aceita na policia

1086 Palavras
Kevin respirou fundo antes de falar. Não havia pressa na voz dele. Só verdade. — Deixa eu te dizer uma coisa, Ana. Ela ergueu o rosto devagar, atenta. Vulnerável. — Eu me apaixonei por você na primeira vez que te vi. — O quê? — ela travou, os olhos arregalados. — Sim. — ele sorriu de leve. — Naquele dia em que a gente se esbarrou. Você com os livros caindo pelo chão. Eu nem sabia seu nome ainda… mas eu queria ver de novo aquele olhar. Ela sentiu o coração falhar uma batida. — Esse olhar — ele continuou — aí. — Esperou até que ela o encarasse. — Ele me disse tudo. Eu nunca mais consegui esquecer. Ana engoliu em seco. — Depois a gente se esbarrou de novo. Em outro lugar. Depois no café. Sempre parecia acaso, mas pra mim já não era. Aos poucos a gente foi se aproximando… você sempre tímida, sempre em alerta. Mas eu sabia. Ele tocou a mão dela com cuidado. — O seu olhar, Ana, já tinha me dito que era você. A mulher da minha vida. Tinha algo em você… algo forte demais pra ser ignorado. Mesmo com tudo isso, eu fiquei. Os olhos dela se encheram de lágrimas. — Você tá dizendo… — a voz dela saiu baixa — que você esperou só pra saber se eu ia deixar você ficar? — Exatamente. — ele respondeu sem hesitar. — Eu fiquei esperando você me dizer seu nome. Me deixar te abraçar. Me deixar te beijar. O silêncio entre eles era cheio de emoção. — Eu te amo — ele disse. — E pra mim, fazer amor com você agora não importa. Ana respirou fundo, tremendo. — A sua primeira vez — ele continuou, firme e doce — vai acontecer quando você estiver pronta. Quando você quiser. E eu te prometo que vai ser inesquecível pra você. Ela começou a chorar. — O que aquele homem fez… aquilo não foi sua primeira vez. Foi abuso. — Kevin falou com cuidado, sem raiva, sem ódio, só verdade. — A primeira vez é quando a gente escolhe. Quando existe desejo, segurança, amor. Ele aproximou a testa da dela. — E quando você escolher ficar comigo, Ana, eu vou te tratar como uma joia. Não porque você é frágil, mas porque você é rara. Ela fechou os olhos, deixando as lágrimas caírem. — Não me importa se vai demorar um ano… dois… três. — Ele sorriu de leve. — O tempo não me assusta. Só não me afasta. Ana segurou as mãos dele entre as suas. — Me deixa ficar na sua vida desse jeito. Te ajudar. Te proteger. Cuidar de você… cuidar da sua irmã. — A voz dele falhou pela primeira vez. — E quando você se sentir pronta… aí sim. No seu tempo. Sempre no seu tempo. Ela sorriu entre lágrimas. Um sorriso verdadeiro. Raro. Beijou as mãos dele com carinho. — Eu não te mereço, Kevin… Ele negou com a cabeça, encostando a testa na dela. — Você merece muito mais do que te deram. — sussurrou. — E eu vou enfrentar o mundo inteiro por você. Ela respirou fundo, sentindo algo que há muito tempo não sentia. Segurança. E, pela primeira vez em anos, Ana acreditou que amor não precisava doer para ser real. Algumas semanas depois, o celular de Ana vibrou no meio da tarde. Ela demorou dois segundos a mais do que o normal para olhar a tela. Quando leu, o coração disparou. “Candidata aprovada. Apresentação obrigatória para início do treinamento policial.” As mãos começaram a tremer. Ela respirou fundo e abriu a conversa com Kevin. Você pode vir aqui depois do plantão? Preciso conversar. A resposta veio rápido. Posso, amor. Meu plantão tá quase acabando. Vou passar em casa, tomar um banho rápido e vou pra aí. Levo um lanche pra gente também, tá? Tá bom, ela respondeu, com um coração que pesava e aquecia ao mesmo tempo. Enquanto isso, Ana estava sentada no sofá com Clara, as duas dividindo um cobertor velho e o silêncio confortável de quem já passou por coisa demais juntas. Clara foi a primeira a falar. — E aí… o que você vai fazer, irmã? Ana suspirou. — Eu passei. Clara arregalou os olhos. — Sério?! — Sim… — Ana sorriu fraco. — É meu sonho, né? Sempre foi. Mas eu tô com medo. Clara se virou totalmente pra ela. — Medo do quê? — De tudo. Do treinamento. Do que pode acontecer. Do agressor ainda estar solto. — Ela respirou fundo. — E da realidade também, Clara. A gente precisa de dinheiro. Clara ficou séria. — O dinheiro tá acabando? — Muito. — Ana assentiu. — O pouco que eu consegui nesses dois anos, trabalhando escondida, tá quase no fim. Eu consigo pagar no máximo mais dois meses de aluguel aqui. E ainda tem comida… roupas… tudo. Clara ficou pensativa por um instante. — Então por que você não pede ajuda pro Kevin? Ana virou o rosto na hora. — Clara… não. — Por quê? — Porque ele já ajuda demais. — Ana falou baixo. — E se um dia a gente não der certo? Eu não quero me sentir em dívida com ele. Não quero que ele ache que eu fiquei por necessidade. Clara franziu a testa. — Então eu trabalho. Ana negou imediatamente. — Não. Você tá terminando a escola. Você precisa terminar, depois fazer sua faculdade. — Eu posso estudar e trabalhar. — Não agora. — Ana foi firme. — Você já perdeu coisa demais por minha causa. Clara ficou em silêncio por um segundo… e então sorriu. — Tá bom. Então talvez eu mude de ideia. — Como assim? — Acho que vou ser advogada. Ana riu, surpresa. — Uma irmã advogada? — Uhum. Ana sorriu de verdade pela primeira vez naquele dia. — Ia ser ótimo… uma irmã advogada. Clara a abraçou de lado. — E uma irmã policial também. — disse com carinho. — Não desiste, Ana. Você estudou demais pra isso. Lutou demais. Ana fechou os olhos, sentindo o peso e o orgulho ao mesmo tempo. — Eu só queria que fosse mais fácil. — Mas se fosse fácil… — Clara deu de ombros — não seria você. O som da chave na porta se ouviu minutos depois. Ana se levantou, o coração acelerado. Kevin tinha chegado. E ela sabia: aquela conversa não ia decidir só um trabalho. Ia decidir o próximo passo da vida delas.
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