Klara Narrando:
Castelo.
Voltar para a torre nunca pareceu tão estranho.
Eu já tinha atravessado aqueles corredores centenas de vezes, escoltada, observada e vigiada. Mas naquela noite, cada passo parecia diferente, pois eu não caminhava como prisioneira, caminhava como alguém que carregava um segredo quente demais para as próprias mãos.
A lua já estava alta quando alcancei a escadaria lateral. Ainda não doía e isso era o que mais me assustava.
A transformação sempre começava como um formigamento nas veias, depois vinha o calor, a pressão nos ossos, o rasgar inevitável da pele. Era um relógio c***l e previsível.
Mas agora… nada, a Fera estava ali e eu a sentia.
Mas não como uma tempestade tentando romper o céu. Ela caminhava sob minha pele como um animal atento, tranquilo, respirando no mesmo ritmo que eu.
Quando empurrei a porta escondida que levava ao meu aposento, encontrei o caos.
— KLARA!
Elora praticamente colidiu comigo.
Seus cabelos estavam soltos, desalinhados e os olhos, vermelhos. Havia velas acesas demais no quarto, e as runas nas paredes brilhavam mais forte do que o normal, sinal claro de que os magos haviam reforçado a contenção junto com ela.
Ela me segurou pelos ombros com tanta força que quase perdi o equilíbrio.
— Onde você estava? — a voz dela tremia. — Eu acordei e você não estava aqui. As runas falharam por um momento. Eu achei que… eu achei que...
Ela não terminou. Não precisava.
— Eu saí — sussurrei.
O silêncio que se seguiu foi denso.
— Você… saiu? — Ela piscou, tentando entender. — Saiu como?
Dei um pequeno sorriso, ainda incrédula.
— Andando.
Elora me soltou devagar, como se eu pudesse desaparecer.
— Klara… a lua está alta.
Eu sabia. Olhei para minhas mãos e estavam intactas, sem sangue, sem garras.
— Eu sei.
Ela olhou ao redor, como se esperasse ver marcas de destruição.
— Você… se transformou e voltou? Está controlando o retorno?
Balancei a cabeça.
— Eu não me transformei.
O quarto ficou pequeno demais de repente. Elora me encarou como se eu tivesse dito que o céu caíra.
— Isso é impossível!
— Eu também achei.
Sentei-me na beira da cama, sentindo as pernas finalmente tremerem, não de dor e sim, de emoção contida.
— Eu fui aos jardins.
Elora ficou branca.
— Você perdeu completamente o juízo?!
— Não — respondi, mas minha voz saiu frágil. — Eu precisava saber.
— Saber o quê?
Respirei fundo.
— Se ela ainda me odiava.
Elora suavizou o olhar.
Ela sempre soube que minha maior luta não era contra a maldição… mas contra o que eu acreditava ser.
— E então? — ela perguntou mais baixo.
Fechei os olhos por um instante.
— Ela não queria sair.
Elora ficou em silêncio.
— A lua estava lá e eu senti. — Levei a mão ao peito. — Mas não havia dor, não havia fome, não havia aquela… ruptura.
— O que havia?
Abri os olhos.
— Calma.
A palavra pareceu absurda no ar.
Elora se aproximou lentamente, sentando-se à minha frente.
— Isso nunca aconteceu antes?
— Nunca. — Hesitei. — Eu o vi.
Ela não precisou perguntar quem.
— Adam.
O nome pairou entre nós.
A Fera se moveu dentro de mim ao ouvi-lo, não agressiva, mas desperta e Elora percebeu a mudança em minha respiração.
— O que aconteceu?
Minhas mãos se fecharam no tecido do vestido.
— Meu coração acelerou.
— Isso é normal quando um alfa...
— Não assim! — interrompi e engoli em seco. — Ela reagiu.
Elora ficou imóvel.
— Reagiu… como?
Minha voz saiu quase como um segredo proibido.
— Com carinho.
A palavra me queimou por dentro. Elora arregalou os olhos.
— Klara… a Fera não sente carinho.
— Eu sei! — levantei-me abruptamente, a confusão transbordando. — Eu sei o que ela é., sei o que faz comigo e o que fez com as aldeias. Mas naquela hora… foi diferente!
Caminhei até a janela estreita da torre.
— Ela não quis avançar e não quis dominar. Foi como se… — procurei as palavras — como se ela estivesse reconhecendo algo.
Elora ficou em silêncio por um longo momento.
— Ele sentiu também? — perguntou por fim.
Assenti devagar.
— Ele se virou antes de me ver, como se soubesse.
A Fera se acomodou dentro de mim ao lembrar. Nenhuma dor. Nenhuma luta.
Eu levei a mão ao peito novamente, quase temendo que tudo aquilo desaparecesse se eu falasse demais.
Elora se levantou e começou a andar de um lado para o outro, o hábito que tinha quando pensava.
— A maldição sempre foi descrita como uma ruptura — murmurou. — Alma dividida, instinto sobre razão, predador sobre humano.
Ela parou diante de mim. — Mas e se estiverem interpretando errado?
Eu a encarei.
— Como assim?
Elora hesitou apenas um segundo.
— E se a maldição não for sobre divisão… mas sobre rejeição?
Meu coração bateu mais forte.
— Explique!
— Você sempre lutou contra ela, resistiu e tentou suprimi-la. — Ela tocou levemente meu braço. — E se isso a tornasse mais violenta?
Minha respiração falhou.
— Está dizendo que eu causei...
— Não! — Elora apertou meu braço com firmeza. — Estou dizendo que talvez vocês duas nunca tenham sido inimigas. Apenas nunca aprenderam a coexistir.
A palavra ecoou em mim. Coexistir.
Eu senti a Fera se mover com suavidade, como se escutasse atentamente.
— Ela não tentou me machucar hoje — sussurrei.
— Porque talvez não precise mais provar que existe.
As runas na parede brilharam mais fracas, como se refletissem meu estado.
— E Adam? — perguntei.
Elora inclinou a cabeça.
— Alfas são âncoras naturais, uma força estável. Se há um vínculo instintivo… pode ter despertado algo diferente nela.
Meu coração voltou a acelerar, mas não de medo, mas de possibilidade.
— Você acha que… que eu posso viver assim?
Elora me encarou com algo entre esperança e temor.
— Acho que, pela primeira vez, você não está sendo dominada. — Ela sorriu levemente. — Talvez esteja aprendendo a dividir o mesmo corpo.
Lá fora, a lua brilhava plena. Eu ainda era eu e ela ainda estava aqui.
Mas não como uma tempestade, como presença.
Respirei fundo e, pela primeira vez desde que a maldição despertara em mim, não senti que precisava escolher entre sobreviver… ou ser inteira.
Talvez houvesse um terceiro caminho e se isso fosse verdade… Então meu pai estava errado, o reino estava errado.
E a guerra que se aproximava não precisava de uma arma. Precisava de equilíbrio.
Eu apenas não sabia se o mundo estava pronto para aceitar que a Fera e eu… podíamos ser uma só.
E, no fundo, algo me dizia: Adam já começava a entender.