Já fazia cinco dias que estava presa.
Cinco longos e torturantes dias naquela jaula.
A cada dia fazia um risco na parede, no tempo que me sobrava de paz e quietude.
O que na maioria das vezes, era sempre.
Na minha mente tentava traçar um plano absurdo de fuga, tendo como base que seria quase impossível fugir sozinha. Mas não impossível.
– Clare Thompson – Fecho meus olhos respirando fundo, deitada na cama de cimento.
Vejo do lado de fora a policial que havia me colocado na viatura.
Ela abre a cela, levanto parando em sua frente.
– Vire – diz séria.
Obedeço, sentindo as algemas gélidas contra minha pele.
– Para onde vai me levar?
– Fique quieta – Ela me puxa para fora da cela.
Talvez houvesse chegado a hora de ir para o presídio e ter que enfrentar peixes grandes. Já que a então “chefe” daquela cela, estava em coma em algum hospital.
Caminhamos por um longo corredor, virando á direita.
Ela abre a primeira porta, me colocando sentada em uma cadeira de alumínio.
– Se me trouxe aqui para saber alguma coisa do Coroa. Está perdendo seu tempo – digo sem hesitar, sem paciência para mais perguntas sobre ele.
– Não está aqui por causa disso – Ela apoia os cotovelos na mesa.
Estreito os olhos, tentando descobrir qual era o motivo então.
– Então por que me trouxe aqui? – pergunto com o cenho franzido.
– Deve ser difícil para Ronan e Elisabeth, saber que está presa. De novo. E que dessa vez, não pode ter sorte e não sair mais – pressiono meus lábios engolindo em seco – Acabar morrendo na cadeia – finaliza.
Às poucas vezes que parei para pensar em meus irmãos, estando presa, quase morri. Entrei em pânico, mandei quatro presidiários para a enfermaria e um carcereiro, ganhando como prêmio a solitária.
Não queria ter que repetir este episódio novamente.
Eles sem dúvida, eram meu ponto fraco.
– Quer dar o fora daqui?
A olho por alguns segundos confusa e desconfiada.
– Qual é a pegadinha? – Inclino a cabeça para o lado.
– Você só tem que aceitar uma proposta.
– Que seria...?
– Ser barriga de aluguel.
Ergo às sobrancelhas surpresa.
– Ouvi bem? Você disse barriga de aluguel?! – Me mexo desconfortável na cadeira.
– Sim – Ela caminha de um lado para o outro na minha frente – Só irá gerar o bebê e me dará após o nascimento.
Pondero às palavras pensativa.
– O que ganho em troca?
– Sua liberdade e uma ficha limpa.
Com o dinheiro que tinha guardado, poderia recomeçar do zero. Se possível bem longe dali.
Era melhor do que fugir e acabar encarcerada pelo resto da minha vida.
– Está falando sério?
– Nunca falei tão sério em toda minha vida. É pegar ou largar – Fixo meu olhar no vazio – Irei entender se quiser passar o resto da sua vida atrás das grades.
– Não. Espere! – digo de repente, a fazendo me olhar com um pequeno sorriso nos lábios – Vai mesmo limpar minha ficha?
– Te dou minha palavra.
Respiro fundo. Era pegar ou apodrecer num presídio.
– Sendo assim, eu aceito – digo acreditando ser a melhor saída daquele inferno naquele momento.
– Ótimo. Vou cuidar da sua saída daqui.
– Onde você vai? – pergunto ao vê- la ir até a porta.
– Você quer ou não sair daqui? – Ela sai da sala trancando a porta.
Barriga de aluguel, penso sarcasticamente.
Gerar uma criança que não me pertencia era loucura. Mas era meu passaporte para fora daquele lugar.
Lá fora pensaria no que iria fazer, talvez não cumprisse a promessa e fugisse para outra cidade.
Tinha bastante alternativas.
Era um plano perfeito.
Só precisava sair dali para executar.
O que parecia ser uma eternidade se passou, até ouvir a porta sendo destrancada.
– Já parou para pensar que isso é loucura, Valerie?
Valerie, repito na minha mente, quando Dylan entra com ela na sala.
– Apenas faça o que eu disse, Dylan – diz com a voz firme.
– Podemos ser exonerados dos nossos cargos! Já pensou nisso?!
– Não seremos, o.k.? Papai irá me ajudar.
– Papai está ajudando você!? – Ele repete surpreso.
– Como acha que conseguirei limpar os antecedentes criminais dela?
– Céus, Valerie! – Ele exclama aborrecido.
– Oi. Poderiam tirar essas algemas de mim? Estão me incomodando – digo chamando a atenção de ambos.
– Quieta – Ela ordena como se eu fosse um cão – Vai ou não fazer o que te pedi? – pergunta se voltando para o irmão novamente.
– Tenho opção? – Ele olha para mim, soltando o ar dos pulmões – Bruce sabe disso?
– Ele saberá na hora certa.
Dylan caminha até mim, segurando meu braço
– Então até mais tarde então – diz para Valerie,me puxando para fora da sala.
– Onde ele vai me levar? – pergunto para Valerie, sem receber resposta.
– É melhor continuar quietinha, princesa – diz Dylan, me levando para os fundos do departamento.
