Lucas O som do disparo não termina quando o eco morre. Ele continua dentro da cabeça. Rafael cai, mas não é isso que me paralisa. Não é o corpo no chão, nem o sangue que começa a se espalhar lento, inevitável. É a fração do segundo anterior. O instante em que tudo ainda podia ter seguido outro caminho e não seguiu. O tiro não foi só o fim dele. Foi uma assinatura. Fico ali, arma ainda apontada, o dedo firme no gatilho mesmo depois de tudo acabado. O corpo reage antes da mente aceitar. Respiração controlada. Olhos atentos. O monstro não dorme assim tão fácil. Meu rádio chia. — Lucas — a voz de Dante vem baixa, tensa. — Você ouviu? Ouviu o quê? Então sinto. O atraso. O vazio súbito no peito. A intuição gritando tarde demais. — Onde está a Clara? — pergunto. Silêncio.

