Capítulo 08: Aquilo que Não Me Rasga

1126 Palavras
Klara Narrando: Castelo. Voltar para a torre nunca pareceu tão estranho. Eu já tinha atravessado aqueles corredores centenas de vezes, escoltada, observada e vigiada. Mas naquela noite, cada passo parecia diferente, pois eu não caminhava como prisioneira, caminhava como alguém que carregava um segredo quente demais para as próprias mãos. A lua já estava alta quando alcancei a escadaria lateral. Ainda não doía e isso era o que mais me assustava. A transformação sempre começava como um formigamento nas veias, depois vinha o calor, a pressão nos ossos, o rasgar inevitável da pele. Era um relógio c***l e previsível. Mas agora… nada, a Fera estava ali e eu a sentia. Mas não como uma tempestade tentando romper o céu. Ela caminhava sob minha pele como um animal atento, tranquilo, respirando no mesmo ritmo que eu. Quando empurrei a porta escondida que levava ao meu aposento, encontrei o caos. — KLARA! Elora praticamente colidiu comigo. Seus cabelos estavam soltos, desalinhados e os olhos, vermelhos. Havia velas acesas demais no quarto, e as runas nas paredes brilhavam mais forte do que o normal, sinal claro de que os magos haviam reforçado a contenção junto com ela. Ela me segurou pelos ombros com tanta força que quase perdi o equilíbrio. — Onde você estava? — a voz dela tremia. — Eu acordei e você não estava aqui. As runas falharam por um momento. Eu achei que… eu achei que... Ela não terminou. Não precisava. — Eu saí — sussurrei. O silêncio que se seguiu foi denso. — Você… saiu? — Ela piscou, tentando entender. — Saiu como? Dei um pequeno sorriso, ainda incrédula. — Andando. Elora me soltou devagar, como se eu pudesse desaparecer. — Klara… a lua está alta. Eu sabia. Olhei para minhas mãos e estavam intactas, sem sangue, sem garras. — Eu sei. Ela olhou ao redor, como se esperasse ver marcas de destruição. — Você… se transformou e voltou? Está controlando o retorno? Balancei a cabeça. — Eu não me transformei. O quarto ficou pequeno demais de repente. Elora me encarou como se eu tivesse dito que o céu caíra. — Isso é impossível! — Eu também achei. Sentei-me na beira da cama, sentindo as pernas finalmente tremerem, não de dor e sim, de emoção contida. — Eu fui aos jardins. Elora ficou branca. — Você perdeu completamente o juízo?! — Não — respondi, mas minha voz saiu frágil. — Eu precisava saber. — Saber o quê? Respirei fundo. — Se ela ainda me odiava. Elora suavizou o olhar. Ela sempre soube que minha maior luta não era contra a maldição… mas contra o que eu acreditava ser. — E então? — ela perguntou mais baixo. Fechei os olhos por um instante. — Ela não queria sair. Elora ficou em silêncio. — A lua estava lá e eu senti. — Levei a mão ao peito. — Mas não havia dor, não havia fome, não havia aquela… ruptura. — O que havia? Abri os olhos. — Calma. A palavra pareceu absurda no ar. Elora se aproximou lentamente, sentando-se à minha frente. — Isso nunca aconteceu antes? — Nunca. — Hesitei. — Eu o vi. Ela não precisou perguntar quem. — Adam. O nome pairou entre nós. A Fera se moveu dentro de mim ao ouvi-lo, não agressiva, mas desperta e Elora percebeu a mudança em minha respiração. — O que aconteceu? Minhas mãos se fecharam no tecido do vestido. — Meu coração acelerou. — Isso é normal quando um alfa... — Não assim! — interrompi e engoli em seco. — Ela reagiu. Elora ficou imóvel. — Reagiu… como? Minha voz saiu quase como um segredo proibido. — Com carinho. A palavra me queimou por dentro. Elora arregalou os olhos. — Klara… a Fera não sente carinho. — Eu sei! — levantei-me abruptamente, a confusão transbordando. — Eu sei o que ela é., sei o que faz comigo e o que fez com as aldeias. Mas naquela hora… foi diferente! Caminhei até a janela estreita da torre. — Ela não quis avançar e não quis dominar. Foi como se… — procurei as palavras — como se ela estivesse reconhecendo algo. Elora ficou em silêncio por um longo momento. — Ele sentiu também? — perguntou por fim. Assenti devagar. — Ele se virou antes de me ver, como se soubesse. A Fera se acomodou dentro de mim ao lembrar. Nenhuma dor. Nenhuma luta. Eu levei a mão ao peito novamente, quase temendo que tudo aquilo desaparecesse se eu falasse demais. Elora se levantou e começou a andar de um lado para o outro, o hábito que tinha quando pensava. — A maldição sempre foi descrita como uma ruptura — murmurou. — Alma dividida, instinto sobre razão, predador sobre humano. Ela parou diante de mim. — Mas e se estiverem interpretando errado? Eu a encarei. — Como assim? Elora hesitou apenas um segundo. — E se a maldição não for sobre divisão… mas sobre rejeição? Meu coração bateu mais forte. — Explique! — Você sempre lutou contra ela, resistiu e tentou suprimi-la. — Ela tocou levemente meu braço. — E se isso a tornasse mais violenta? Minha respiração falhou. — Está dizendo que eu causei... — Não! — Elora apertou meu braço com firmeza. — Estou dizendo que talvez vocês duas nunca tenham sido inimigas. Apenas nunca aprenderam a coexistir. A palavra ecoou em mim. Coexistir. Eu senti a Fera se mover com suavidade, como se escutasse atentamente. — Ela não tentou me machucar hoje — sussurrei. — Porque talvez não precise mais provar que existe. As runas na parede brilharam mais fracas, como se refletissem meu estado. — E Adam? — perguntei. Elora inclinou a cabeça. — Alfas são âncoras naturais, uma força estável. Se há um vínculo instintivo… pode ter despertado algo diferente nela. Meu coração voltou a acelerar, mas não de medo, mas de possibilidade. — Você acha que… que eu posso viver assim? Elora me encarou com algo entre esperança e temor. — Acho que, pela primeira vez, você não está sendo dominada. — Ela sorriu levemente. — Talvez esteja aprendendo a dividir o mesmo corpo. Lá fora, a lua brilhava plena. Eu ainda era eu e ela ainda estava aqui. Mas não como uma tempestade, como presença. Respirei fundo e, pela primeira vez desde que a maldição despertara em mim, não senti que precisava escolher entre sobreviver… ou ser inteira. Talvez houvesse um terceiro caminho e se isso fosse verdade… Então meu pai estava errado, o reino estava errado. E a guerra que se aproximava não precisava de uma arma. Precisava de equilíbrio. Eu apenas não sabia se o mundo estava pronto para aceitar que a Fera e eu… podíamos ser uma só. E, no fundo, algo me dizia: Adam já começava a entender.
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