Descemos escadas de incêndio até o térreo, caminhando em seguida para o estacionamento.
Ele abre o porta malas da viatura, olhando para mim em seguida.
– Não vou entrar aí – Eu não tinha fobia de lugares apertados mas, ali não parecia ser muito confortável
– Ah. Você vai sim! – Ele me força a entrar batendo com força quando entro.
Respiro pela boca, me mantendo calma.
Inspirando e expirando algumas vezes, mantendo os olhos fechados.
Ouço o carro ligar segundos depois.
Permanece em movimento por pelo menos dez minutos, até parar e ouvir o portão de uma garagem abrindo.
O carro entra de ré, para só então Dylan abrir o porta malas.
– Espero que tenha gostado da viagem – Me tira abruptamente do interior do porta-malas.
Abrindo uma porta na garagem, lotada de caixas e outros objetos, entramos na casa.
Ele me joga no sofá de couro, indo até a cozinha.
O fato de me tratarem como boneca de pano, já estava me estressando.
Ouço o abrir da geladeira e de uma tampa de cerveja.
– Quando irá tirar essas algemas?
Dylan toma um gole da cerveja.
– Estou começando a gostar de você assim – Sorri de canto, dando mais um gole na cerveja.
Ele se aproxima estendendo a garrafa em minha direção.
– Quer um pouco? Pode tomar – oferece.
Forço um sorriso.
– Não me faça fazê- lo engolir essa garrafa – ameaço sem diminuir o sorriso forçado.
Ele sorri, sentando em uma poltrona em frente A TV.
– Você que sabe.
Permaneço algemada por quatro horas, enquanto encarava o relógio na parede.
Meus braços estão dormentes e formigando. Havia tentando por uma hora me livrar das algemas, por alguma razão àquelas éram mais difícil de tirar do que às outras.
Quando a companhia toca, Dylan levanta num pulo, saindo de frente á TV.
– Por que demorou tanto? – pergunta para Valerie, que passa por ele com sacolas.
– Tive que inventar uma desculpa convincente para Bruce.
Ela olha para mim, colocando uma das sacolas sobre a mesa de centro.
Fecho os olhos inalado o cheiro inebriante.
Comida.
Ela vem até mim, me virando rudemente para tirar as algemas.
Me ajoelho em frente á mesa de centro, massageando meus pulsos, para só então abrir uma das sacolas.
– Qual o plano agora? – Dylan pergunta, abrindo uma sacola.
– Ela vai ficar aqui – Ambos se olham – Até falar com Bruce e arrumar um lugar.
– Tenho casa, se quer saber – digo com a boca cheia.
– Não irá voltar para aquele moquifo – Ela rebate.
– Só que naquele moquifo tem minhas roupas – retruco.
– Dylan cuida disso.
– Eu?! – Dylan dispara.
Valerie vai para a porta.
– Tenho que voltar para casa – abre a porta – Dá alguma camiseta sua. Se vira – Em seguida sai da casa batendo a porta.
Desvio o olhar de Dylan, voltando a comer.
– Quando vou poder tomar um banho? – pergunto me sentindo mais do que satisfeita, algum tempo depois.
– O banheiro fica no corredor à direita – Dylan responde com os olhos na TV, voltando a se sentar.
– Preciso de roupas, se não percebeu – Ele me olha, levantando.
Desaparece no corredor, voltando minutos depois com uma camiseta e uma calça de moletom cinza.
– Toma – Joga as roupas em mim, levanto marchando até o banheiro – E não tranca a porta! – grita quando já estou no meio do caminho.
Tá de s*******m, penso, jogando as peças de roupa dentro do lavatório, me despindo das que estava vestido.
Entro no chuveiro, soltando o ar lentamente dos pulmões. Era ótimo, tomar um banho digno depois de tanto tempo.
Meus pulsos haviam ficado roxos, graças ao tempo que permaneci algemada.
Tirar aquele cheiro de cadeia que impregnava até a alma, era um alívio e uma benção ao mesmo tempo.
Demoro mais de cinco minutos, ensaboado todo meu corpo e o enxaguando pelo menos duas vezes.
Desligo o chuveiro, esticando o braço pra pegar a toalha. Ao pegá- la me enrolo, me deparando com Dylan na porta.
– Perdeu alguma coisa aqui? – pergunto áspera.
– Só vim checar se não fugiu pelo ralo.
– i****a – Fecho a porta na cara dele, me vestindo – Onde vou dormir? – pergunto ao abrir a porta, após lavar minhas roupas.
Ele coloca a algema em um dos meus pulsos, me puxando até o quarto de hóspede.
– Aqui – Me algema a cama.
– E se eu se quiser ir no banheiro?! – Ele para na porta, balançando as chaves da algema.
– É só gritar que eu venho.
Puxo a algema em vão, soltando bruscamente o ar dos pulmões.
Estava presa novamente. Porém, com uma diferença: só havia mudado de lugar.
Nos primeiros minutos algemada, procuro com o olhar algo que me ajudasse a me soltar. Não encontrando nada.
Não havia nem um grampo dando sopa.
Tenta puxar minha mão para fora daquele objeto de metal, era loucura e não queria correr o risco de quebrar minha mão.
Após algum tempo, acabei por desistir por exaustão, concluindo que não havia nada que pudesse ser feito.