o ciumes e afastamento dele

805 Palavras
O que eu pensei ver Não foi intenção. Nunca é. O celular dela vibrou enquanto estava sobre a mesa, iluminando o rosto dela por um segundo rápido demais para ser ignorado. Ana estava no banho. Eu não toquei no aparelho. Não precisei. A tela acendeu com uma notificação curta. Um nome que eu não conhecia. Uma mensagem que não explicava nada… e, ao mesmo tempo, explicava demais para uma mente já frágil. “Preciso te ver. Isso não pode esperar.” Meu estômago revirou. Bloqueei a tela como se aquilo fosse apagar o que eu tinha visto. Não apagou. A frase ficou ecoando na minha cabeça, ganhando tons que talvez nunca tenham existido. Quando Ana voltou, enxugando o cabelo, eu já não era o mesmo. — Tá tudo bem? — ela perguntou, percebendo na hora. — Tá — respondi rápido demais. Mentira grande. Do tipo que cria distância. Tentei agir normal. Ri quando devia rir. Toquei quando devia tocar. Mas algo em mim tinha mudado. Um incômodo surdo, crescendo sem controle. Ciúme. Medo. A sensação infantil e perigosa de estar sendo deixado de fora. Naquela noite, fui embora mais cedo. Nos dias seguintes, comecei a me afastar sem anunciar. Respostas mais curtas. Convites adiados. Silêncios onde antes havia presença. Ana percebeu. Claro que percebeu. — Fiz algo errado? — perguntou numa mensagem. Demorei para responder. “Só preciso de um tempo.” Ela não insistiu. E isso doeu mais do que qualquer discussão teria doído. A imagem daquela mensagem no celular voltava sempre. Eu me odiava por isso. Porque, no fundo, eu sabia: eu tinha prometido não invadir, não pressionar, não exigir explicações que ela não estava pronta para dar. E mesmo assim, ali estava eu, criando uma história inteira na minha cabeça… e punindo Ana por algo que eu não tive coragem de perguntar. Passei a evitar a cafeteria. Evitar o parque. Evitar lugares que carregavam o riso dela. Dizia a mim mesmo que era maturidade. Que era proteção. Que era melhor assim. Não era. Era medo. Porque amar alguém que carrega segredos é aceitar não saber tudo. E, pela primeira vez desde que nos conhecemos, eu tinha falhado nisso. Enquanto eu me afastava tentando me proteger… Ana ficava sozinha, lidando com coisas que eu sequer imaginava. E eu ainda não sabia, mas aquele afastamento — silencioso, m*l explicado — estava prestes a custar muito mais do que um m*l-entendido. Quando ele se afastou Eu senti antes de entender. Kevin não disse nada. Não discutiu. Não explicou. Ele apenas começou a não estar. E a ausência dele era mais barulhenta do que qualquer briga. As mensagens ficaram curtas. As respostas demoradas. Os convites desapareceram como se nunca tivessem existido. E eu fiquei tentando refazer os últimos dias na minha cabeça, procurando o momento exato em que tudo tinha mudado. Não encontrei. Na cafeteria, sentei sozinha pela primeira vez em semanas. O café tinha o mesmo gosto. O lugar, a mesma calma. Mas eu não. Só preciso de um tempo. Li a mensagem dele tantas vezes que as palavras perderam o sentido. Tempo pra quê? Pra quem? Pensei em contar tudo. Em acabar com o mistério de uma vez. Em explicar sobre as mensagens, sobre o medo, sobre o homem que não me deixava em paz. Não contei. Porque o silêncio dele doía mais do que qualquer ameaça. Passei a evitar os lugares onde a gente ria. Não suportava a sensação de esperar por alguém que talvez não viesse mais. À noite, o telefone ficava ao meu lado, mudo, pesado demais para ser ignorado. E o pior não era a solidão. Era a dúvida. Eu tinha prometido a mim mesma que não deixaria ninguém se aproximar demais. Que não criaria laços que pudessem ser quebrados. E mesmo assim, ali estava eu, sentindo falta do jeito como ele me olhava, como se eu fosse mais do que um problema esperando para acontecer. O celular vibrou numa madrugada. Número desconhecido. “Ele não é o tipo certo pra você.” Fechei os olhos com força. Eu sabia quem era. As ameaças vinham. Mas agora vinham acompanhadas de algo novo: culpa. Porque Kevin estava se afastando sem saber que, do jeito torto dele, estava me protegendo — e, ao mesmo tempo, me machucando. Eu sentei no chão do quarto, abraçando os joelhos, sentindo aquele peso antigo voltar. A sensação de não ser escolhida. De ser deixada quando mais precisava ficar. Talvez eu tivesse errado em convidá-lo para o meu aniversário. Em aceitar o beijo. Em permitir que ele visse partes de mim que eu mesma evitava. Ou talvez eu tivesse errado agora, por não correr atrás dele. Mas o medo sempre vence quando a gente já perdeu demais. E eu não sabia se estava pronta para lutar por alguém… quando o perigo que me seguia podia, finalmente, alcançá-lo.
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