Capítulo 07: Sob o Mesmo Céu.

1108 Palavras
Klara Narrando: Castelo, ao anoitecer. Eu não planejei fugir. A ideia simplesmente… aconteceu. Como se tivesse sido plantada em mim na noite anterior, quando ele disse “eu volto” e, pela primeira vez, a fera não rugiu contra a aproximação de alguém. Passei o dia inteiro sentindo algo diferente, não a dor habitual que antecede a transformação ou a inquietação violenta que me dilacera por dentro quando o sol começa a se pôr. Era… silêncio. Um silêncio vivo. As runas nas paredes da torre ainda brilhavam em tons fracos de azul, pulsando com a magia que me mantinha contida e eu conhecia o ritmo delas, conhecia os pontos cegos também. Anos vivendo numa prisão ensinam mais do que qualquer livro. Esperei o momento exato em que a guarda troca de turno, quando os passos se sobrepõem e o corredor fica por um breve segundo sem atenção total. Passei os dedos pela pedra próxima à janela estreita, onde uma das inscrições já estava desgastada pelo tempo, ou pela minha insistência. Sussurrei as palavras que aprendi observando os magos de meu pai. Não para quebrar a magia, eu não tinha força para isso, mas para adormecê-la por um instante. O brilho falhou e meu coração disparou. — Só um momento — murmurei para mim mesma. E então passei, o corredor estava frio, real e livre. Meus pés descalços tocaram o chão de pedra como se eu nunca tivesse sentido algo assim antes, pois cada passo era um risco, cada respiração, um desafio ao destino. Mas a fera… estava quieta, não apenas contida, apenas quietamente presente. Eu podia senti-la como se estivesse deitada dentro do meu peito, a cabeça apoiada nas patas, observando o mundo através dos meus olhos. — Você não quer sair? — sussurrei, enquanto descia a escadaria lateral que levava aos jardins. Nenhuma dor respondeu, nenhum impulso de rasgar minha pele, apenas uma sensação estranha de… curiosidade. O céu já escurecia quando alcancei as portas que davam para os jardins reais. A lua começava a subir crescente e pálida, suficiente para me provocar em outras noites. Prendi a respiração e esperei. Nada. O vento tocou meu rosto, era frio doce, livre e eu quase chorei. Empurrei a porta e o cheiro das flores me atingiu primeiro, jasmins e rosas noturnas, misturados ao perfume úmido da grama. Eu não lembrava da última vez que estivera ali como eu mesma, então caminhei devagar, os dedos roçando nas folhas, sentindo texturas que não me causavam dor. A fera se mexeu. Mas não como ameaça, ela se levantou dentro de mim como quem desperta para algo esperado e então eu senti. Antes de vê-lo. Meu coração perdeu o ritmo e ergui os olhos e vi que ele estava ali. Adam. Do outro lado do jardim, próximo ao lago onde as estátuas antigas observavam o reflexo da lua. Ele treinava sozinho, a espada movendo-se com precisão fluida, cortando o ar como se enfrentasse inimigos invisíveis. Os movimentos eram firmes, controlados d poderosos. Meu coração acelerou tanto que tive medo de que ele pudesse ouvir. E então aconteceu, a fera reagiu. Mas não houve rosnado, não houve tensão. Ela apenas… se aproximou. Senti um calor suave se espalhar pelo meu peito, um reconhecimento diferente do da noite anterior, era mais profundo, mais íntimo. Era como se ela estivesse inclinando o focinho invisível em direção a ele, como se o estudasse e o aceitasse. Minha respiração ficou irregular. — O que é isso? — sussurrei. Nunca senti algo assim. A fera sempre foi dor, raiva, fome e descontrole. Mas agora… era quase ternura. Adam abaixou a espada por um instante, passando a mão pelos cabelos, respirando fundo. A luz da lua desenhava sombras em seu rosto, suavizando a dureza habitual e ele parecia cansado, mas não derrotado e, por alguma razão inexplicável, aquilo me afetou. Meu coração não acelerava por medo. Era outra coisa, algo que fazia minhas mãos tremerem de forma diferente. A fera soltou algo dentro de mim, não um som, mas uma sensação. Aprovação. Eu cambaleei um passo para trás, assustada. — Não — murmurei. — Não faça isso. Mas ela não recuou, pelo contrário, a presença dela se expandiu com suavidade, envolvendo-me como um manto quente. Pela primeira vez desde que a maldição despertara em mim, eu não sentia que lutávamos uma contra a outra. Estávamos… juntas. Adam virou a cabeça de repente e eu coração parou. Ele não poderia me ve, eu estava parcialmente escondida pela sombra das árvores, mas seus olhos percorreram o jardim como se tivesse sentido algo. Como se tivesse sentido a mim. A fera dentro de mim se agitou, mas de forma quase… ansiosa e carinhosa.Eu senti isso claramente. Como se quisesse se aproximar, não para atacar ou para dominar. Mas para… tocar. As lágrimas vieram sem que eu percebesse. — Você está sentindo isso também? — sussurrei, embora soubesse que ele não podia ouvir. Ele deu um passo na direção das árvores. Meu coração parecia prestes a sair do peito. Por um momento insano, eu quis sair das sombras, quis que ele me visse, quis saber o que aconteceria se nossos olhos se encontrassem sob o céu aberto, sem portas, sem runas, sem medo. Mas o peso da realidade caiu sobre mim. Se alguém nos visse… Se meu pai descobrisse… Se Varkhan já estivesse observando… Recuar foi como arrancar um pedaço de mim mesma. A fera protestou, não com violência, mas com uma sensação de perda e isso doeu mais do que qualquer transformação. Adam parou. Olhou diretamente para onde eu estivera. Por um segundo, apenas um, tive certeza de que nossos olhares se encontraram através da escuridão e o mundo pareceu prender a respiração. Então vozes ecoaram ao longe. Guardas. Adam se afastou, a expressão endurecendo novamente e eu permaneci escondida até que o jardim ficasse vazio. Quando finalmente me movi de volta para a torre, compreendi algo que me fez estremecer. A lua estava alta e eu ainda era eu. Sem dor, sem garras rasgando minha pele e sem sangue. A fera caminhava ao meu lado por dentro. E, pela primeira vez, eu não tinha medo dela, eu tinha medo do que aquilo significava. Porque se a maldição podia se acalmar… Se podia escolher… Se podia reagir com algo que se parecia perigosamente com afeto… Então talvez eu nunca tivesse sido apenas uma prisão. Talvez eu fosse o elo e, se isso fosse verdade, a guerra que se aproximava não seria apenas entre reinos. Seria entre o que me transformaram… E o que eu estava começando a me tornar. E, em algum lugar no castelo, eu sabia: Ele sentiu também.
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