de novo. — Droga… — sussurrou. Atendeu. — Achou que eu tinha esquecido de você? — a voz masculina do outro lado era calma demais. — Seus pais ainda lembram muito bem do acordo. — Eu não pertenço a você — respondeu, a voz firme por fora, quebrada por dentro. — Pertence sim. Só está atrasada. A ligação caiu. Ana saiu dali em disparada. Não foi para casa. Não foi para a academia. Não foi para lugar nenhum que fizesse parte da rotina. Foi para onde jurou não voltar enquanto não tivesse respostas. O prédio da polícia. Ela parou em frente, olhando para a entrada, o coração batendo forte demais. Sabia que ali dentro havia dezenas de policiais. Sabia que ali dentro havia segurança. E sabia que ali dentro havia Kevin. Ela respirou fundo. Talvez estivesse na hora de parar de carregar tudo sozinha. Talvez o silêncio tivesse custado caro demais. E, sem saber ainda como, o passado que ela tentou enterrar começava a se misturar perigosamente com o presente — ameaçando não só a vida que ela construiu… mas também as pessoas que ela aprendeu a amar. Mesmo quando tentou evitar.
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