linhas que nao se apagam

1255 Palavras
O delegado fechou a porta da sala com força controlada demais para ser casual. — Kevin — disse, apoiando as duas mãos na mesa — você está quebrando todas as regras possíveis. Kevin permaneceu de pé. Não sentou. Não recuou. — Ela agora está sob proteção da Justiça — o delegado continuou. — E você tem sentimentos por ela. Isso compromete tudo. Kevin respirou fundo. Quando falou, não houve defesa precipitada. Houve verdade. — Senhor delegado… ela está protegida, sim. — disse com calma. — Mas ela não é um objeto que a gente guarda numa gaveta e chama isso de justiça. O delegado franziu o cenho. — O que você quer dizer com isso? — Quero dizer que ela passou a vida inteira sendo tratada como coisa. Vendida pelos pais. Usada por um criminoso. Culpada por uma mãe que não suporta o próprio erro. — Kevin engoliu em seco. — Eu não vou permitir que agora ela seja separada de tudo o que ainda a mantém em pé. — Você está envolvido demais. — Estou humano demais — corrigiu. — E isso não me impede de fazer meu trabalho. Me impede de repetir a violência com outra forma de poder. O delegado ficou em silêncio por um momento. — Você ama essa mulher — disse, por fim. Kevin não desviou o olhar. — Amo, sim. O silêncio pesou mais ainda. — E exatamente por isso — Kevin continuou — eu não posso deixá-la acreditar que ela é descartável. Que sempre que alguém diz “é pelo seu bem”, ela perde o direito de escolher. O delegado passou a mão pelo rosto, cansado. — Kevin, se isso der errado— — Se der errado — Kevin interrompeu, firme — vai ser porque durante anos todo mundo fechou os olhos. Não porque um policial decidiu proteger alguém de verdade. — Você está pedindo exceção. — Não — respondeu. — Estou pedindo coerência. O delegado o encarou por longos segundos. — Ela fica sob protocolo — disse, finalmente. — Com equipe. Com regras. E você se mantém afastado das decisões operacionais. Kevin assentiu. — Desde que ela não seja isolada como punição por ter sobrevivido. O delegado suspirou. — Você sabe que está andando na linha mais fina possível. Kevin respondeu sem hesitar: — Eu sei. Mas algumas linhas não foram feitas pra separar pessoas. Foram feitas pra impedir monstros. O delegado abriu a porta. — Sai daqui antes que eu mude de ideia. Kevin saiu com o coração acelerado, mas a consciência firme. Quando chegou até Ana, ela estava sentada, abraçando as pernas, o olhar perdido. — Eles vão me tirar daqui, né? — perguntou, com medo antigo na voz. Kevin se ajoelhou na frente dela. — Não — disse com firmeza. — Ninguém vai te arrancar de nada. Nem de mim. Nem de você mesma. Ela o olhou, insegura. — Você não é obrigado— — Eu sei — ele respondeu. — Eu escolho. Ela respirou fundo, os olhos marejados. — Eu não quero ser um peso. Kevin segurou o rosto dela com cuidado. — Você nunca foi um peso. Você foi sobrevivente num mundo que falhou com você. Ela encostou a testa na dele. — Eu tenho medo de te perder. — Então não me compara — ele respondeu, com a voz baixa, mas intensa. — Eu não sou como eles. Eu não vou te abandonar quando ficar difícil. Ela fechou os olhos, deixando as lágrimas caírem. E naquele instante, mesmo cercados por protocolos, regras e perigo, algo ficou claro: A justiça pode proteger corpos. Mas só o amor protege a alma. E Kevin estava disposto a enfrentar qualquer consequência para não permitir que Ana fosse quebrada outra vez. Dois meses passaram rápido demais e lentos ao mesmo tempo. O silêncio do agressor assustava mais do que as ameaças. Não havia mensagens, ligações, rastros. Apenas a sensação constante de que algo estava suspenso no ar, esperando o momento certo para cair. Kevin chegou naquela tarde sem uniforme. Jeans, camiseta simples, o olhar cansado de quem não parava de procurar respostas. Ana abriu a porta e, por um segundo, esqueceu do medo. Esqueceu do passado. Só viu ele. Eles sentaram no sofá. Conversaram sobre coisas pequenas — o clima, a prova dela, um filme qualquer. Kevin sempre fazia isso: devolvia normalidade a um mundo que tinha sido quebrado. Dois beijos. Carinhosos. Calmos. Sem urgência. Foi Ana quem se afastou primeiro. — Kevin… eu preciso falar com você. Ele sentiu o corpo dela tensionar antes mesmo das palavras. — O que foi? Ela respirou fundo. Demorou. Como quem organiza um terremoto por dentro. — Eu sei que você me ama. Sei que você é apaixonado por mim. E eu… eu sinto isso. — Ela engoliu em seco. — Mas eu não posso passar desse ponto agora. Kevin não se mexeu. Não tentou tocar. Apenas ouviu. — Ele ainda tá solto, Kevin. — A voz dela falhou. — E eu tenho medo. Medo que ele vá atrás de você. Que te machuque. Que te use pra me atingir. — Ana— — Não é só isso — ela continuou, rápida, como se tivesse medo de perder a coragem. — Eu passei por coisas demais. Coisas que ainda moram no meu corpo, mesmo quando minha cabeça diz que você é diferente. Ela abaixou o olhar. — Eu sei que você não é ele. Eu sei que você nunca me faria m*l. Mas quando nossos beijos ficam mais intensos… eu percebo. Eu percebo o desejo. E eu entro em pânico. Kevin sentiu o peito apertar, mas não desviou. — E se um dia eu nunca puder? — ela sussurrou. — Se eu nunca conseguir te corresponder dessa forma… você vai se frustrar. Vai se chatear. Vai me odiar. Ela finalmente o encarou, os olhos cheios de medo. — E se passar um ano… dois… três… e mesmo assim eu ainda não conseguir entregar meu corpo do jeito que você merece? O silêncio que se seguiu não foi vazio. Foi denso. Kevin se aproximou devagar, pedindo permissão com o olhar antes de tocar a mão dela. — Ana — disse baixo — deixa eu te falar uma coisa, e você me escuta até o fim. Ela assentiu, trêmula. — Eu não te amo pelo que você pode me dar. Eu te amo pelo que você é. — Ele respirou fundo. — Seu corpo não é uma dívida. Não é uma obrigação. Não é um prêmio por eu ter ficado. Ela começou a chorar. — Desejo não me assusta — ele continuou — mas te machucar me apavoraria. E se a única coisa que você puder me oferecer por muito tempo for presença, conversa, café r**m e esses beijos tímidos… então é isso que eu quero. Ela soluçou. — Você não vai me odiar? Kevin encostou a testa na dela. — Eu vou te respeitar. Todos os dias. Mesmo nos dias em que você tiver medo. Mesmo se esse medo durar mais do que a gente imagina. Ela fechou os olhos, respirando com dificuldade. — Amor de verdade não exige — ele sussurrou. — Amor espera. Ana o abraçou forte, como quem se agarra a algo seguro depois de muito tempo à deriva. — Obrigada por não tentar me consertar — ela disse entre lágrimas. — Você não está quebrada — Kevin respondeu. — Você está se curando. E naquele sofá simples, sem promessas grandiosas, sem pressa, eles escolheram algo raro: Ficar. Mesmo quando seria mais fácil ir embora.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR