oque eu causei

913 Palavras
Eu quase não fui Festas nunca foram meu lugar seguro. Gente demais, olhos demais, perguntas demais. Mas ficar em casa naquela noite parecia pior. Parecia derrota. Minha amiga insistiu. Disse que eu precisava sair, dançar, lembrar que ainda existia fora da minha própria cabeça. Acabei aceitando. Quando cheguei, a música estava alta, as luzes piscavam, o ar cheirava a bebida doce e liberdade fingida. Foi então que eu o vi. Kevin. Encostado perto do bar, sério demais para aquele ambiente. Conversava com alguém, mas não parecia presente. Meu coração errou o passo. Por um segundo, pensei em ir embora. Não fui. Se ele tinha escolhido se afastar, eu não devia nada a ele. Nem explicações. Nem cuidado extra. Passei por perto sem olhar. Ou fingi não olhar. Fui direto para a pista de dança, deixei a música tomar conta do corpo, deixei o ritmo decidir por mim. Dançava sozinha. Livre por fora. Confusa por dentro. Alguns homens tentaram se aproximar. Sorrisos fáceis. Mãos oferecendo bebida. Convites óbvios. — Não, obrigada — eu dizia, educada, sem espaço para insistência. Eu não estava ali para ninguém. Eu estava ali para não sentir. Minha amiga, ao contrário, parecia em um campeonato invisível. Beijava um, ria com outro, sumia e reaparecia com copos diferentes na mão. — Você devia aproveitar — ela gritou perto do meu ouvido. Sorri. Um sorriso que não chegava aos olhos. Continuei dançando. Sozinha. De olhos fechados às vezes. Fingindo que a música bastava. Em algum momento, senti o olhar dele. Não precisei olhar para saber. A pele reconhece antes da razão. Mesmo assim, não virei. Não dei espaço. Não dei sinal. Se ele queria distância, teria. Eu não devia correr atrás de alguém que decidiu ir embora sem dizer por quê. Quando a música mudou para algo mais lento, senti o cansaço chegar. Fui até o bar pegar água. Foi ali que quase nos cruzamos de novo. Passei por ele. De perto o suficiente para sentir o perfume. De longe o suficiente para não dizer nada. — Ana… — ouvi meu nome. Não parei. Não porque não doeu. Mas porque doeu demais. Voltei para a pista e continuei dançando, enquanto tudo dentro de mim gritava o contrário. Naquela noite, eu não queria explicações. Não queria confronto. Queria apenas provar — nem que fosse só por algumas horas — que eu não era alguém esperando ser escolhida. Mas mesmo cercada de música, luz e gente… eu só conseguia sentir a ausência dele. E isso me deixou perigosamente vulnerável. Ela bebia. Não muito. Não a ponto de perder o controle. Mas o suficiente para criar uma barreira líquida entre o que sentia e o que não queria sentir. E, o tempo todo, evitava me olhar. Eu via tudo. Via o copo sempre cheio. Via o jeito como ela virava o rosto quando sentia minha presença. Via como dançava sozinha, como se estivesse tentando provar alguma coisa — talvez para mim, talvez para ela mesma. E eu sabia. Eu tinha estragado tudo. Ciúme é uma coisa feia quando nasce do medo. E o meu tinha vindo rápido, impulsivo, m*l resolvido. Eu não perguntei. Não conversei. Não confiei. Eu simplesmente me afastei, achando que isso me protegeria. Só que não protegeu ninguém. Fiquei parado, encostado na parede, observando enquanto outros homens tentavam se aproximar dela. Nenhum conseguia. Ela não dava a******a. Educada, firme, distante. Aquilo não me aliviou. Doía mais. Porque deixava claro: não era falta de caráter. Não era joguinho. Era mágoa. Em algum momento, nossos olhares quase se cruzaram. Quase. Ela desviou no último segundo e levou o copo à boca como se aquilo fosse mais fácil do que me encarar. Eu passei a mão no rosto, irritado comigo mesmo. Parabéns, Kevin. Você conseguiu. Impulsivo demais para esperar. Orgulhoso demais para perguntar. Covarde demais para admitir que estava com medo de perdê-la — e acabei fazendo exatamente isso. Quando vi que ela já não estava tão firme nos pés, algo dentro de mim entrou em alerta. Não como policial. Como alguém que ainda se importava demais. Ela saiu da pista e foi em direção à área externa. Eu esperei alguns segundos. Não queria parecer perseguição. Não queria invadir de novo. Mas também não consegui ficar parado. Segui. Ela estava apoiada no corrimão, respirando fundo, olhando para a rua como se precisasse de ar. A música lá dentro parecia distante agora. — Ana… — chamei, baixo. Ela não virou. — Eu sei que eu estraguei tudo — continuei. — Com muito ciúme. E com silêncio. Eu sei. Ela apertou os dedos no copo. — Às vezes — disse ela, finalmente — o silêncio machuca mais do que a verdade. Aquilo me atingiu em cheio. — Eu sou impulsivo — falei. — Sempre fui. No trabalho isso quase me matou algumas vezes. Com você… — respirei fundo — eu deixei o medo mandar. Ela virou o rosto devagar. Os olhos estavam brilhando. Não de bebida. De emoção contida. — Você não me perguntou nada, Kevin. — Eu sei. — a voz falhou. — E eu me arrependo todos os dias desde então. O silêncio caiu entre nós de novo. Mas agora era outro. Mais honesto. Mais perigoso. Eu não sabia se ainda havia algo a salvar. Só sabia que fugir de novo seria repetir o erro. E, pela primeira vez desde que a vi dançando sozinha naquela pista, eu entendi: amar alguém também é ter coragem de enfrentar as próprias falhas. Mesmo que seja tarde demais.
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